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História

Como uma disputa entre funcionários e a esposa de Enzo quase matou a Ferrari

Enzo Ferrari era um cara de personalidade forte. Ele conhecia seu potencial, sabia a força de sua marca, as qualidades de seus carros e era irredutível quanto a isso. Carroll Shelby, por exemplo, tornou-se um desafeto de Enzo por recusar a “honra de pilotar pela Scuderia”. Ferruccio Lamborghini acabou criando a outra grande fabricante de supercarros italianos depois de ter sido humilhado por Enzo ao sugerir que a embreagem da 250GT era problemática. E a Ford criou um dos protótipos mais incríveis da história depois que Enzo deixou sua comitiva de 14 diretores falando sozinha na sala de reuniões da Ferrari.

O tempo provou que Enzo estava certo: a Ferrari é uma das marcas mais valiosas do planeta e uma das fabricantes mais lucrativas, mesmo limitando sua produção a 10.000 unidades por ano. Mas houve uma ocasião em que a teimosia e a altivez de Enzo quase mataram a Ferrari. E tudo por causa de sua esposa Laura.

Aconteceu em 1961. A Ferrari vinha de uma década vitoriosa nas pistas depois de conquistar as 24 Horas de Le Mans em 1954, 1958 e 1960, o título de pilotos da F1 em 1952 e 1953 com Alberto Ascari, em 1956 com Juan Manuel Fangio e em 1958 com Mike Hawthorn, além de ter faturado nada menos que seis títulos do WSC entre 1953 e 1960. Se havia uma equipe que sabia como ganhar corridas, esta era a Ferrari. Isso refletiu nas vendas de carros de rua, que se tornaram mais famosos e desejados.

O problema é que a década vitoriosa teve um lado trágico que abalou profundamente Enzo Ferrari: em 1956 ele perdeu seu único filho, Alfredo, de apenas 24 anos e nos anos seguintes perdeu quatro pilotos em acidentes com seus carros — Alberto Ascari, Alfonso de Portago, Luigi Musso e Peter Collins. Essa sequência de mortes em carros da Ferrari levou a imprensa e a opinião pública a acusar Enzo de fazer fama à custa das vidas de seus pilotos.

Alfredo "Dino" Ferrari
Alfredo “Dino” Ferrari

Para piorar, a legislação italiana da época previa que o fabricante do carro envolvido em um acidente fatal de automobilismo responderia legalmente pela morte, de forma que Enzo Ferrari acabou processado pelo Estado italiano. Diante de todos estes problemas Enzo se afastou temporariamente da Ferrari e sua esposa Laura assumiu o comando.

Foi quando os problemas começaram. A sra. Ferrari era ainda mais agressiva e tirânica com os funcionários que seu marido, chegando ao ponto de ofender funcionários-chave da fábrica, em especial o gerente de vendas Girolamo Gardini, sua vítima mais frequente. Ela gritava com ele, o insultava por motivos alheios ao seu trabalho e, quando as vendas despencaram, foi culpado pela dona Ferrari em broncas homéricas. É claro que ele não aguentaria aquilo por muito tempo. Então ele fez o que qualquer pessoa faria e foi conversar com Enzo Ferrari.

Laura Ferrari entre Wolfgang Von Trips e Phil Hilll no pódio em Aintree

 

Só que… estamos falando de italianos, um povo conhecido pelo sangue quente, capaz de iniciar uma guerra familiar num almoço de domingo. Gardini foi direto ao ponto: ou Laura Ferrari deixava o comando da fábrica, ou ele deixava a fábrica. É claro que Enzo ficou ao lado de sua esposa e demitiu Gardini, que saiu da sala como ex-funcionário da Ferrari.

Ao saber do ocorrido, o diretor técnico Carlo Chiti, o diretor de design Giotto Bizzarrini e o chefe da equipe de corridas Romolo Tavoni e outros cinco funcionários contrataram um advogado para ajudá-los a escrever uma carta a Enzo Ferrari, posicionando-se contra a demissão do colega. Foi uma atitude ousada, que surpreendeu os demais funcionários da Ferrari, que jamais pensariam em confrontar Enzo. Na carta, eles fizeram a mesma ameaça de Gardini, exigindo a readmissão do colega e o afastamento de Laura Ferrari.

Enzo Ferrari, Carlo Chiti e Giotto Bizzarrini
Enzo Ferrari, Carlo Chiti e Giotto Bizzarrini

Eles achavam que Enzo Ferrari, por mais teimoso que fosse, não decapitaria a própria empresa demitindo seus principais diretores. Eles estavam errados. Enzo Ferrari bancou sua posição e mandou os oito para a rua. E ele fez isso à moda da máfia italiana: após ler a carta, Enzo se manteve em silêncio e prosseguiu a reunião tratando das pautas da semana como se nada tivesse acontecido. Ao fim da reunião os oito diretores receberam da secretária de Enzo um envelope cada um assim que saíram da sala. No envelope havia um salário mensal em dinheiro vivo e uma carta de demissão.

O episódio acabou conhecido como “The Great Walkout”, algo como “A Grande Debandada”, e aconteceu em um momento crítico da Ferrari porque Charlo Chiti havia projetado o 156 “Sharknose” que vencera o campeonato naquele ano e a Lotus estava preparando o contra-ataque para a temporada seguinte. Além disso, Giotto Bizarrini havia começado a trabalhar no projeto que se tornaria a 250GTO, que acabou largado pela metade, enquanto a Jaguar estava lançando o E-Type a Carroll Shelby conseguiu o acordo com a Ford para fazer o Shelby Cobra. E, como se não bastasse, Chiti, Bizzarrini e Tavoni pretendiam criar uma equipe de Fórmula 1 para derrotar a Ferrari.

Enzo Ferrari então tomou a decisão mais improvável: Enzo promoveu ao cargo de diretor técnico um jovem engenheiro de 27 anos chamado Mauro Forghieri e chamou seu velho amigo Sergio Scaglietti para cuidar do design dos carros. Além da dupla, ele ainda contratou novos funcionários mais jovens e menos experientes e recolocou a fábrica e a equipe nos trilhos. Scaglietti e Forghieri terminaram a 250GTO, que se tornou um dos carros mais bem-sucedidos da equipe. Forghieri ainda foi responsável pela evolução da 156 “Sharknose”, que ganhou um design mais aerodinâmico em 1963 e projetou a nova Ferrari 158, que venceu o título de pilotos e construtores em 1964.

Mais tarde, Forghieri ainda seria o responsável pelas Ferrari 312, 312B e 312T e todas as sucessoras até 1986, quando deixou a Ferrari para ingressar na Lamborghini — curiosamente, uma das empresas “originadas” indiretamente pelo temperamento de Enzo Ferrari.

Quanto a Bizzarrini, Chiti e Tavoni, eles também criaram suas empresas, mas esta é uma história para o próximo post.

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