Do mato pisado ao asfalto: como os índios definiram as rodovias de São Paulo

Leonardo Contesini 14 junho, 2018 0
Do mato pisado ao asfalto: como os índios definiram as rodovias de São Paulo

Quem acompanha o FlatOut de perto sabe que não resistimos ao impulso de responder perguntas que ninguém fez. E fazemos isso simplesmente porque as perguntas que ninguém fez normalmente têm histórias no mínimo interessantes.

 

Veja por exemplo o primeiro acidente de carro do Brasil. Ele aconteceu a 4 km/h e envolveu duas personalidades históricas do Brasil: o poeta Olavo Bilac, que não sabia dirigir, e o jornalista abolicionista José do Patrocínio, que estava ensinando o amigo a dirigir. Outra história interessante é como as bicicletas ajudaram a conservar as estradas antes da criação dos automóveis — que nos levou a uma viagem no tempo até o surgimento das estradas e nos trouxe à história de hoje: como os índios influenciaram o sistema rodoviário de São Paulo.

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Embora a origem das estradas ainda seja incerta, a maioria dos historiadores acredita que elas começaram a surgir quando homens pré-históricos criaram trilhas involuntariamente quando seguiam sua caça ou marcavam passagens por montanhas, rios e pântanos por volta do ano 10.000 a.C. No Brasil estes povos pré-históricos eram os chamados paleoíndios, que tinham hábitos semelhantes aos dos índios mais recentes — incluindo o nomadismo. Praticamente “presos” em um continente isolado, estes povos tinham fluxos migratórios que completavam ciclos ao longo dos séculos. Este fluxo dos povos nômades deu origem às primeiras trilhas indígenas do Brasil que, por sua vez, geraram algumas das principais rodovias do país e influenciaram o sistema rodoviário de São Paulo.

 

O caminho dos índios e o caminho do padre

Uma destas trilhas era o Caminho do Peabiru, uma série de trilhas menores interligadas que ligavam a Cordilheira dos Andes ao Oceano Atlântico. Quando os colonizadores portugueses se instalaram no Brasil, o primeiro donatário da capitania de São Vicente, Martim Afonso de Sousa, soube que o “ponto final” do Caminho do Peabiru ficava no litoral de seu território. E ele também sabia que o tal caminho dava acesso às minas de ouro de Potosí, em território inca, hoje localizada na Bolívia. Por essa razão Martim Afonso escolheu a dedo o local onde fundaria a Vila de São Vicente, que se tornou a primeira vila com organização política semelhante à portuguesa e daria origem à atual cidade de São Vicente.

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Imediatamente após a fundação de São Vicente, em 1532, Martim Afonso iniciou expedições de entrada e desbravamento do interior de sua capitania com o intuito de explorar o ouro e demais riquezas que a terra tinha a oferecer. Ali mesmo encontrou um português chamado João Ramalho que, misteriosamente, já vivia entre os índios da região desde 1508, sendo casado com a filha do cacique de sua tribo. Sua relação com os índios o colocou na condição privilegiada de intermediador entre colonizadores e nativos e permitiu que a recepção de Martim Afonso fosse realmente amistosa. Foi João Ramalho quem mostrou a Martim Afonso o caminho para o alto da Serra, onde havia um planalto bem mais fértil e populoso que o litoral onde acabara de fundar sua vila. Era nesse planalto que ficava a aldeia de João Ramalho

Como aprendemos na escola, logo atrás dos colonizadores vinham os missionários jesuítas, que tinham como objetivo catequizar os índios, salvando suas almas e afastando-os da danação eterna. E os missionários que vieram atrás de Martim Afonso, no início dos anos 1550, foram o padre português Manuel da Nóbrega, superior da Companhia de Jesus no Brasil, e o jovem padre espanhol José de Anchieta.

Os dois padres logo arrebanharam 50 jovens índios, mas em uma terra quente, cheia de gente sem roupa e sem a noção de castidade e monogamia, foi difícil convencer os jovens índios sobre valores cristãos. Era preciso encontrar um lugar onde os índios pudessem ser catequizados sem influência dos brancos não-jesuítas. Além disso, havia um problema secundário: a base da alimentação dos jesuítas era a chamada “farinha de pau”. Não ria: esse era o nome da farinha de mandioca na época. E a farinha de pau vinha do interior, uma região conhecida como Piratininga, que ficava no alto da serra, naquele planalto onde vivia João Ramalho e sua tribo de tupiniquins, sobre o qual ele havia falado a Martim Afonso de Sousa vinte anos antes.

A solução mais lógica era mudar a missão para o alto da Serra, e o responsável por essa empreitada foi o jovem José de Anchieta, que negociou a subida com João Ramalho, apesar de reprovar suas atitudes nada cristãs, como a poligamia e o hábito de andar descoberto por aí. Ramalho ensinou aos jesuítas o caminho para o alto da Serra, uma trilha conhecida como Caminho do Paranapiacaba, que, por acaso, era o trecho final daquele outro caminho que atraiu Martim Afonso de Sousa.

A trilha era severa: depois de atravessar uma área alagada era preciso subir a serra engatinhando até a nascente do Rio Tamanduateí e então seguir o córrego Anhangabaú, onde ficava a aldeia do índio Tibiriçá, sogro de João Ramalho. A subida levava dois dias inteiros, enquanto a descida era mais leve, exigindo apenas um dia. Foi ali, na aldeia do tupiniquim Tibiriçá que o padre José de Anchieta celebrou a missa que marcou a fundação de seu colégio jesuíta em 25 de janeiro de 1554. Sim, foi a fundação da cidade de São Paulo.

Este caminho trilhado pelos jesuítas há 464 anos existe até hoje, e até 1984 você poderia dirigir por ele: trata-se da Estrada Caminho do Mar, também conhecida como Estrada Velha de Santos, Anchieta Velha, Serra Velha ou simplesmente SP-158. Ela foi a primeira rodovia que ligou a capital paulista à Baixada Santista. Ela também é a rodovia que inspirou Roberto Carlos (um entusiasta dos bons) a escrever a música “As Curvas da Estrada de Santos”.

O caminho de Paranapiacaba/trilha dos Tupiniquins foi usado pelo padre Anchieta até 1560. A partir daquela década, os índios tamoios que também habitavam a região começaram a assaltar e a capturar os aventureiros que subiam a trilha antiga, o que levou o padre a buscar um outro caminho para a subida até o planalto. Parte deste caminho aberto pelo padre Anchieta — conhecido como Caminho do Padre Anchieta ou Caminho do Padre José — acabou usado nos anos 1930 para a construção de uma nova rodovia paralela à Estrada Caminho do Mar. A primeira etapa foi inaugurada em 1947 e a conclusão se deu em 1953. Em homenagem ao padre que abriu o caminho no século 16, foi batizada como Via Anchieta — a mesma Via Anchieta que você pode usar para ir de São Paulo a Santos como alternativa à Imigrantes.

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E já que falamos nos tamoios, o território deles ficava mais ao leste de Piratininga, e uma das principais ligações desta região com o litoral era uma trilha que hoje está asfaltada, duplicada, pedagiada e radarizada e liga São José dos Campos/SP a Caraguatatuba/SP, a SP-99, mais conhecida como… Rodovia dos Tamoios.

 

 

Ponto de convergência

O local escolhido para a fundação do Colégio Jesuíta de São Paulo do Piratininga não foi casual e influencia o sistema rodoviário do estado até hoje. Ali ficava a aldeia de Tibiriçá, e também era o ponto de convergência de outras trilhas indígenas pré-históricas. Meio como uma Roma indígena pré-cabralina.

Uma destas trilhas era próprio Caminho do Peabiru, que se estendia entre Cusco, no Peru, e a Vila de São Vicente. Ela passava pelo atual oeste paulista, norte do Paraná, Paraguai, Bolívia e Peru. Foi a trilha usada por Raposo Tavares em sua missão no oeste do Paraná, na divisa com o Paraguai e parte desta trilha compõe alguns trechos da BR-374 no Paraná, e a rodovia paulista que leva seu nome, a SP-270 Raposo Tavares.

Outra destas trilhas era a Trilha dos Guaianases, que iniciava na atual Jundiaí/SP, passava pela aldeia dos tupiniquins de Piratininga/Colégio Jesuíta, chegava às margens do rio Paraíba do Sul e atravessava o vale deste rio seguindo o curso d’água até chegar a atual Guaratinguetá, onde se bifurcava. Seguindo para o norte, atingia-se a serra da Mantiqueira passando pelo sertão das Minas Geraes, caminho trilhado pelo bandeirante Fernão Dias. Desviando para o sul, descia-se a Serra do Mar até o local onde hoje está Paraty.

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A linha pontilhada que liga as “casinhas” nas cidades é a outra parte da trilha, aqui já como Estrada dos Tropeiros

Esta Trilha dos Guaianases serviu de base/referência para ao menos quatro rodovias atuais: o trecho do Vale do Paraíba guiou a Estrada dos Tropeiros no Brasil imperial e a antiga Estrada Rio-São Paulo, cujos trechos ainda existem dentro das cidades e em estradas vicinais da região. Esta, por sua vez, foi substituída pela via Dutra, que basicamente retificou o sinuoso caminho entre o Rio de Janeiro e São Paulo.

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A Estrada Rio-São Paulo antiga, que segue a trilha dos Guaianases, depois de ter se tornado a Estrada dos Tropeiros

O trecho norte da Trilha dos Guaianases se tornou parte da BR-383, que liga Conselheiro Lafaiete/MG a Ubatuba/SP…

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Já o trecho sul da Trilha, é a atual rodovia SP-171, que se liga ao trecho fluminense da Estrada Real entre Paraty/RJ e Cunha/SP. O estado do Rio de Janeiro concluiu a pavimentação do trecho recentemente, facilitando a passagem de carros de passeio.

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De Paraty a Guaratinguetá: o trecho sul da trilha dos Guaianases

Havia também o Caminho dos Goiases, que foi usado no século 18 pelo bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva em sua expedição ao atual estado de Goiás em busca de ouro.

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O Caminho dos Goyazes

No caminho, fez uma parada onde seria fundada a cidade de Campinas três anos mais tarde, em 1725, e seguiu para o norte onde acabou fundando a atual cidade de Goiás Velho. O caminho trilhado por Bartolomeu Bueno da Silva hoje é a rodovia SP-330, mais conhecida pelo apelido de seu pai que também foi usado por ele: Anhanguera.

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O Caminho dos Goyazes: Via Anhanguera

Houve ainda um outro caminho indígena que partia da aldeia de Piratininga em direção ao norte. Esta trilha foi usada pelos bandeirantes para chegar às Minas Geraes. O mais famoso deles foi Fernão Dias, que dá nome à BR-381.

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Apesar de São Paulo ter sido fundada no atual Pátio do Colégio, seu marco zero não é o ponto em que o padre Anchieta construiu seu barracão onde catequizava os índios. Em vez disso, o marco zero de São Paulo fica a alguns metros dali, na praça da Sé.

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Ali também é o marco zero de todas as rodovias paulistas — ou seja: suas distâncias começam a ser calculadas ali, ainda que administrativamente elas iniciem a alguns quilômetros da praça. O motivo para este sistema também é influência dos índios e do período colonial.

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Quando os colonizadores instituíram a contagem de distância, o ponto de partida de cada uma destas trilhas era baseado na porta de um templo construído próximo ao colégio jesuíta, em um local chamado Largo da Sé. Exatamente o local onde as trilhas indígenas confluíam na aldeia de Piratininga.