Como surgiram os postos de combustível?

Dalmo Hernandes 20 março, 2017 0
Como surgiram os postos de combustível?

Encher o tanque de combustível e ver o ponteiro subindo é um dos pequenos grandes prazeres da vida – você até esquece (ao menos por alguns instantes) da pequena fortuna que teve de torrar para que isto acontecesse. Mas, ao mesmo tempo, as paradas no posto de combustível são tão rotineiras que, muitas vezes, a impressão que temos é de que eles existem há tanto tempo quanto os automóveis. O que não poderia estar mais longe da verdade: os carros vieram antes dos postos.

Agora, naturalmente, o petróleo veio antes dos carros. Mas não muito antes: o primeiro poço de petróleo comercialmente viável foi perfurado em 1859, 27 anos antes da invenção daquele que é considerado o primeiro automóvel – o Benz Patent Motorwagen, de 1886.

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Naquela época, o petróleo e seus derivados já eram bastante utilizados, fosse na indústria, movendo máquinas a querosene, ou nas cidades, servindo como combustível para lâmpadas de iluminação pública e residenciais, aquecedores, geladeiras e outros equipamentos. No entanto, estes eram movidos a querosene, principal derivado do petróleo na época. Segundo consta, de cada 100 barris de petróleo era possível produzir 60 barris de querosene. Entre os resíduos da produção estava a gasolina – cerca de 11 barris.

O produto era considerado exatamente isto: um resíduo, e ia direto para o lixo – sequer servia como um bom solvente. Foi a invenção do carro, por Karl Benz (que foi o responsável por criar componentes como o carburador, as velas de ignição, a embreagem e o radiador para arrefecimento líquido), que finalmente deu à gasolina alguma serventia.

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No início, evidentemente, não havia postos de combustível. Você deve lembrar da história de Bertha Benz, a primeira mulher a fazer uma viagem de carro. É comum que se diga que ela foi a primeira pessoa a usar um posto de combustível, mas isto não é bem verdade: o Patent Motorwagen foi abastecido com benzina comprada em farmácias ao longo da viagem inaugural da sra. Benz.

Depois, os donos dos primeiros automóveis precisavam comprar combustível em armazéns de secos e molhados – aqueles que seu pai ou seu avô dizem ser os lugares onde se comprava de tudo: tecidos, arroz e feijão, biscoitos, pães e utilidades domésticas em geral. Estes armazéns também vendiam querosene e, mais tarde, gasolina.

Foi assim nos primeiros anos do século XX, até a popularização de um equipamento crucial para a criação dos postos de combustível. Sabe qual? A bomba de combustível, claro!

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A criação da bomba de combustível costuma ser creditada a um cara chamado Sylvanus Freelove Bowser (que gostava mais de assinar como S.F. Bowser, e a gente entende o motivo), de Fort Wayne, em Indiana. Sua invenção era capaz de medir e dispensar querosene de forma confiável, e foi instalada pela primeira vez em um estabelecimento comercial em 5 de setembro de 1885, em uma mercearia de Fort Wayne. Como você deve ter notado, a bomba de combustível foi inventada um ano antes do automóvel, e não foi criada especificamente para abastecer veículos, e sim para tornar o ato de comprar (e vender) querosene mais prático. Ela era capa de comportar até 160 litros do combustível.

A bomba usava uma válvula de vidro, um atuador (plunger) de madeira e uma torneira de metal, sendo operada manualmente. Sua popularidade nos comércios da região de Fort Wayne levou S.F. Bowser a patentear a invenção em 1887. Menos de vinte anos depois, as bombas já eram chamadas pelos americanos de filling stations – “estações de abastecimento”.

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Foi em 1905 que Bowser aperfeiçoou sua bomba, adicionando uma mangueira de borracha – assim, tornou-se possível colocar o combustível direto no bocal de abastecimento dos carros. Ainda naquele ano, o primeiro estabelecimento feito especificamente para abastecer automóveis foi aberto na cidade de St. Louis, no estado do Missouri.

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Dois anos depois, em 1907, um segundo local começou a funcionar na cidade de Seattle, Washington. Ambas utilizavam bombas  S.F. Bowser, modelo 102 “Chief Sentry” – o primeiro a ter uma mangueira e apresentar a possibilidade de ser fechada quando não estava em uso, para evitar roubo de combustível. Na época, um de galão de gasolina (cerca de 3,8 litro) era vendido a 27 centavos – cerca de US$ 6,60 (R$ 20) em valores atualizados.

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Primeiro posto de combustível da Gulf Oil, 1913

No Brasil

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As coisas demoraram um pouco mais para acontecer aqui no Brasil. O primeiro carro desembarcou no Brasil em 1891, no porto de Santos, adquirido por ninguém menos que Alberto Santos Dumont. O carro era um Peugeot com motor Daimler, movido a gasolina, com motor V2 de 3,5 cv.

No início, quem tivesse um carro precisava recorrer aos já citados armazéns, que compravam o combustível de forma independente. Apenas em 1912 teve início um sistema mais unificado de distribuição de querosene, gasolina e outros derivados de petróleo, e apenas em 1919 o primeiro posto de combustível começou a funcionar no Brasil. E também foi em Santos.

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Não era coincidência: o porto de Santos era o canal de entrada dos automóveis no Brasil, e nada mais natural que o primeiro posto também fosse aberto lá. Mas não era um posto, e sim uma bomba (talvez uma das bombas de S.F. Bowser) instalada na rua – como conta o site Memória Santista (de onde também vieram estas fotos) –, mais precisamente na Avenida Ana Costa, em frente ao local onde hoje fica o Atlântico Hotel. Mais do que a primeira bomba de combustível no Brasil, esta foi considerada a primeira bomba de combustível na América do Sul.

Seu proprietário era o empresário Antônio Duarte Moreira, que tinha uma frota de táxis (a primeira de Santos) e a utilizava para abastecer os carros. Com concessão da prefeitura, começou também a comercializar o combustível. O negócio fez sucesso e, anos mais tarde, Moreira conseguiu expandir o negócio, criando a primeira rede de bombas de combustível do País. E ele também começou a vender eletrodomésticos, equipamentos industriais e, veja só, automóveis.