Dart Games: a história do Dodge Dart 1978 do editor-chefe do FlatOut

Juliano Barata 19 fevereiro, 2014 152
Dart Games: a história do Dodge Dart 1978 do editor-chefe do FlatOut

Nada mais justo do que inaugurar o Project Cars (se você não sabe do que se trata, leia aqui) com o carro que deu origem ao quadro: meu Dodge Dart 1978 – “Dart Games” para o público, “Shirley Manson” para mim. Sim, este é o seu nome. Por um vacilo meu, não o Dodge incluí na lista original dos eleitos. Desta forma, ele vai ser o projeto número zero. Até que curti esse número incidental.

Meu nome é Juliano Barata, sou o editor-chefe do FlatOut. Por um acaso sou jornalista hoje, fui fotógrafo ontem e era músico antes disso. Amanhã posso ser outra coisa. Porque apenas uma coisa não muda: sempre serei um apaixonado por carros, especialmente pelos muscle cars da década de 1960. Sim, eles bebem muita gasolina e a potência específica é baixa. Não, não possuem a dinâmica de um hot hatch. Nada disso influi no meu gosto – se a questão é só gostar daquilo que é o melhor possível, então você não é exatamente um apaixonado por carros. Você só é um chato. Não muito diferente do estereótipo do enólogo que não é convidado para beber com os amigos (nota: todos os enólogos que conheço são bacanas) ou daquele crítico de gastronomia de Facebook que não é convidado para almoços.

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O amor aos V8 veio de forma subliminar e se mistura com a minha história. Meu pai sempre foi apaixonado por carros – inclusive chegou a ser funcionário em uma concessionária da Chrysler em Belém do Pará, a Distal, no começo da década de 1970. Graças a ele, assisti ao filme Grand Prix seguramente mais de dez vezes quando era pequeno. Bullitt, Corrida Contra o Destino, tudo isso. Quando tinha uns 14 anos de idade, joguei um game chamado Interstate ’76 – cujo personagem principal pilotava um Plymouth ‘Cuda 1970 laranja – até fritar os neurônios. Devorava livros e revistas.

Até então, a relação com os muscle cars era nada mais do que platônica. Não tinha convivência com carros antigos, na verdade sequer considerava a hipótese de ter um. Mas, lá pelos meus dezesseis anos, aconteceu um episódio que mudou minha vida: caminhava com alguns amigos em um cruzamento próximo à Av. Faria Lima, lá pelas dez da noite de uma sexta-feira, quando um Dodge Charger cinza saiu do semáforo fritando nervosamente – e fez uma conversão à esquerda sem aliviar o acelerador.

Fomos cobertos pela fumaça e ensurdecidos pelo rock’n roll mecânico. Me lembro do ronco como se tivesse acabado de testemunhar a cena – e hoje, sei dizer: aquele carro tinha coletores dimensionados e não tinha abafadores. Era exatamente assim – com boas chances, inclusive, de o carro ter sido o próprio Charger do Gordo:

O mundo real era infinitamente mais legal do que qualquer game, filme de VHS ou vídeo baixado de forma miserável por conexão discada. A partir daquele momento, sabia que não tinha escolha: sequer tinha carta de motorista, mas tinha de viver aquilo.

Daquele momento em diante, a coisa ficou séria. Comecei a pesquisar de verdade. Descobri a Summit Racing, encomendei catálogos. Descobri a Amazon, encomendei livros. Descobri os encontros, comecei a frequentar todos que podia – alguns deles bastante ilegais. Descobria oficinas. Descobri listas de discussões, fóruns e sites especializados – principalmente nos EUA.

Comecei a juntar dinheiro. Repentinamente eu tinha um norte, um projeto, uma razão para estudar de forma realmente motivada e aprender tudo o que fosse possível. Sim – é graças aos muscle cars que decidi não ser mais pesquisador ou professor de História para me ingressar no mundo do jornalismo automotivo. Sem o Dodge, não haveria o FlatOut.

 

Meus Dodges

Meu primeiro Dodge foi um Charger R/T 1977 branco. O comprei em 2001, se não me engano – e para fazer isso, vendi meu baixo mais estimado, um Rickenbacker 4001 1971 (você viu um trecho desta história neste texto). Meu pai me deu uma baita força nos custos de manutenção, pois músicos profissionais ganham tão bem quanto malabaristas de semáforo (aliás, vários deles são artistas profissionais deslocados). Cerca de três anos depois, o carro foi desmontado e partiu para uma oficina de restauração – mas poucos meses depois, meus pais tiveram algumas dificuldades financeiras. Para ajudá-los, vendi o Charger, todas as peças de acabamento novas que tinha encontrado, e dei quase toda a grana para eles. Para a felicidade do Chrysler contudo, seu novo dono é um dos maiores connoiseurs de Dodge que existem no País – Alexandre Badolato. Veja só o estado em que o carro se encontra hoje (foto tirada do fórum Opaleiros do Paraná)!

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Na época que vendi tudo, fiquei chateado, claro, mas sabia que era apenas um adiamento. Fiquei um ano e meio sem Dodge.

Mas depois que a ferrugem pega no seu sangue, amigo, não tem mais jeito.

Todos os dias, a caminho da faculdade, passava em frente a uma oficina de bairro, daquelas ligeiramente obscuras e quase invisíveis. Ficava em uma avenida bastante movimentada, mas quase ninguém parava naquela região, próxima ao acesso de uma rodovia. Como todo antigomobilista tem um pouco de cão farejador em seu sangue enferrujado, vi de cara a pontinha da traseira de um Dart empoeirado, lá no fundo, mas nunca parei para conversar com o dono. Mas um dia, não resisti.

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E naquele dia, em meados de 2006, começava a história do Dart Games. Era um carro extremamente íntegro de estrutura, quase sem ferrugem, mas com uma porção de coisas para serem feitas de acabamento e de mecânica. O dono da oficina pedia R$ 7 mil, mas já avisava: o Dodge tinha vivido intensamente nos últimos anos e havia mais de R$ 4 mil de multas (!) – ou seja, eram R$ 3 mil na mão dele e o resto, eu que me resolvesse com o Detran. Conferi no site, orcei com um despachante, tudo batia.

Fui no Detran pronto para zerar minha conta bancária. Foi quando a atendente me disse: “R$ 354”. Achei que tivesse um problema, e expliquei o quanto de multas que aquele carro tinha acumuladas. Não que eu quisesse dar aquele dinheirão todo para a instituição, mas queria ter um carro 100% limpo. Eis que ela me explica: as multas haviam prescrito, pois tinham mais de cinco anos. Naquela noite tomei um dos maiores porres da minha vida com alguns amigos. O resto do dinheiro usei para trocar pneus, tirar as saias laterais soldadas nas caixas de ar (a foto acima, portanto, foi tirada depois deste serviço) e fazer uma manutenção básica de suspensão, freios e motor.

 

A droga chamada veneno

O Dart Games começou sem nome. Era apenas o meu Dodge. Queria um motor bravo, mas não muito, e uma suspensão apenas reforçada: amortecedores mais firmes, barras estabilizadoras com maior diâmetro, subframe connectors (reforço estrutural que liga as longarinas dianteiras às traseiras) e, claro, queria vê-lo bonitão, restaurado.

Só que, paralelo à minha convivência com o carro, convivi com outras pessoas – como o Edson, dono deste mavecão aí em cima. E tive muitas experiências com este e com outros carros que foram, aos poucos, me viciando no veneno – que funciona literalmente como uma droga: prazer extremo, costume, necessidade de mais.

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O misto da convivência com os amigos da Históricos V8, da minha carreira como jornalista automotivo orientado para o lado mais envenenado da coisa, o amor aos muscle cars e minha convivência com a História fazem justamente os pilares do projeto Dart Games: um muscle car de rua feito para ser quase como um carro de corrida da época, com respeito ao visual de antigamente (sem modernizações estilísticas, portanto) mas com o objetivo de ser tão bom quanto um muscle do tipo Pro Touring. Um carro legalizado que possa passear na rua e participar de eventos de velocidade, como subidas de montanha e track days.

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Com tudo isso em mente, foram quase quatro anos fazendo o projeto e trazendo peças – tudo isso enquanto curtia o carro por aí, quase todo original. Só no ano passado que ele foi encostado para ser todo desmontado. Mas, para mim, parece que foi há uma década – que puta saudade de acelerar o Dodge!

No próximo post do Dart Games irei explicar os detalhes do projeto: pneus, rodas, suspensão, transmissão, carroceria, enfim, tudo. Mas antes dele, teremos quase 100 projetos tão ou mais interessantes. Aguarde!

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