Como Walter Wolf salvou a Lamborghini fazendo do Countach um monstro widebody de alta potência

Leonardo Contesini 14 julho, 2017 0
Como Walter Wolf salvou a Lamborghini fazendo do Countach um monstro widebody de alta potência

O Lamborghini Countach foi um dos supercarros mais duradouros da história. Lançado em 1974, ele continuou em produção até 1990. Foram 16 anos. Dezesseis longos anos. E se você acha que não parece muita coisa, é como se o Murciélago fosse vendido zero-quilômetro até hoje.

Mas a história do Countach poderia ter sido muito diferente se não fosse a influência de um canadense chamado Walter Wolf. Os leitores “vintage” sem dúvida já reconheceram o nome: trata-se do homem por trás da equipe Walter Wolf Racing, que disputou a Fórmula 1 entre 1977 e 1979.

Walter Wolf fez fortuna no início dos anos 1970, fornecendo maquinário para exploração de petróleo no Mar do Norte, a principal reserva europeia do mineral. Proibido de pilotar carros e helicópteros pelos acionistas de sua empresa, ele decidiu comprar uma equipe de Fórmula 1 para se manter próximo dos carros. Arrematou a Frank Williams Racing Cars (a primeira equipe de Sir Frank) e a transformou na Walter Wolf Racing.

Àquela altura Wolf era um cliente fiel da Lamborghini. Tão fiel que comprou quatro Miura em sequência e ainda conseguiu ter seu quarto modelo, um SV 1973, reconstruído e aprimorado pela própria fabricante em 1975. Naquele mesmo ano ele comprara um Countach LP-400, a primeira versão do supercarro, mas não gostou muito do desempenho. E ele tinha alguma razão nisso: apesar do visual futurista, a primeira versão do Countach ainda usava rodas de liga leve originadas nos anos 1960, pneus radiais relativamente estreitos e um acerto de suspensão limitado para suas pretensões.

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Tentando melhorar seu Countach, Walter Wolf  acabou mudando a história do esportivo e da própria Lamborghini, que não estava muito bem das finanças naquela metade final dos anos 1970.

Tudo começou em 1976, quando Wolf já estava envolvido com a Fórmula 1 e ligou para seu amigo Gian Paolo Dallara — considerado pelo próprio Wolf “de longe o melhor engenheiro do mundo” —, para dar um jeito no desempenho da máquina. Na época Dallara era o engenheiro-chefe da Lamborghini, e conhecia cada milímetro do Countach. Wolf entregou o carro ao italiano e, juntos, começaram a modificar o esportivo. Tudo sem limite de orçamento.

O primeiro carro foi pintado de vermelho com a parte inferior preta (esquema um pouco feio hoje, mas muito comum na época) e recebeu uma asa traseira em forma de V, ajustável por um sistema elétrico do próprio cockpit, e arcos alargadores dos para-lamas para acomodar os imensos pneus 335 traseiros. Nenhum carro jamais havia usado um pneu tão grande até então. Eles não existiam. Walter Wolf soube que a Pirelli estava desenvolvendo um novo pneu de alto desempenho, um tal P7, e convenceu os italianos a criar uma medida específica para o seu carro. Os pneus foram calçados nas rodas “disco de telefone”, criadas para o protótipo Lamborghini Bravo.

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Os pneus imensos exigiram que a geometria da suspensão traseira fosse toda revisada para manter pneu externo à curva sempre o mais horizontal possível. As mudanças melhoraram o comportamento dinâmico do carro, porém sem alterações no motor V12 de quatro litros, o desempenho em acelerações e velocidade máxima foi comprometido pelo arrasto da asa. O Countach precisava de mais potência.

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Wolf então bancou um segundo carro, pintado de azul royal. Ele recebeu as mesmas modificações aerodinâmicas, os mesmos pneus enormes, as mesmas rodas “phone dial” e os mesmos alargadores nos para-lamas, porém o V12 teve o deslocamento ampliado para 4,8 litros. A potência ficou nos 400 cv, mas ainda não era suficiente. A solução viria no terceiro Countach encomendado por Wolf, pintado de azul marinho.

O segundo Countach de Walter Wolf nas mãos de Valentino Balboni

O carro recebeu um motor V12 de cinco litros originalmente desenvolvido para o protótipo LP-500 de 1971, teve seus freios trocados por um conjunto com pinças de oito pistões na dianteira com ajuste de distribuição pelo motorista, uma caixa de direção com relação 7:1 derivada da Fórmula 1, suspensão dianteira reforçada e uma suspensão traseira derivada do sistema duplo A dos Wolf de F1.

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O carro ficou ao gosto de Wolf e, segundo o próprio canadense contou em entrevista ao site driving.ca, seu único problema era “uma certa instabilidade na dianteira acima de 300 km/h” porque a “tecnologia de pneus não era tão boa na época”.

Com o desenvolvimento dos três carros de Wolf, a Lamborghini acabou aplicando o know-how adquirido no Countach produzido em série, lançando o Countach LP400 S em 1978 e o LP500S em 1982.

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O lançamento do LP400S, não impediu a falência da marca naquele mesmo 1978, mas foi fundamental para sua recuperação nos anos seguintes. Com as duas versões o Countach finalmente se tornou um supercarro com desempenho condizente com seu visual e um monstro widebody que conquistou toda uma geração na década seguinte. Nas mãos de seus novos proprietários o Countach acumulou mais de 1.600 unidades vendidas, de um total de 2.049 carros e se tornou o modelo mais bem-sucedido da marca até então.

Já a equipe de Wolf não teve o mesmo sucesso: depois das três vitórias e outros seis pódios de Jody Scheckter na temporada de 1977, a equipe só conseguiria mais quatro pódios em 1978 antes de entrar em uma temporada desastrosa em 1979, completando somente duas das 15 corridas da temporada. Ao final daquela temporada, Wolf vendeu a equipe para Emerson e Wilson Fittipaldi e foi curtir a vida longe das pistas.

Os Countach acabaram vendidos e hoje o primeiro modelo está no Japão, o segundo está em um museu na Alemanha e o terceiro em uma coleção particular desconhecida. Na mesma entrevista ao site canadense Driving, Wolf contou que não é um colecionador, e mantém seus carros apenas para satisfação pessoal e depois os vende”. Apesar disso, ele guarda dois carros antigos: um Lamborghini Diablo, que considera um carro fundamental de se pilotar, e um Mercedes 600 “Grosser”, que o levou ao GP de Mônaco vencido por sua equipe em 1977.