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Donington, 1993: quando Sonic foi a estrela do pódio ao lado de Ayrton Senna

Antes do Playstation 4 e do XBox One, antes de SkyrimForza Motorsport ou Counter Strike, os consoles de 16 bits dominavam o mundo dos games. É, estamos falando de muito tempo atrás, o início da década de 1990. Se, se quando pensamos nesta época o primeiro console que vem à mente é o famigerado Super Nintendo, ou simplesmente SNES, jamais podemos esquecer que a companhia do Super Mario ganhava um concorrente de peso: Sonic, o mascote azul do Sega Genesis (que, por aqui, conhecemos como Mega Drive).

Dizemos isto porque apesar de o encanador bigodudo italiano ser o personagem dos mais famoso do mundo dos games naquela época (na verdade, provavelmente até hoje), Sonic The Hedgedog, que havia sido recém-criado, ganhava uma base de fãs considerável. Ele era o porco-espinho mais rápido do mundo em 1993 e, como tal, a ideia de a Sega patrocinar um Grande Prêmio de Fórmula 1 naquele ano fez bastante sentido aos executivos (lembrando que a Sega era a desenvolvedora de Super Monaco GP, um dos grandes games de F1 na época).

Quando dizemos que Sonic tinha uma base de fãs considerável, não estamos brincando — a verdade, seu sucesso até nos faz lamentar o fracasso do Dreamcast e a transformação da Sega de fabricante de consoles a mera desenvolvedora de jogos para terceiros. No Brasil não foi diferente — na verdade, a Sega foi bastante divulgada no Brasil naquela época, e há um bom motivo para isso.

Na época do lançamento do Mega Drive, a distribuidora oficial dos produtos da Sega no Brasil era a TecToy, que com o tempo passou a produzir localmente, sob licença, o Mega Drive e o Master System (este último, vendido até hoje). Os investimentos em publicidade eram tão grandes que a TecToy chegou a bancar um programa de TV chamado Play Game, apresentado por Gugu Liberato. Todo voltado aos games e embalado por uma trilha sonora de oito bits, o programa trazia até um quadro onde as crianças “entravam” no universo do game Alex Kidd, do Master System, e era uma imagem do Dr. Robotnik quem ditava os desafios a serem cumpridos.

Alain Prost

Enfim, deu para entender que Sonic e companhia eram grandes no início da década de 1990, e por isso ninguém estranhou quando a Sega patrocinou o Grande Prêmio da Europa de 1993, cujo nome oficial foi XXXVIII Sega European Grand Prix.

Aquela foi a temporada de Alain Prost — le Professeur venceu sete das dezesseis corridas naquele ano e levou o título com 99 pontos — o quarto e último de sua carreira, pela Williams. Senna, o vice, ficou com 73 pontos depois de vencer cinco corridas pela McLaren. O GP da Europa, que aconteceu em Donington Park, Reino Unido, é lembrado pelos fãs como uma das melhores vitórias da carreira de Ayrton Senna — e uma das últimas, também.

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Seria a corrida perfeita, contudo, para ser vencida pela Williams — além de ser patrocinadora da corrida, a Sega patrocinava a equipe na qual corriam Alain Prost e Damon Hill (com uma criativa pintura que fazia parecer que o piloto tinha as pernas do Sonic). Depois de virar 1:10 cada um, Prost e Hill ficaram com a primeira e a segunda posições, respectivamente — dois segundos à frente de Michael Schumacher e Ayrton Senna, terceiro e quartos no grid, respectivamente.

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Se Prost ou Hill vencessem a corrida, um piloto com o nome da Sega no macacão ergueria seu troféu em um pódio todo decorado com o logotipo da desenvolvedora de games, e os benefícios publicitários seriam ainda maiores. Mas tinha um Senna no meio do caminho. E como sabemos, foi ele quem venceu aquela corrida com uma pilotagem arrasadora, largando em quinto e assumindo a ponta antes mesmo do fim da primeira volta.

A prova começou sob chuva, que ia e voltava o tempo todo. Os pilotos não sabiam que pneus usar, e Senna foi um dos que apostaram certo, adotando pneus slick exatamente quando a chuva parou. Prost preferiu pneus de chuva, e acabou ficando em terceiro, atrás de seu colega de equipe e de Senna. Schumi abandonou a prova antes, depois de perder o controle do carro e rodar.

No pódio, uma cena icônica aconteceu: por alguns instantes, o piloto brasileiro levantou aos céus um enorme troféu com o formato do Sonic e o logo da Sega na frente. Foi só por alguns instantes mesmo — aquele era o troféu “não-oficial” para o vencedor, que recebeu em suas mãos o troféu verdadeiro pouco depois.

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Foi uma das grandes vitórias de Senna naquele ano, e muito apropriada: naquela corrida, o McLaren MP4/8 de Senna trazia um discreto adesivo de um porco-espinho atropelado, chamado squashed hedgehog. Era a “homenagem” de Senna a Alain Prost na corrida anterior, em Interlagos, que sofreu um acidente e abandonou a prova.

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O porco-espinho era uma referência ao patrocínio da Sega na Williams, e a provocação ficou ainda melhor com a vitória de Ayrton, que continuou usando o adesivo em seu carro em outras corridas da temporada.

 

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