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História

Como o Citroën DS salvou a vida do presidente francês

Quando a Citroën lançou o DS em 1955 no Salão de Paris o público ficou de queixo caído com seu estilo elegante e futurista e com a lista de acessórios repleta de tecnologias avançadas. Mas o que aquele público e os criadores do DS jamais poderiam imaginar é que sete anos mais tarde, toda aquela tecnologia do carro salvaria a vida do presidente francês Charles De Gaulle.

A Citroën já tinha um longo histórico de carros à frente de seu tempo em termos de projeto e equipamentos. O Traction Avant de 1934, por exemplo, foi o primeiro carro de tração dianteira com carroceria tipo monobloco, antecipando uma configuração que se tornaria o padrão da indústria automotiva somente três décadas mais tarde. Pouco antes de estourar a Segunda Guerra Mundial na Europa, os engenheiros da Citroën começaram a trabalhar em dois carros futuros: um modelo econômico inovador e básico, e um carro de luxo altamente avançado.

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Mas então a Alemanha invadiu a França em 1940. Pierre-Jules Boulanger, o presidente da Citroën na época, odiava os nazistas e pediu aos engenheiros que escondessem todos os projetos e protótipos dos alemães, temendo que eles os transformassem em veículos de guerra.

Boulanger sabia que a guerra não duraria para sempre — e imaginou que quando ela acabasse, a França estaria arrasada. Talvez você já tivesse imaginado, mas os dois carros que eles estavam desenvolvendo eram o 2CV e o DS, que precisavam beber pouco combustível e enfrentar os piores tipos de terreno. Ele também quis que o DS fosse o carro mais sofisticado do planeta, um belo exemplo do que a engenharia da França era capaz de fazer.

A Segunda Guerra Mundial era algo em comum entre o Charles De Gaulle e o DS. De Gaulle era um herói de guerra que tentou sem sucesso modernizar o exército francês antes da invasão nazista. De Gaulle também os odiava.

Ele era veementemente contra a rendição aos alemães, e quando os franceses se renderam, ele tornou-se o líder da França Livre, e conduziu o governo do país em exílio na Inglaterra. Depois da guerra De Gaulle serviu brevemente como primeiro-ministro do governo provisório, mas acabou retirando-se depois de uma crise política e foi eleito presidente em 1958.

Charles De GaulleNessa época o DS já havia se tornado um grande sucesso, e era o meio de transporte preferido dos ricos e poderosos da França. Além de suas formas estonteantes e aerodinâmicas, o DS tinha uma longa lista de características técnicas que o colocava à frente dos outros carros da época. Ele tinha tração dianteira e discos de freio dianteiros de série, carroceria em monobloco, interior espaçoso e confortável e transmissão manual automatizada.

Mas o maior feito da Citroën — e a peça chave dessa história — era a suspensão hidropneumática do DS. A maioria dos carros usavam (e ainda usam) um conjunto de molas e amortecedores como suspensão. Mas o DS não. Ele tinha um sistema de suspensão independente com amortecedores curtos preenchidos com gás e óleo em cada roda. Isso permitia que a suspensão do carro fosse ajustada em rigidez e altura automaticamente de acordo com a carga e o tipo de piso. Este sistema permitia que o carro ficasse sempre nivelado, e o motorista poderia ajustar a altura de rodagem manualmente.

Estas características fizeram um carro com inigualável comportamento dinâmico e conforto. Muitos descrevem a rodagem do DS como “um passeio de tapete voador”.

Pulamos para 1962. De Gaulle cedeu à independência da Argélia, o país norte-africano que ate então era uma colônia francesa engajada em uma sangrenta guerra por sua soberania. Sua decisão causou a ira da Organisation Armée Secrète (OAS), um grupo paramilitar contrário à independência da Argélia, que diante da situação decidiu assassinar o general.

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Então, em 22 de agosto daquele ano, quando De Gaulle e sua esposa foram levados do Palácio do Eliseu ao Aeroporto de Orly, na Avenue de la Liberation doze integrantes da OAS abriram fogo contra o DS presidencial. Uma rajada de 140 balas, a maioria delas disparadas por trás do carro, mataram dois seguranças do presidente, estilhaçaram o para-brisa traseiro do carro e furaram alguns pneus.

Mas o Citroën DS era sofisticado demais para ser abatido por alguns simples tiros. Embora tenha derrapado inicialmente, a suspensão do carro manteve-se alinhada e funcionante, mesmo com os pneus furados. O motorista conseguiu fugir e levou ilesos o presidente e sua esposa ao aeroporto. Este atentado foi dramatizado no clássico filme “O Dia do Chacal” (The Day of The Jackal – 1973).

O papel do DS na fuga do atentado fez De Gaulle gostar ainda mais do carro. Ele se recusava a rodar com outro modelo. Em 1969, quando a Fiat tentou comprar a Citroën à beira da falência, o presidente limitou a participação italiana a 15%. A Citroën acabou permanecendo em mãos francesas como parte do grupo PSA – Peugeot Citroën.

Às vezes, na hora e local certos, um carro pode mudar a história.

[ Fotos: The U.K. National Archive, David “Dodo” Avila, Five Starr Photos, Getty Images ] 

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