Dois homens e um sonho: a história da Mercedes-AMG

Leonardo Contesini 13 dezembro, 2016 0
Dois homens e um sonho: a história da Mercedes-AMG

O ano era 1964. Os colegas Hans Werner Aufrecht e Erhard Melcher trabalhavam em uma versão de corrida do motor M189 na divisão de desenvolvimento de motores da Daimler-Benz. O motor era um seis-em-linha de três litros, que originalmente produzia 160 cv para levar o 300SE (W112) aos 180 km/h — suficiente para aproveitar os trechos sem limites das autobahnen, mas bastante modesto para as pretensões esportivas da Mercedes-Benz.

Era o trabalho dos sonhos para Aufrecht. Desde sua adolescência no anos 1950, ele sonhava em construir motores de corrida para a fabricante daquelas flechas de prata que dominaram o automobilismo mundial na época, liderados por Rudolf Uhlenhaut. O problema é que ao final daquela temporada a Mercedes decidiu abandonar o automobilismo, interrompendo o projeto de Aufrecht e Melcher.

picture-0010

Qualquer outro engenheiro lamentaria o esforço em vão, engavetaria o projeto e passaria a se dedicar ao próximo projeto. Mas Hans Werner Aufrecht não era qualquer engenheiro. Ele comprou um motor M189 e convenceu Erhard Melcher a ajudá-lo a terminar o motor depois do expediente em sua casa, em Grossaspach a pouco mais de 30 km da sede da Daimler-Benz. Quando a dupla de engenheiros finalmente concluiu o motor no início de 1965, ele produzia 240 cv e foi direto para o cofre do 300SE de Manfred Schiek, um colega de Aufrecht e Melcher que também havia sido piloto da fábrica.

65nor_schiek04-1

O 300SE com o motor pré-AMGAMG_Melcher_engine_3224950k

Com esse carro e esse motor, Schiek se inscreveu no Campeonato Alemão de Carros de Turismo (um avô do DTM, chamado Deutsche Rundstrecken-Meisterschaft) e venceu nada menos que 10 etapas da temporada, conquistando o título daquele ano na categoria de carros com mais de 2.500 cm³.

A fama de Aufrecht e Melcher logo se espalhou no meio automobilístico. Os pilotos e proprietários entusiastas de Mercedes que desejavam um desempenho um pouco mais apimentado para seus roadsters e sedãs começaram a procurar a dupla de Grossaspach para preparar seus motores. Era tanto trabalho que, no final de 1966, os dois engenheiros deixaram seus empregos na Daimler-Benz para criar sua própria empresa.

Em 1º de junho de 1967 eles juntaram seus sobrenomes, o nome da cidade onde trabalhavam e batizaram sua nova empresa como “Aufrecht Melcher Großaspach Ingenieurbüro, Konstruktion und Versuch zur Entwicklung von Rennmotoren” — ou “Aufrecht Melcher Grossaspach escritório de engenharia, design e testes de desenvolvimento de motores de corrida”. A casa de Aufrecht ficou pequena para tanto trabalho e a dupla alugou um antigo moinho em uma cidade próxima de Grossaspach chamada Burgstall.

Unknown-2

O antigo moinho onde Alfrech e Melcher começaram a trabalhar nos primórdios da AMG

Logo, um motor da Aufrech Melcher Grossaspach, ou AMG, se tornou o equipamento certo para vencer corridas (ou simplesmente andar mais rápido) com carros da Mercedes. Diz a lenda que o sucesso inicial da AMG inspirou a Mercedes a lançar modelos mais potentes de seus sedãs ao perceber a demanda por esportivos havia perdido. Verdade ou não, o fato é que em 1968 a Mercedes colocou o motor 6.3 V8 da limousine 600 Pulmann no 300 SEL W111, transformando um sedã de luxo em um verdadeiro esportivo capaz de chegar aos 100 km/h em 6,3 segundos e atingir a velocidade máxima de 240 km/h.

MelcherEngine

Melcher trabalhando em um cabeçote de alta performance

Um desempenho impressionante, mas que não preocupou Aufrech e Melcher, afinal, eles sabiam melhor que qualquer pessoa como extrair ainda mais potência desta verdadeira usina de força.

1_AMG_history_45_anniversary

O desenvolvimento do 300SEL 6.3 AMG

E foi exatamente o que eles fizeram. Nos anos seguintes eles converteram vários 300SEL 6.3 para corridas, dentre os quais o mais famoso é o modelo inscrito pela própria AMG nas 24 Horas de Spa de 1971. A preparação envolvia a substituição das portas de aço por outras de alumínio, e uma extensa modificação no motor 6.3, que ganhava novos pistões para deslocar 6,8 litros, comandos de válvulas retrabalhados com balanceiros modificados, bielas aliviadas, válvulas de admissão maiores, aumento da taxa de compressão, novos coletores de admissão, borboleta de corpo duplo, radiador de óleo, virabrequim balanceado e escape sem restritores. O resultado era um aumento de 250 cv para 430 cv, 60,7 kgfm de torque e velocidade máxima de 265 km/h.

amg-ge13mercedes_rote_sau_300sel_1971_24h_spa2

O 300SEL 6.8 AMG em Spa

Para a corrida belga a AMG ainda conseguiu um jogo de rodas emprestadas da Mercedes vindas do protótipo C111, que tinham 10 polegadas de largura na traseira, finalmente permitindo pneus à altura do desempenho do carro.

Hans-Werner3

Aufrecht carregando os enormes pneus do 300SEL em Spa

1971-Mercedes-Benz-300-SEL-6.8-AMG-7-620x448

Depois de 24 horas ao redor de Spa o resultado não poderia ser melhor: segundo lugar geral e a vitória em sua categoria. Na verdade poderia ser melhor sim: o que atrapalhou o imenso sedã vermelho foram as frequentes paradas para reabastecimento e trocas de pneus. Mesmo assim, com o excelente resultado a AMG finalmente entrou no mapa das grandes preparadoras.

 

Hora de tomar as ruas

1471773_548118445282503_785196141_n

Até as 24 Horas de Spa de 1971 a AMG era uma preparadora famosa nos círculos de entusiastas, mas não muito fora deles. Com a projeção da improvável vitória de um carro de corridas mais improvável ainda Aufrecht e Melcher decidiram expandir sua atuação e passaram também a oferecer personalização e preparação de carros de rua. Eles desenvolveram um modelo de roda próprio, inspirado nas rodas Mercedes usadas pelo 300SEL de Spa, que ficaram conhecidas como AMG Penta, e passaram a criar kits de carroceria e interiores customizados para todos os modelos de passeio da marca.

5_AMG_history_45_anniversary

Os novos AMG de rua na nova sede da preparadora em Affalterbach

A receita se tornaria um padrão não apenas da AMG, mas de toda preparadora moderna: saias e spoilers, freios otimizados, volante esportivo, bancos Recaro (com opção de ajustes elétricos), rodas e pneus esportivos e até grafismos exclusivos na carroceria. E motores mais potentes, claro. Com o novo segmento o negócio cresceu tanto que em 1976 eles precisaram se mudar do velho moinho para uma nova instalação em Affalterbach, onde a AMG está até hoje.

W123 AMG 1980: rodas, volante e spoilers exclusivos

O grande salto da AMG, contudo, aconteceria em 1984 — exatamente duas décadas depois do cancelamento do projeto de motor de corrida da Mercedes que levou à fundação da preparadora. Naquele ano Erhardt Melcher desenvolveu um cabeçote de comando duplo e quatro válvulas por cilindro para os motores V8 M117 da Mercedes.

Erhard-Melcher_2

Hoje é difícil acreditar, mas na época a Mercedes ainda não havia desenvolvido um motor com comando duplo no cabeçote, tampouco com mais de duas válvulas por cilindro. Por isso, um V8 com 32 válvulas foi uma verdadeira revolução no desempenho não só dos Mercedes-Benz, mas também nos modelos da AMG.

Nos dois anos seguintes este motor foi usado apenas no sedã W126 e em seu cupê, o C126 (precursores da atual Classe S) — que ganhavam até mesmo para-lamas mais largos para acomodar as rodas maiores, necessárias para a nova potência. Mas o grande ato dessa revolução veio em 1986, quando a AMG colocou suas mãos no novo W124, o modelo médio da Mercedes (o Classe E da época). Originalmente equipado apenas com motores de quatro e seis cilindros, a AMG decidiu colocar o V8 de cinco litros e 32 válvulas no cofre do 300E, substituindo o robusto 3.0 12v de 180 cv por um monstro de 340 cv. Nos anos seguintes o 5.0 foi substituído por um 5.4 de 355 cv e, mais tarde, por um 5.6 de 360 cv e um 6.0 de 375 cv que, segundo a AMG, tornava o 300E mais rápido que o Lamborghini Countach na aceleração de 100 a 195 km/h — o que é plausível dependendo das relações de marchas.

1988 Mercedes-Benz 300 E AMG 6.0 Hammer (W124)

Com qualquer um destes motores o 300E AMG era capaz de atingir os 300 km/h, e se tornou o primeiro carro de quatro portas a atingir a marca. O supersedã também foi o primeiro grande sucesso da AMG nos EUA, onde ganhou o apelido que o acompanharia para sempre — “The Hammer”, e foi fundamental para expandir a atuação da preparadora a um nível global. Eles até foram chamados pela Mitsubishi para preparar dois modelos da marca japonesa no final da década — embora a parceria não tenha dado muito certo e terminado em 1989.

A mesma receita de motor grande em carro menor foi adotada no 190E, que recebeu uma versão de 3,2 litros do motor 2.6 M103, que passou a desenvolver 232 cv a 7.200 rpm. Além do ronco orgástico, o seis-em-linha modificado levava o Baby-Benz aos 260 km/h depois de arrancar do zero aos 100 km/h em apenas 7 segundos.

 

Se não pode vencê-los, junte-se a eles

No final dos anos 1980 a história de Aufrecht voltou a cruzar o caminho da Mercedes-Benz, exatamente 20 anos depois que o engenheiro pediu demissão para fundar a AMG. Em 1988 as duas empresas tornaram-se parceiras no automobilismo e a AMG passou a ser a equipe oficial da fábrica no DTM e venceu nada menos que 50 corridas nas seis temporadas seguintes.

264547-Berserker

Dois anos mais tarde a AMG assinou um acordo de cooperação com a Daimler-Benz. Seus carros passariam a ser vendidos nas concessionárias com direito a garantia da fabricante e a um programa de manutenção em todas as concessionárias Mercedes do planeta — o que exigiu a edição de manuais técnicos com todos os detalhes da preparação dos modelos da época; verdadeiros mapas do tesouro para preparadores independentes.

A demanda global por modelos AMG exigiu a construção de uma nova unidade para a preparadora, além de um quadro de 400 funcionários para montar todos os carros e motores. Foi aí que surgiu a filosofia one man, one engine, mantendo a mesma qualidade e a mesma atenção aos detalhes da época em que o próprio Erhard Melcher montava os motores de cada modelo da preparadora.

Aos poucos a parceria foi evoluindo: em 1993 a Mercedes lançou o C36 AMG, o primeiro modelo desenvolvido pela AMG com apoio da Mercedes. Eles eram baseados no C280, que tinha o deslocamento do motor 2.8 M104 aumentado para 3,6 litros, o que resultava em um salto de 197 cv para 280 cv. Suspensão, freios, bancos, acabamento interno e um kit estético completavam o pacote. No mesmo ano o nome AMG foi reconhecido como marca registrada pelo escritório de registros e patentes da Alemanha.

future-AMG-line-up

Em 1º de janeiro de 1999 Hans Werner Aufrecht transferiu a participação majoritária da AMG para a DaimlerChrysler AG, transformando-a oficialmente na divisão esportiva da marca. Seis anos mais tarde, no mesmo 1º de janeiro, a DaimlerChrysler adquiriu 100% das cotas da AMG, o que resultaria na criação de uma nova empresa subsidiária, a Mercedes-AMG GmbH.

AMGmod

Aufrecht e Melcher e suas criações

Hans Werner Aufrecht, por sua vez, realizou seu sonho pela segunda vez: ele criou a H.W.A., empresa que comanda as operações da Mercedes-AMG na DTM. Erhard Melcher deixou a AMG ainda nos anos 1980, e hoje tem sua própria empresa que fornece componentes para a AMG e para motores de corrida da Mercedes.