A complicada situação da McLaren em um ano decisivo na Fórmula 1

Projeto Motor 19 março, 2017 0
A complicada situação da McLaren em um ano decisivo na Fórmula 1

As profundas mudanças no regulamento técnico da F1 para 2017 representaram um fio de esperança para a McLaren, que acreditava poder aproveitar brechas e dar um salto de performance para voltar aos seus tempos de glória. Mas, apesar de ter iniciado o ano de cara nova, com alterações no corpo técnico, chefia, piloto e até na cor do carro, o aspecto mais importante de toda essa mistura se manteve o mesmo, com problemas mecânicos recorrentes no conjunto e falta de competitividade.

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A situação para os lados de Woking neste início de ano gera grande preocupação no time não só pela possibilidade de mais uma temporada apagada, mas também pelo risco de representar outro tropeço determinante para seu futuro. Por isso, listaremos quais são os maiores desafios que a McLaren enfrenta neste início de 2017 e por que, por ora, o cenário não parece nada animador para a escuderia.

 

A dimensão dos problemas

Muitos podem ignorar este fato, mas a McLaren não sabe o que é ser realmente competitiva há um bom tempo – e isso inclui duas temporadas com os badalados motores Mercedes, em 2013 e 2014, quando subiu no pódio em apenas um GP de 38 disputados. Antes disso, quando acertou no MP4-27, jogou fora a chance de conquistar o título de 2012 com suas inúmeras falhas mecânicas.

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A última vitória da McLaren foi no distante GP do Brasil de 2012

Mesmo assim, para muitos, o fracasso recente do time fica somente por conta da Honda, que, de fato, entregou um produto que deixou a desejar quando retornou à F1, em 2015. Além da potência (especulada entre 50 e 80 cv a menos que as concorrentes), prejudicada tanto pelo motor de combustão interno quanto pelas baterias, o conjunto também apresenta confiabilidade deficiente com seu conceito ultracompacto. Como já explicado pelo Projeto Motor, os motores modernos da F1 precisam trabalhar em perfeita sincronia para recuperar energia de forma eficaz, e a Honda ainda está longe de alcançar tal objetivo.

De olho no tão esperado salto de qualidade, o modelo RA617H apresenta conceito diferente em relação ao seu antecessor, sobretudo na disposição do turbocompressor e do motor dentro do chassi. O objetivo é não só elevar a potência da conjunto, mas também melhorar o centro de gravidade e proporcionar ganho no equilíbrio.

 

Objetivos frustrados

No momento, nada do planejado está saindo do papel – na verdade, um dos grandes assuntos do começo da pré-temporada da categoria, em Barcelona, é justamente a questionável confiabilidade da unidade de potência japonesa.

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Nos cinco primeiros dias de treinos, houve três falhas aparentes: um defeito no tanque de óleo no primeiro dia, uma falha em um dos cilindros do motor de combustão interna na segunda jornada e problemas elétricos no quinto dia de testes. Para piorar, Yusuke Hasegawa, diretor da Honda na F1, admitiu não ter ideia do que pode ter causado as quebras mais recentes, de teor mais grave.

Com duas temporadas decepcionantes nas costas e a possibilidade de mais um ano de vacas magras, o desafio que aparece para a equipe é manter o relacionamento saudável entre as partes enquanto se trabalha por uma solução. E não estamos falando apenas de conter o temperamento às vezes explosivo de Fernando Alonso. Nos testes, foi a vez de Éric Boullier, diretor esportivo da McLaren, dar declarações intrigantes sobre o assunto.

No primeiro dia de atividades da segunda bateria, quando Stoffel Vandoorne precisou ficar por horas na garagem enquanto esperava a troca de motor de seu carro após uma falha, Boullier deu sinais distintos na coletiva de imprensa, acompanhada de perto pelo Projeto Motor.

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Boullier deu sinais de desgaste na parceria entre Honda e McLaren

Primeiro, houve momentos em que mostrou paciência e solidariedade aos colegas japoneses. “Ainda não estou muito preocupado [com a situação]. Nosso trabalho [nos testes]era validar dados e gerar o máximo informação que pudéssemos para fazer a correlação com o CFD, túnel de vento e outras simulações. Nessa parte, gostaríamos de ter testado mais, mas o que fizemos já foi bom”, ponderou o francês, que também descartou qualquer chance de rompimento com a Honda em curto prazo. “Não há chance. Temos um sólido contrato de longa duração em vigor e vamos cumpri-lo.”

Em outros momentos, porém, deixou a diplomacia de lado e limitava-se a dizer “pergunte à Honda” quando se deparava com questionamentos espinhosos. Além disso, disse que a relação estava em “tensão máxima”, responsabilizou os parceiros pelo fracasso do conjunto e insistiu que o trabalho feito no chassi é satisfatório. “Na verdade, o carro reage bem a qualquer modificação que fazemos. No geral, os pilotos estão bastante felizes com o carro. Vi veículos dizendo que nosso carro não está bem nas primeiras três curvas [de Barcelona], mas isso são, como diria Donald Trump, fake news. Isso não é só o chassi. Lembrem-se de que os motores são híbridos, então você tem a participação do motor elétrico quando pisa no acelerador. Estamos tendo alguns problemas de dirigibilidade, o que significa que, quando os pilotos retomam a acelerada, eles perdem a traseira do carro”, disse.

Contudo, ainda é difícil mensurar a real eficácia do MCL32. Todas as equipes andaram longe do limite nas primeiras baterias de testes, já que ainda avaliavam o funcionamento de carros com construção inteiramente nova. E a McLaren, receosa com as falhas de um conjunto frágil, ficou ainda mais aquém do que ela própria pode entregar em termos de desempenho.

 

Corrida contra o tempo

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Dia de Vandoorne foi atrapalhado por quebra em Barcelona

Algumas mudanças de caráter emergencial já foram tomadas. Membro da Ferrari durante a “Era de Ouro” de Michael Schumacher, Gilles Simon deixou o posto de consultor da Honda na F1 no início de março. Porém, a poucas semanas do GP da Austrália, trata-se de uma corrida contra o tempo que a própria McLaren sabe ser difícil de vencer.

O time ainda não definiu qual será o cronograma para a introdução de seus novos motores. A especificação prevista para o GP da Austrália, que deveria ter ido à pista no dia 7 de março, ficou em modo de espera em meio às diversas falhas mecânicas já apresentadas – em cinco dias de atividades, foram utilizados quatro motores, o que já extrapola a quantidade prevista por regulamento para a temporada inteira.

Enquanto isso, as fabricantes concorrentes seguem em evolução plena. Por exemplo, a Renault esperava ganhar 0s3 por volta com sua unidade, e a cliente Toro Rosso destacou que sua potência é perceptível e notável. Já a Ferrari, que já havia alcançado um nível satisfatório nas últimas temporadas, focou na confiabilidade do pacote, tanto na parte do motor quanto na caixa de câmbio, em trabalho já elogiado pela Haas.

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McLaren ainda espera testar o motor que será usado em Melbourne

Este cenário exemplifica um dos maiores desafios da Honda na F1: tentar correr atrás das concorrentes em um regulamento que ainda possui boa margem para desenvolvimento. Ou seja, os japoneses, que já entraram na F1 com anos de atraso em relação aos rivais, ainda veem as outras marcas evoluírem seus equipamentos. Por isso, a Honda precisa alcançar uma curva de desenvolvimento maior do que a concorrência para descontar o atraso, o que, como visto, não é exatamente fácil.

É claro que um início de ano conturbado não necessariamente significa que a temporada inteira está perdida. A expectativa é de que haja uma corrida por desenvolvimento imensa entre as equipes do grid, pois o novo regulamento aerodinâmico dá brecha para evolução, e o sistema de tokens para os motores foi descartado.

Porém, os acontecimentos colocam ainda mais pressão em uma equipe que não pode mais se dar ao luxo de errar. A McLaren tem semanas importantes pela frente para tentar evitar que a temporada comece totalmente em baixa, o que colocaria ainda mais descrença em uma parceria que até agora não se mostrou nada frutífera.