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Car Culture

Como ultrapassar os 300 km/h sem precisar de um supercarro?

Há mais de um século o ser humano é fascinado pela sensação de velocidade que os veículos sobre rodas proporcionam. Década após década, recordes de velocidade foram sendo quebrados e barreiras emblemáticas de quilômetros por hora foram sendo superadas.

Hoje em dia muitos automóveis produzidos em série conseguem passar dos 300 km/h, e muitos outros não podem porque um limitador eletrônico impede que alcancem todo seu potencial. Mas a humanidade não quebrou recorde atrás de recorde à toa. Por isso, vamos revisitar brevemente a história dos 300 km/h e ensinar algumas maneiras relativamente acessíveis para que você também possa chegar lá — sem precisar de um supercarro.

Por que 300 km/h? Já existem vários carros que passam dos 400 km/h!

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Sem dúvida! O Bugatti Veyron e o Koenigsegg Agera, só para ficar nos mais lembrados, são obras primas da engenharia que, dadas as condições ideais, conseguem ultrapassar os 400 km/h. Mas estes números servem mais para benchmarks do que para a prática em si. A primeira versão do Veyron já chegava a 408 km/h, e o carro precisa de pneus especiais que suportem sua velocidade máxima e custam US$ 25 mil (cerca de R$ 54 mil).

Embora ainda seja uma velocidade muito alta, os 300 km/h já são uma barreira muito mais mundana. Aceita-se que o primeiro carro de produção a atingir os 300 km/h  foi a Ferrari 288 GTO, que tinha uma velocidade máxima de 303 km/h — aferidos pela revista alemã Auto Motor und Sport em 1985.

No mais, não é muito fácil encontrar dados sobre veículos que ultrapassem os 300 km/h, provavelmente por causa do sistema de medidas dos EUA. Lá, as marcas costumam ser os 60 mph (100 km/h), 160 mph (260 km/h) e 200 mph (320  km/h).

Mas qual foi o primeiro carro a atingir os 300 km/h?

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Se você imagina que algum bólido alemão da década de 30 foi o primeiro carro do mundo a atingir os 300 km/h, você está enganado. O Sunbeam 1000 HP “Mystery” era inglês, e usava dois motores de avião para gerar cerca de 900 cv — o “1000 HP” do nome era uma licença poética.

O Sunbeam 1000 HP tinha dois motores V12 de 22,4 litros, um em cada ponta do carro, com o piloto no meio. Em sua primeira tentativa de quebrar um recorde em Daytona Beach — e a primeira de um carro de fora dos EUA naquele lugar —, o Mystery atingiu 327,97 km/h. Isto aconteceu em 1927.

E a primeira moto?

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Curiosamente, a primeira moto a superar os 300 km/h só surgiu em 1956 — uma Triumph com motor de 650 cm³. Este mesmo motor deteve o recorde para motos convencionais — sem carenagem aerodinâmica — até 1970.

E se eu quiser passar dos 300 km/h, como faço?

Décadas depois dos recordes quebrados, ficou bem mais fácil passar dos 300 km/h. Quero dizer, dificuldades técnicas como potência, aerodinâmica e eficiência já foram superadas há muito tempo. É claro, porém, que não é todo mundo que tem acesso a um carro muito potente e a um lugar onde seja possível acelerar ao máximo com segurança e sem transgredir nenhuma lei.

Por isso, vamos descartar da lista de opções os carros que ultrapassam os 300 km/h — eles ainda são caros demais para a maioria das pessoas, ainda mais no Brasil, onde até o aluguel de um supercarro é uma aventura limitada a passeios curtos, em rodovias abertas e em comboio. Não dá para alugar um Audi R8, por exemplo, e levá-lo para um circuito fechado para acelerar.

Então eu preciso de uma alternativa…

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Se você quiser ter a chance de pilotar um veículo que seja seu a 300 km/h, um caminho mais rápido e barato é a compra de uma moto esportiva.

Há alguns anos, se alguém te perguntasse qual é moto mais rápida que você conhecia, é bem provável que a resposta fosse “Suzuki Hayabusa”. No início da década de 2000, o lançamento da GXS1300R, com seu motor de 1.299 cm³ e cerca de 160 cv, colocou um fim na guerra pela velocidade máxima entre as motos. Um acordo de cavalheiros entre todas as fabricantes de motos do mundo estipulou que, a partir dali, nenhuma moto teria velocidade máxima maior do que 300 km/h.

Por esta razão, a Hayabusa original tinha velocidade máxima de 312 km/h nos modelos 1999 e 2000, mas de 2000 a 2007 foi limitada a 299 km/h. Mesmo a segunda e atual geração, lançada em 2008, manteve o limite — mesmo que a potência na roda traseira seja 12 cv mais alta.

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Uma GSX1300R Hayabusa nova custa R$ 56.000 reais. Ela vai de 0 a 100 km/h em 2,8 segundos — desempenho de Nissan GT-R por uma fração do preço.

Se você fizer mesmo questão de ultrapassar os 300 km/h em uma moto, a solução está na Itália: a MV Agusta F4 R 1000 312 tem este nome porque, segundo a fabricante, seu motor de 998 cm³ e 186 cv é capaz de levá-la a 312 km/h. A velocidade máxima aferida pela revista italiana Motociclismo foi de 310,99 km/h. A MV Agusta foi a primeira a quebrar o acordo de cavalheiros. Uma MV Agusta F4 custa R$ 62.500, no Brasil.

Cabem aqui duas observações: motos são veículos perigosos e requerem muita prudência no manejo, mesmo em velocidades mais baixas. Imagine, então, a 300 km/h! Além disso, caso você tenha coragem e capacidade, sabemos que testar os limites da sua Hayabusa ou F4 (ou qualquer outra moto superesportiva) em vias públicas é uma péssima ideia.

E se eu tiver medo de andar de moto?

Você pode saltar de para-quedas! Ao saltar de para-quedas de um avião, a velocidade terminal — o ponto onde a aceleração na queda é zero — de um paraquedista é de cerca de 190 km/h caso ele fique com a barriga para baixo. Se ele mergulhar no ar, a velocidade terminal pode chegar aos 320 km/h.

O recorde de velocidade em queda livre para saltos não-estratosféricos (Felix Baumgartner saltou do espaço!) foi quebrado em maio deste ano por Marco Wiederkehr, que atingiu 531,42 km/h em uma competição de queda livre.

E quanto custa saltar de para-quedas?

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Em um salto com instrutor, que custa cerca de R$ 350, dificilmente você conseguirá atingir 300 km/h. Para se tornar um paraquedista e poder saltar sozinho, você precisa completar um curso, que custa a partir de R$ 3.500. São cerca de dez horas de aulas teóricas e semanas de aulas práticas. Um para-quedas novo, completo, custa a partir de R$ 6 mil.

Mas eu não teria coragem de saltar de para-quedas…

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Que tal, então, um passeio de trem? Se você já ouviu falar dos trens-bala, saiba que a origem de tudo está nos Shinkansen japoneses — trens elétricos ultrarrápidos que começaram a operar em 1964. O primeiro trem a ultrapassar a barreira dos 300 km/h foi o Shinkansen Class 961, que atingiu 319 km/h em dezembro de 1979, na pista de testes da cidade de Oyama.

O Class 961 não era um trem comercial, e sim uma plataforma de testes com seis vagões.  Além de servir como mula para novas tecnologias, seus vagões também abrigaram vários tipos de instalações, como restaurantes, bagageiros e dormitórios.

O trem convencional (com rodas sobre trilhos) mais rápido do mundo atualmente é um TGV (Turbotrain Grande Vitesse) francês, que em 2007 atingiu 574.8 km/h.

Para andar em um trem que alcance os 300 km/h, você terá que viajar para fora do Brasil — de preferência, para China, Espanha ou França, que têm as linhas de trem mais rápidas do mundo. Os TGV franceses e os Shinkansen japoneses operam a 320 km/h.

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Quanto custa?

Vamos imaginar que você queira apenas ir para a França, dar um passeio de trem e voltar para o Brasil. Você irá gastar pelo menos R$ 3.800 com as passagens de ida e volta para Paris (a propósito, avião não conta — obviamente eles passam de 300 km/h). De Paris, você pode escolher entre várias cidades — não apenas na França — e comprar os bilhetes, que custam a partir de € 45 (R$ 134).

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