Cravar o quarto-de-milha em menos de 10 segundos com o Dodge Demon é mais desafiador do que parece

Dalmo Hernandes 19 julho, 2017 0
Cravar o quarto-de-milha em menos de 10 segundos com o Dodge Demon é mais desafiador do que parece

Estamos em uma maravilhosa época na qual é possível comprar um carro com mais de 800 cv originais de fábrica e com garantia. E não precisa ser um hipercarro como a LaFerrari, o McLaren P1 ou o Porsche 918 Spyder: um muscle car à moda antiga, com motor V8 supercharged, tração traseira, scoop no capô e visual extremamente agressivo, feito para cumprir o quarto-de-milha em menos de dez segundos e custa uma fração do preço de qualquer superesportivo híbrido.

Se você acompanhou todo o hype que antecedeu o lançamento do Dodge Challenger SRT Demon, pode ser que tenha ficado com a impressão de que ele é uma maravilha tecnológica do mundo moderno, capaz de transformar qualquer piloto de teclado em um herói da arrancada, bastando sentar ao volante, apertar alguns botões, seguir os passos na ordem certa e curtir a fama.

Mas não é assim que as coisas funcionam com este Dodge, por incrível que pareça. Para virar os tempos alarmantemente impressionantes divulgados (0 a 100 km/h em 2,3 s, quarto de milha em 9,65 s), boa parte da missão está na peça atrás do volante: você.

É compreensível que as pessoas pensem isso. O Demon tem mais força do que qualquer outro muscle car produzido em série desde o surgimento dos muscle cars, com 808 cv a 6.300 rpm e 99,1 mkgf de torque a 4.300 rpm. Isso com combustível comum, pois com combustível de competição, a potência sobe para 851 cv e o torque, para 106,5 mkgf, às mesmas rotações.

Under the hood of the 2018 Dodge Challenger SRT Demon is a 6.2-l

Você pode ler todos os detalhes a respeito do motor do Demon neste post

Nem pense em câmbio manual tradicional: carros de arrancada costumam usar caixas automáticas reforçadas e preparadas para este fim – permitem uma entrega de torque mais seca e trocas mais rápidas. O Demon não é feito para ser uma máquina de devorar curvas, como as versões mais especializadas do Mustang e do Camaro, e sua plataforma é mais antiga que a dos rivais, mas ele tem um sistema de controle de largada bastante sofisticado, com direito ao TransBrake (recurso que bloqueia a transmissão até o momento da largada, como nos carros de arrancada profissionais) e, para que tudo seja aproveitado como se deve, precisa de um grande piloto, com timing perfeito. Além disso, estamos falando de um câmbio de oito marchas, o que permite que as primeiras marchas sejam escalonadas para aproveitar o máximo da curva de torque nas largadas, e que as marchas mais altas sejam mais mansas e apropriadas para quando o Demon é utilizado no dia-a-dia. Quer dizer, não exatamente no dia-a-dia, e sim indo e voltando da pista de arrancada. Ou, se você for um cara mais outlaw… nos seus passeios noturnos.

A operação para conseguir a largada perfeita e atingir todo o potencial do Challenger SRT Demon segue uma sequência bem específica de ações.

Primeiro ative o line lock, tocando na tela sensível ao toque, pisando no freio e apertando ao mesmo tempo o botão correspondente no volante. A função, presente em todo Dodge Challenger (mesmo os com motor V6), trava os freios dianteiros e permite que você faça um belo burnout para aquecer e limpar os pneus traseiros, produzindo uma nuvem de fumaça no processo. Certifique-se de que o carro está no Drag Mode, que torna as respostas do acelerador e da transmissão mais rápidas e ativa o TransBrake, recurso essencial para não desperdiçar nem um pingo de torque na hora de arrancar, largando com o motor na faixa ideal de rotações.

2018 Dodge Challenger SRT Demon

Para ativá-lo, você pressiona as duas aletas atrás do volante ao mesmo tempo e as mantém assim. Então você pisa no acelerador e leva o motor até cerca de 1.800 rpm, com o pedal do freio pressionado. Então, você solta uma das aletas (qualquer uma, o sistema se adapta) e, em seguida, solta o freio. O carro permanece imóvel, porque o TransBrake engatou a marcha à ré e a primeira marcha ao mesmo tempo. Neste momento, tudo o que te separa de uma marretada nas costas é uma singular aleta atrás do volante.

The 2018 Dodge Challenger SRT Demon is the world’s first produ

Quando estiver pronto, solte a outra aleta e, ao mesmo tempo, acelere o restante do curso do pedal – mas não é sair pisando de uma vez: é preciso ter sensibilidade no pé direito, e aplicar a força de forma gradual e certeira. Se você fez tudo corretamente, os finos pneus dianteiros se levantarão a alguns centímetros do chão e você sentirá a força de 1,8 G colando suas costas no banco (para efeito de comparação: a arrancada de um Nissan GT-R ou Porsche 911 Turbo fica entre 1 G e 1,1 G, claro, sem VHT no asfalto nem pneus de arrancada). Se você acelerar rápido demais, as rodas traseiras vão destracionar e os primeiros 100 metros serão percorridos queimando pneus. Se demorar demais, o carro vai perder velocidade. É preciso ter feeling. É nesse quesito que mora uma das maiores diferenças do Demon em relação aos outros carros com launch control: nestes, o controle de tração faz boa parte do trabalho. Com o Demon, as coisas dependem do seu pé direito. O carro tem controle de tração caso você queira usar, mas o Demon só vai ser competitivo se você for competente.

2018 Dodge Challenger SRT Demon

Este timing, contudo, é necessário para conseguir cumprir o quarto-de-milha em menos de dez segundos, como a Dodge orgulhosamente anuncia que o Demon é capaz de fazer. A imprensa internacional começou a publicar os reviews do Challenger mais nervoso de todos, e todos concordam que a experiência de tentar colocar todo o potencial do über muscle car para funcionar já é marcante o suficiente para que o Dodge Challenger SRT Demon tenha atingido seu objetivo: trazer de volta o espírito dos muscle cars das antigas ao padrão de desempenho atual destes carros, que é altíssimo.

A SRT não mediu esforços para fazer do Demon o carro mais assustadoramente rápido do segmento. O Demon usa amortecedores adaptativos da Bilstein, molas com menos carga nas quatro rodas e barras estabilizadoras menos rígidas nos dois eixos. Isto porque, para conseguir máxima aderência na drag strip, a suspensão precisa ter pouca carga na distensão dos amortecedores dianteiros e pouca carga na compressão dos amortecedores traseiros. Com isso a transferência de peso para a traseira será maior e mais rápida, proporcionando mais aderência para a arrancada. Além disso, o Demon tem molas com 35% menos carga na dianteira e 28% menos carga na traseira. A barra estabilizadora dianteira é 75% menos rígida e oca, enquanto a traseira é sólida e 44% menos rígida que as originais do Hellcat.

E tem mais, como detalha o pessoal da Road & Track:

A existência deste carro gira em torno de seus pneus, drag radials com Nitto NT05R de 315 mm, otimizados para o modelo e adornados com seu emblema nas paredes. São pneus que demandam sacrifícios: todos os quatro para-lamas foram cortados a laser e vestidos com enormes alargadores para acomodar os pneus de 30 cm de largura (…). No Drag Mode os amortecedores adaptativos ficam com o retorno mais macios na dianteira e a compressão mais rígida na traseira, fazendo com que o bico do carro aponte para cima e espremendo os pneus traseiros ainda mais contra o chão nas arrancadas.

E mesmo que você não consiga fazê-lo, que os pneus escorreguem ou que o carro saia bem menos veloz do que poderia (por um erro seu, e não do carro), o Demon ainda será mais rápido do que a maioria dos outros carros. Largadas falhas costumam resultar em tempos de menos de 11 segundos, para se ter uma ideia. Mesmo sem usar o TransBrake.

2018 Dodge Challenger SRT Demon

Naturalmente, existe mais um porção de variáveis neste momento. É preciso levar em conta as condições do asfalto, como temperatura e presença de VHT, a temperatura dos pneus e, claro, aquela peça que fica entre o banco e o volante. Não tem mágica: o carro só vai te ajudar até certo ponto. Ele te vai dar as condições, mas não vai fazer o trabalho “sujo”.

Existe, também, a questão de que aquele é um ambiente hostil. Por mais que o Demon atenda a todos os padrões modernos de NVH – Noise, Vibration and Harshness, os ruídos, vibrações e asperezas no funcionamento do carro por questões de construção e acabamento –, seu interior é muito barulhento e você realmente precisa confiar no modo como a estrutura se flexiona, na inércia atuando sobre seu corpo e nos mostradores à frente para acertar na pisada. Dependendo da temperatura do asfalto e dos pneus, você também vai ter trabalho no volante.

2018 Dodge Challenger SRT Demon

Há outro ponto importante no meio deste bolo todo: os padrões modernos foram respeitados, a suspensão não é absurdamente dura e ele pode ser equipado com um belo sistema de som Harman Kardon – que vai competir com todos os ruídos e com a música mecânica por conta da falta de isolamento acústico. A gente não se importa, claro. E você pode escolher pagar um dólar a mais sobre o valor de US$ 85.000 para ter de volta o banco do carona, o banco traseiro e o revestimento do porta-malas. Você ainda terá um carro de mais de 800 cv capaz de cumprir o quarto-de-milha na casa dos dez segundos, mesmo sem todos os truques.

2018 Dodge Challenger SRT Demon Drag Kit features a Demon Track

Ninguém se atreve a comparar o Dodge Challenger SRT Demon com um Camaro ZL1 ou um Mustang Shelby GT350. São monstros bem diferentes. Ao fazer de tudo para transformar o Demon no carro de arrancada de fábrica mais insano de todos os tempos, a Dodge levantou uma bandeira que as rivais tiraram dos holofotes mais uma vez, e ainda mais alto do que quando lançou o Hellcat. E isto merece o respeito de todos os entusiastas.

2018 Dodge Challenger SRT Demon