Edição diária: 17/06/2019
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Project Cars Project Cars #28

Dodge Charger R/T 72 LMS: detalhando o projeto!

Fala pessoal do FlatOut, tudo bem? Cá estamos eu e o Charger R/T 72 LMS de volta (clique aqui para ler a bela história deste Project Car), agora para detalhar o projeto.

De cara, deixo o Otávio Bussmann, que me vendeu o carro, contar como o adquiriu:

Em meados de 2004, eu tinha 16 anos. Havia guardado dinheiro de todas as mesadas, aniversários e férias (quando passava em torno de 30 dias na casa do meu tio fazendo serviço de office boy, o que me rendia algum dinheiro). Com esse esforço, convenci meu pai de que eu queria um Dodge – e achei um R/T 77 em Jaraguá do Sul (SC). Após algumas semanas de conversa eu consegui comprá-lo. Era um carro bom, com todos os frisos, bem estruturado, feio de pintura mas andava bem. Eu usufruí muito do carro – mesmo sem habilitação e sequer estatura para dirigir um Dodge!

Passou um ano e lá estávamos nós novamente em Jaraguá, desta vez comprando louças para a minha mãe. Na época tínhamos um Fiat Marea com adesivo do Dodge Clube da Lapa no vigia. Quando nos demos conta, estávamos sendo perseguidos por um Fusca. Sinal de luz, buzina, o motorista acenando e assim foi até que resolvemos parar e ver o que o senhor queria:

– Não foi o senhor que comprou um Dodge Charger esses dias?
– Sim, fui eu.
– Gostaria de comprar outro?

E com essa pergunta fomos até a casa onde ele se encontrava. Na hora sequer sabíamos de que se tratava de um raríssimo R/T 72. Começamos a observar o carro e assim que pegamos a plaqueta constatamos do que se tratava. Aí os nossos corações começaram a tremer. Eu e meu pai ficamos ansiosos demais e excitados, porém, havia um problema: a gente não tinha mais dinheiro. Voltamos para Mafra, raciocinando como faríamos. Resolvi vender o R/T 77 para o meu tio de Maringá e meu pai raspou o pouco que lhe restava no cofre, fazendo assim uma parceria no automóvel.

O carro para nós era lindo. Sabíamos que era o modelo mais bonito, o Dodge mais completo de todos e que UM DIA ficaria pronto e seria o nosso sonho realizado.

Os anos foram passando, eu e meu irmão entramos em faculdade particular, as contas pesaram assim e adiaram a restauração do Charger R/T 1972 a todo momento. Até que em 2009 meu pai faleceu. Na época, pensei que seria objetivo de vida ver o carro pronto em homenagem a ele. Mas o tempo passou e eu recém formado, caí na realidade do que seria a carreira de cirurgião dentista. Demoraria bastante para eu poder investir em um projeto deste nível. Como fazer um R/T 72 “meia-boca” estava fora dos meus planos, resolvi vendê-lo e investir em um carro moderno para mim – mas, aos 45 minutos do segundo tempo, meu padrinho tirou da minha cabeça o VW Jetta. E assim, adquiri meu Dodge Charger R/T 74.

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Fiquei muito feliz que o carro parou nas mãos do Reinaldo, ele está fazendo absolutamente tudo o que eu gostaria de fazer, nos mesmos padrões, realmente valorizando aquele carro que, durante alguns anos, eu sonhava dirigir e passear com o meu velho.

Com isso notamos que restaurar o LMS é mesmo uma grande responsabilidade, pois mesmo antes de comprar o carro e decidir homenagear a Lú, minha filha amada, o carro já despertava sonhos no Otávio e no pai dele.

Conforme expliquei no post inicial, o LMS tem motor, câmbio, diferencial e muitas outras coisas originais, o que é muito interessante na restauração, pois teremos como resultado final o famoso matching numbers (os Dodge nacionais têm uma plaqueta no cofre do motor que identifica, entre outras coisas, o número do chassi e do motor, além de alguns equipamentos opcionais).

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Miniatura da Automodelli do Dodge Charger R/T 1972 que encomendei, exatamente igual ao LMS

Como nem tudo é perfeito, a carroceria estava em estado deplorável, indicando um provável acidente que afetou a lateral direita e o teto (longarinas em bom estado, ainda bem). Pior: eu nunca tinha visto tanta massa em um carro – toda a carroceria estava revestida!

Concluí então que o carro foi usado sem alterações mecânicas até ser encostado pelo tal acidente. Daí, ficou anos largado em algum canto e depois alguém resolveu trazê-lo de volta às ruas, apelando para um funileiro pizzaiolo, sabe como é? Aí que entrou o Otávio e, depois, eu. Ou seja, muito trabalho a ser feito.

Bom, chega de mimimi e vamos aos detalhes do projeto!

 

Motor

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O bom e velho 318 PS original do carro, fabricado em cinco de agosto de 1971, demonstrou já ter sido aberto, mas as medidas ainda eram standard. O bloco e os cabeçotes não apresentavam trincas ou empenamentos.

Depois de hesitar bastante, decidi usar o carburador DFV 446 doado por outro R/T meu (um 1979, no qual foi instalado um quadrijet Holley de 600 CFM). Depois de restaurado, este DFV ficou muito bonito – agora, vamos ver se funciona direito…

Retífica do bloco, retrabalho dos fluxos dos cabeçotes. Substituição das principais peças móveis, exceção ao virabrequim. Novo comando de válvulas, ligeiramente mais animado (270º). Revisão e pintura dos coletores de admissão e escape. Novo sistema de escapamento, fiel ao original. Substituição das bombas de óleo e combustível. Sistema de arrefecimento: restauro do radiador, substituição da bomba d’água, hélice, defletor, mangueiras e válvula termostática.

 

Transmissão

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No câmbio, substituição dos anéis do sincronizador (1ª/2ª e 3ª/4ª), jogo de roletes e junta. No diferencial Braseixos EB-34, de relação 3.15:1, substituição da coroa e pinhão, engrenagens planetária e satélite e eixo, além de rolamentos e retentores. Novo sistema de embreagem: disco novo, embreagem completa nova e toda a ligação do sistema com o pedal.

 

Direção

Aquisição e revisão de um sistema completo de direção hidráulica Gemmer, original do Charger R/T 72, pois o LMS veio sem. Restauro do volante Walrod e da coluna de direção originais.

 

Suspensão

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Restauração da travessa dianteira e substituição das bandejas, pivôs, batentes e amortecedores. Na suspensão traseira, restauro do feixe de molas. Substituição de buchas, batentes e amortecedores por peças novas, a maioria de estoque antigo (NOS – new old stock).

 

Freios

Substituição dos discos dianteiros e pastilhas respectivas, recondicionamento do cilindro mestre e das pinças, retífica dos tambores traseiros, substituição dos cilindros e lonas traseiros, dos tubos flexíveis e troca de toda a tubulação. Substituição do sistema de freio de estacionamento.

 

Rodas e pneus

Revisão e pintura das rodas Magnum originais do carro. Nos pneus, mais um dilema: eu sei que a originalidade exigiria pneus diagonais, mas a segurança deve prevalecer. Escolha dos pneus radiais BF Goodrich Radial T/A, 205/70-14.

 

Sistema elétrico

Novos chicote elétrico e alternador, desaparecidos na primeira oficina de funilaria. Restauro do painel de instrumentos e substituição dos faróis e de todas as luzes internas e externas.

 

Carroceria

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Restauração geral da estrutura. Substituição das caixas de ar. Substituição de todos os painéis externos da carroceria (exceto o painel superior da câmara de ar topo curvão – a popular “churrasqueira”): teto, as laterais traseiras (peças novas AMD), as portas, os para-lamas dianteiros, o capô e a tampa do porta-malas. Substituição do assoalho da cabine (NOS) e do porta-malas (AMD), pois haviam sido muito alterados. Pintura na cor original, Branco Polar, e colocação do teto de vinil, usando material da época.

 

Interior

Chave para uma restauração all stock. Quase todo o interior será refeito: revestimento dos bancos, carpetes, proteção termo-acústica, laterais de porta, forro do teto.

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Um console original foi adquirido e restaurado, assim como o rádio original. Aqui, uma concessão aos meus ouvidos: achei um toca-fitas KP 500 zero, na caixa! Sempre sonhei em ter um aparelho desses, vou instalar debaixo do painel. O painel de instrumentos já foi restaurado.

 

Cronograma do projeto

Tudo parece ir bem, não? Bom, hora de mostrar como Einstein estava certo: o tempo é relativo (especialmente para funileiros e mecânicos)! Olhem só como ficam as estimativas confrontadas com a realidade:

Funilaria: Prazo estimado: seis meses. Prazo real: 23 meses. Orçamento excedido em 45%.

Contratado a preço de ouro e pedras preciosas, o funileiro estrelado-premiado-em Lindoia-várias-vezes (não vou mencionar o nome) estimou entregar a funilaria pronta em seis meses. O carro chegou em 12 de maio de 2011, aprovei o orçamento em 21 de maio; serviço pronto e entregue até dezembro de 2011, certo?

Errado! O carro realmente foi devolvido em dezembro, mas de 2012, estourando o prazo em “só” um ano, ou quase o triplo do tempo previsto. Bom, pensarão vocês, ao menos o carro ficou pronto, certo?

Errado de novo! O funileiro-artesão-primadonna não conseguiu terminar o serviço, pois quebrou o braço jogando bola (três meses parado), perdeu muito tempo para alinhar a carroceira e depois foi despejado… O carro foi entregue com menos de 50% do serviço combinado.

O serviço foi então assumido pelo João Andrade, o mesmo do Dart Games, que estimou me entregar o carro pronto em 90 dias, ou seja, até março de 2013, prazo que ele cumpriu rigorosamente.

Pintura: prazo estimado em 120 dias. Prazo real: 70 dias. Orçamento melhorado em 40%.

Optei por um pintor muito sério, jovem, que fez um excelente serviço, a um preço bem melhor do que eu havia orçado anteriormente.

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Mecânica: prazo estimado em 90 dias. Prazo real: 250 dias. Orçamento cumprido. Toda a mecânica está pronta e instalada no carro.

No próximo post, vou detalhar o andamento dos serviços de funilaria, pintura e mecânica, bem como, as principais peças adquiridas.

Abraços!

Reinaldo Silveira, Project Cars #28

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