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Continental tire: quando ter o estepe na tampa do porta-malas era chique

Nos últimos anos, o número de carros que oferecem um estepe de tamanho normal como solução para um pneu furado vem diminuindo. Alguns passaram a vir com aquele estepe de tamanho reduzido, para não ocupar tanto espaço no porta-malas (e de uso limitado), enquanto outros decidiram abolir o estepe de uma vez e adotar pneus run-flat, que aguentam por mais algumas dezenas de quilômetros antes de obrigar o motorista a parar e trocar o pneu furado.

Há cinco ou seis décadas, porém, muitos carros não apenas tinham o estepe idêntico aos outros pneus – ele era orgulhosamente exposto do lado de fora do carro, na traseira. Alguns carros chegavam ao ponto de ter um compartimento especial para o estepe, com seu formato, que servia de adorno e era quase encarado como símbolo de status.

Era o chamado Continental tire – “pneu Continental”, em tradução literal. Embora pareça, nada tem a ver com a fabricante de pneus Continental Tire. E, acredite, pensar em um trocadilho a respeito disto é mais difícil do que parece!

A relação é com o Lincoln Continental, como os admiradores de carros norte-americanos clássicos certamente já sabiam. O Lincoln Continental é um dos carros de luxo mais famosos dos EUA – e em 2019, completa 80 anos. Foi em 1939 que Edsel Ford apresentou o conceito Lincoln Zephyr Continental, uma proposta para carro de luxo com um capô extremamente longo, cabine recuada e a traseira proporcionalmente mais curta. Era um perfil elegante, e o projeto foi aprovado pela Ford naquele mesmo ano para a produção em série.

Tanto a versão conceitual quanto o Lincoln Continental produzido em série traziam o estepe montado na face traseira, apoiado no para-choque. No conceito o pneu ficava exposto, mas no carro produzido em série foi incorporada uma cobertura para o estepe, pintada na mesma cor da carroceria.

Não que colocar o estepe fora do carro fosse novidade em 1939. Na verdade, era assim que se fazia no início do século, na década de 1910, quando o automóvel em si ainda era algo relativamente novo. A maioria dos carros de passeio tinha um rack na traseira, onde ficava apoiado um baú de bom tamanho – era o porta-malas. Geralmente o estepe ficava junto do baú. Uma curiosidade: em inglês, este baú era conhecido como steamer, pois seu posicionamento era o mesmo do compartimento de carga de um navio a vapor (steamer boat, em inglês).

Foi só em meados dos anos 1920 que começaram a ser vendidos os primeiros carros com porta-malas de verdade, na forma de um compartimento de carga integrado ao carro – e a ideia só se tornou frequente no início da década de 1930. Nos modelos de motor dianteiro, o porta-malas ficava atrás, e vice-versa para os carros de motor traseiro.

O mais lógico era que o estepe migrasse para dentro do porta-malas – o que, em 1939, fazia do Lincoln Continental uma exceção, e não a regra, em termos de posicionamento do estepe. Por esta razão, e também pela forma elegante como a solução foi executada, o estepe na traseira e o compartimento dedicado onde ele ficava, começou a ser chamado de Continental tire.

O compartimento dedicado para o estepe na traseira logo se espalhou para outros modelos, mais simples, da Lincoln – até os anos 1960, eles ainda vinham de série na maioria dos carros da marca, ou podiam ser instalados em concessionária. Além disso, pouco tempo depois de sua adoção pela Lincoln, o elemento foi amplamente adotado por outras fabricantes.

Cadillac Eldorado

Sua popularidade atingiu o auge na década de 1950, quando era muito popular no mercado de acessórios a oferta do “kit Continental” para vários modelos, de todas as marcas, grandes ou pequenos, básicos ou luxuosos. Geralmente o kit consistia em uma cobertura para o estepe e um suporte, mas em alguns casos até mesmo um para-choque traseiro modificado era incluído no pacote.

Um exemplo emblemático de pneu Continental é a primeira geração do Ford Thunderbird. Diz o folclore em torno do carro que, em 1955, Henry Ford II mostrou-se queixou-se do porta-malas do cupê – por conta do estepe, não havia espaço suficiente lá dentro para sua bolsa de tacos de golfe.

O primeiro Ford T-Bird, de 1955…
… e seu estepe, deitado no porta-malas, ocupando espaço pra caramba

Assim, o modelo 1956 do Thunderbird adotou o Continental tire para liberar espaço no compartimento de carga. Contudo, no ano seguinte, o estepe voltou para dentro do porta-malas – que foi devidamente reprojetado para permitir que o estepe fosse posicionado na vertical, ocupando menos área útil.

Thunderbird 1956, com o pneu Continental
Thunderbird 1957, com o porta-malas redesenhado…
… para que o estepe ficasse “em pé” lá dentro

Na virada dos anos 1960, o pneu Continental começou a cair em desuso. Em parte, graças à evolução natural do design automotivo, que trocou as formas extravagantes da década anterior por desenhos mais limpos e arrojados. Mas também porque surgiram novas possibilidades – nos anos 1970 e 1980, por exemplo, alguns carros compactos japoneses e europeus traziam o estepe no cofre do motor como forma de liberar espaço no porta-malas. No Brasil, esta solução foi empregada pela primeira vez no Fiat 147, em 1977; mas também oi  Volkswagen Gol com motor arrefecido a ar, lançado em 1980, e no Fiat Uno, de 1984 (ainda que o Uno italiano tivesse o estepe no porta-malas).

Falando em Brasil: na década de 1970, ao menos um “fora-de-série” nacional tinha o estepe Continental: o Avallone, réplica do MG-TF lançada em 1976 com estrutura própria, mecânica e suspensão de Chevette e carroceria de fibra de vidro.

Era uma solução diferente na adotada pelo mais famoso MP Lafer, que também era uma réplica do MG TF, porém utilizando como base o chassi Volkswagen arrefecido a ar.

O estepe ficava no porta-malas dianteiro, como no Fusca. O suposto estepe embutido na tampa traseira era apenas uma carcaça de fibra de vidro, com uma roda falsa no centro, para preservar o desenho original do MG.

Agora, no segmento de luxo nos EUA, o pneu Continental ainda apareceu de forma pontual até o fim dos anos 1980. Em alguns casos, o kit vinha na configuração clássica, com um compartimento completamente separado para o estepe.

Em outros, era mais um aceno ao passado, com uma saliência na extremidade porta-malas que sugeria a presença do pneu reserva lá dentro.

Uma das últimas referências ao pneu Continental em um veículo produzido em série veio justamente da Lincoln. O Coupe Mark VIII, grand tourer de luxo fabricado entre 1993 e 1998, tinha apenas um vinco arredondado na tampa do porta-malas, como um pneu Continental “vestigial”:

 

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