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Como o preconceito no trânsito faz de você um motorista pior

Confessa: você já deixou de ser gentil com alguém que estava dirigindo com uma mão no celular e outra no volante. No mínimo, ficou puto com a atitude do mané. Ou não deixou um cara com um carrão entrar numa rua em que você circulava. Se você nunca fez isso, parabéns: você pertence a uma sutil maioria que não deixa o preconceito interferir em sua forma de dirigir. Segundo um estudo da Continental Pneus, 45% dos motoristas do Reino Unido não têm a mesma sorte.

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Essas pessoas, cerca de 16 milhões de motoristas, interagem com os demais, no trânsito, de acordo com suas crenças. Cerca de 27%, por exemplo, são mais gentis com motoristas que têm exatamente o mesmo modelo de carro que o delas. Identificação automotiva? Bem provavelmente, o que mostra que, no trânsito, as pessoas tendem a se ver de modo impessoalizado. Não são outros motoristas, mas sim outros carros, como se não houvesse ninguém ao volante.

A pesquisa também aponta que 60% dos cerca de 2.000 entrevistados reagem negativamente a carros com adesivos de para-choque que expressem crenças ou gostos diferentes dos seus. Como times de futebol, religiões e até adesivos de bebê a bordo!

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Do total, cerca de 58% dos motoristas também julgam mal quem dirige um veículo sujo, como se isso fosse um sinal de pouca higiene pessoal. Em suma, tem gente que acha que quem anda em um carro empoeirado está com o CC vencido, chulé ou coisa pior.

Outro resultado interessante da pesquisa, divulgada recentemente pela Continental do Reino Unido, é a quem os motoristas dão passagem ou não em cruzamentos. Se você estiver dirigindo um carro caro, sua chance de ser tratado com gentileza é duas vezes menor do que alguém com um automóvel comum. Veja, abaixo, os dez tipos mais sujeitos a ser ignorados em cruzamentos:

 

1  – Quem fala ao celular

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Vamos combinar que dirigir e falar ao celular não é realmente legal. Como já escrevemos por aqui, dá para ficar conectado ao mundo numa boa sem afetar a segurança ou atrapalhar o andamento das vias, como quem usa celular incorretamente costuma fazer. Aqui, até conseguimos pensar em uma justificativa racional para não dar passagem: distraído, o sujeito ao celular vai entrar na via devagar e vai empatar o caminho de quem apenas quer chegar aonde precisa. Mas nenhum motorista é fiscal de trânsito para ficar dizendo quem pode ou não circular, não é?

 

2 – Esportivo

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Segundo a pesquisa, a justificativa para não dar passagem a alguém com carro esportivo é puro despeito. Ou aquela mania inexplicável de querer competir com quem é aparentemente melhor. Como os donos de “esportivos” que ficam na esquerda como se fosse um privilégio concedido por Deus Todo Poderoso.

 

3 – Reboque

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Deixar que alguém com uma carretinha entre na sua frente será como deixar o cara do celular passar adiante: é quase certeza de que ele, por estar rebocando, vá mais devagar. Para que, portanto, deixar um cara entrar na frente se logo você terá de passá-lo? Uma resposta racional é: porque ele também precisa circular. Outra? Porque a rua não é sua.

 

4 – Carro caro

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Lembra do que falamos lá em cima sobre o que quem tem um veículo luxuoso sofre? Os entrevistados pelo estudo da Continental disseram que não deixam donos de automóveis assim passarem à sua frente porque “eles se acham”. Preconceito puro. Tem muita gente cheia da grana humilde e bacana e muito pobre metido a besta. E não dá para saber como a pessoa e só pelo carro que ela dirige.

 

5 – Off-Road

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Nossa aposta, neste caso, é que SUVs e outros veículos fora-de-estrada (ou que só parece que conseguem encarar uma trilha, como os crossovers) sofrem com dois aspectos. Primeiro, muitos realmente não andam lá muito rápido. E quem está com pressa tende a ser egoísta. Segundo, muitos SUVs são as novas minivans, dirigidos pelo que os americanos chamam de “soccer moms”, ou mães do futebol, que vão pegar a molecada depois da aula na escolinha de seus times.

Mães de futebol realmente dirigem com medo e em velocidades baixíssimas, quando não estão distraídas com o celular e empatando o trânsito na porta da escola em fila dupla. Mas será que todo mundo que dirige um SUV é a nova dona Maria? Olha o preconceito…

 

6 – Táxi

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Quem não dá passagem a táxis não está disposto a esperar que ele pegue o passageiro que está procurando. E que vai continuar a procurar na sua frente. E que vai parar bem na sua frente para deixar entrar, no meio da avenida. Mais do que preconceito, pode ser uma questão de ordem prática: pra que se irritar? Mas nada garante que o tal taxista queira pegar passageiro. E se ele já estiver levando alguém?

 

7 – Carta nova

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Os motoristas britânicos não dão muita pelota ou colher de chá para quem está aprendendo a dirigir (na Inglaterra eles usam uma placa com a letra L para ser identificados). O que é quase a atitude do veterano que esculacha o calouro na faculdade. Esquecendo completamente que ele também já foi calouro ou querendo descontar as humilhações que sofreu nas pessoas erradas. Prova suprema de estupidez. Como não deixar o carta nova passar na sua frente.

 

8 – Ônibus

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Além de ser lento, ele demora para entrar na via por questões físicas. Mas leva muito mais gente do que o seu carro seria capaz de transportar. Por isso mesmo, quando você cede passagem para o ônibus, você está atrasando dezenas de pessoas. Seja civilizado e deixe o cara entrar, ora pois!

 

9 – Van

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Quase o mesmo caso do ônibus, mas com carga. A justificativa para ser grosseiro com o motorista, porém, é o mesmo: velocidade. E o fato de que uma van, assim como um ônibus, provavelmente vai bloquear a visão do trânsito à frente. Mas ela também tem o direito de circular, lembre-se.

 

10 – Aposentado

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A idade diminui os reflexos e motoristas idosos vão, sim, ser um pouco mais lentos. Talvez muito mais lentos, mas também podem ser muito mais rápidos do que você jamais pensou em ser. Sir Stirling Moss tem hoje 86 anos. Emerson Fittipaldi já vai para seus 68. Desrespeita os cabelos brancos destes dois numa pista para ver o couro comer…

Ainda que tenha suas imprecisões e que talvez seja pouco representativa de como agem motoristas de outros países ou mesmo do Reino Unido, pela amostragem baixa, o estudo é bem interessante para lembrar algo fundamental: trânsito é atividade coletiva. Quem quer respeito tem de saber, também respeitar. Não se deixe levar por seus preconceitos na direção. Dirija com atenção e cortesia. Todo mundo sai ganhando.

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