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Car Culture Viagens e Aventuras

Duas semanas entre o céu e a estrada: uma viagem de moto ao deserto do Atacama

Olá, amigos FlatOuters! Primeiramente gostaria de dizer (escrever…) que é um imenso prazer poder dividir essa tão grandiosa experiência com os colegas leitores daqui. Depois, que eu espero poder traduzir em palavras a emoção única desta viagem, a realização de um sonho e até de superação. Meu nome é Wagner, tenho 34 anos, engenheiro, e sou mais conhecido pelo meu apelido, “Jeep”. Ainda estou sem meu 4×4, mas isso é outra história…

Como toda grande aventura, a minha começou com um sonho. Quando se compra sua primeira moto – a minha foi uma XLX 250R, que eu dizia ser “meu Engesa de duas rodas”- e realmente a paixão entra pelas suas veias, começa-se a achar que o seu mundo está ficando pequeno. Acredito que muitos aqui já passaram por esse sentimento quando começaram a andar de bicicleta: no começo era só “em frente de casa”, depois até a esquina, depois até a rua de cima, depois até… Seu mundo começa a expandir e sua vontade de conhecer o que tem além cresce na mesma proporção. Sem me estender muito nesta parte mas desde criança gostava de pegar estrada com meus pais, dirigi numa rodovia a primeira vez aos 13 anos e inclusive alguns amigos diziam que eu era o “Renegado”, pois tudo o que eu falava sobre carros e motos fazia menção à estrada – sem trocadilhos sobre Jeep Renegade, ok?

A

Voltando ao sonho, acredito que praticamente 10 entre 10 motociclistas sonham com uma viagem longa ao desconhecido, e que para a nossa realidade acaba sendo quase que inevitavelmente conhecer o deserto do Atacama. Esse era o meu também.

Claro, hoje ao ler esse texto ficará um pouco a impressão de que é fácil, corriqueiro e principalmente barato fazer uma viagem dessas, e esse é o principal motivo de não ter realizado essa trip antes dos meus 34 anos. Muito eu falava sobre fazer, mas a realidade não permitia. Até que um dia… Voilá! Vamos ao Atacama! Vamos ver passo a passo como isso aconteceu.

Estava a algum tempo sem moto. Minha penúltima moto foi roubada (São Paulo… Ah, São Paulo…) e por segurança decidi que ficaria sem minha paixão. Nesse espaço de tempo, duas hérnias de disco afastaram temporariamente o meu sonho de voltar a ter uma moto, e ainda mais de fazer grandes viagens. No final de 2013, dois meses antes do meu casamento, operei as hérnias de disco e dentro de alguns meses (mais uma vez não pensem que foi fácil) eu estava em condições de voltar a andar de moto.
Meu amigo Luiz Felipe abraçou a ideia de viajarmos (aliás, a sugestão partiu dele) e começaram os preparativos. Mas, e a moto? Minha esposa Fernanda cedeu o carro dela (ah, o amor! Mas ela “herdou” o meu, que era mais novo) e comprei a moto. Pronto! O maior passo já foi dado. Data marcada – abril/2015 – e lá vamos nós aos preparativos!

Uma viagem como essa não é complicada burocraticamente falando, mas requer alguns cuidados:

– o veículo precisa estar em seu nome, ou ter uma procuração do proprietário do mesmo
– com o acordo do Mercosul não é necessário passaporte. Levamos os nossos para facilitar a tramitação alfandegária entre Argentina e Chile mas, apesar deste último não fazer parte do Mercosul, ele também não exige passaporte – o RG serve como identificação.
– Precisa estar regularmente habilitado no Brasil, e não precisa ter habilitação internacional.
– os países exigem um seguro para terceiros, mesmo que seu seguro vigente o faça. Para o Mercosul existe a famosa Carta Verde, que pode ser obtida com um corretor de seguros aqui no Brasil; já o Chile exige o Soapex, que deve ser comprado com uma corretora chilena via internet.

Documentos em mãos, motocicletas revisadas (vou falar um pouquinho mais delas abaixo), grupo definido, começaram os preparativos do roteiro. Nesse momento nosso amigo Rubens, que já tinha feito o roteiro, foi de extrema importância. Sempre procurem alguém que tenha feito a viagem pretendida, seja qual for o destino. Rubão, mais uma vez muito obrigado por toda ajuda e paciência!

Nosso trajeto definido foi: São Paulo — Foz do Iguaçu – Corrientes (AR) – Chaco – Salta – Purmamarca – Jujuy – Andes – Paso de Jama (CH) – Andes chilenos – San Pedro de Atacama – Antofagasta. Depois, seguiríamos em direção ao sul, passaríamos próximo a Santiago, retornaríamos para a Argentina, cruzaríamos os Caracoles, depois Mendoza, Rosario, Buenos Aires, cruzaríamos o Mar del Plata de navio, e uma vez no Uruguai, visitaríamos Montevideo, Punta del Este e de volta a terra brasilis. Aproximadamente 10.000km nos aguardavam!

Fazendo um adendo às motocicletas, minha R 1200 GS e a F 800 GS do Felipe receberam pneus e pastilhas de freio novas, faróis auxiliares (embora nossa pretensão não fosse andar a noite), alguns itens de conforto e proteção, foram revisadas, receberam fluidos e pneus novos, e bora pra estrada.

Nem tudo sai como planejado, infelizmente, mas precisamos estar prontos pra enfrentar as adversidades da vida. O grupo que inicialmente teria quatro motos ficou com apenas duas. Ok, vamos viajar mesmo assim. Mas ainda tinha mais esperando pela frente. Coloquem seus capacetes e luvas que agora começa a viagem!

Dia 1: deslocamento de Sumaré/SP, onde mora o Luiz Felipe, a Cascavel/PR. Um belo percurso e com belas paisagens, sendo o principal percurso de São Paulo a Foz do Iguaçu/PR. Aproximadamente 950km e uns 400 deles com chuva… Aliás, essa nos acompanharia por vários dias de viagem.

Dia 2: deslocamento até Foz do Iguaçu, cerca de 160km. Câmbio de dinheiro, e vamos pra Argentina! A malha rodoviária da Argentina é composta basicamente por vias de pista simples, poucos são os trechos duplicados. Mas de um modo geral, rodovias bem conservadas e bem sinalizadas. Nesse dia, tomamos bastante chuva na região de Missiones (rodamos uns 500km sob chuva pesada). Pelo intercomunicador (que ajuda pacas!) falei ao Felipe “agora tenho certeza que estamos na Argentina, passamos por um caminhão Renault!”. Também rodamos por uma das rodovias mais insanas que eu já conheci: após passar por Posadas, temos uns trechos de planície com retas intermináveis – uma delas tinha 26km! Cruzeiro elevado, reta que some no horizonte, chegamos a Corrientes. Total 750km.

 

Rodovia na região de Posadas/AR e suas planícies
AC

Quarto de hotel de motociclistas…

Dia 3: acima eu afirmei que nem tudo sai como a gente planeja… Nesse dia, acordei com uma dor de cabeça horrível, enxaqueca mesmo. Isso retardou nossa saída e começamos a rodar praticamente 11h da manhã. Saindo de Corrientes em direção ao Chaco (outra província), temos uma avenida bastante confusa e que na pista principal não podem circular motocicletas. Na tentativa de seguir o caminho correto, estávamos seguindo um Amarok local e “eis que senão quando“ o hermano entrou na contra-mão e fomos juntos…”. A polícia nos parou, um pouco de enchessão de saco, mas depois de aproximadamente 40 minutos seguimos viagem. E ali seria o PIOR trecho da viagem: o Chaco! Essa região no norte da Argentina é uma enorme planície, quente pra burro (34°C na média), com o pior asfalto da Argentina e com toda a fauna local solta, desde galinhas e cachorros até porcos e cavalos. Muito perigoso, mas cruzamos. A noite começou a cair, a chuva também…

Seguíamos em direção a Salta, já na região serrana, quando faltando 7km para chegar no hotel tivemos um problema: “tinha uma emenda de asfalto no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma emenda de asfalto…” diria o poeta. A via estava sendo recapeada e apenas uma faixa de rolagem estava com o asfalto novo, com um degrau maior que um maço de cigarros. Ao mudar de pista, a noite e com chuva, ficou invisível. E lá vai o Jeep e sua GS para o chão.

Nada grave pra mim, mas a moto teve algumas avarias leves. Seguimos de guincho para o hotel e no dia seguinte seguimos a uma concessionária BMW em Salta mesmo.
Esse foi um dos momentos mais tensos pois havia uma chance muito grande de não conseguirmos as peças necessárias para o reparo e de ter que despachar a moto para o Brasil. Ou seja, nossa viagem poderia acabar ali!!! Precisei de muito apoio do Felipe e da minha esposa que, por telefone, fez o possível e o impossível para me encorajar. Esse apoio foi essencial e não tenho vergonha em assumir que derramei algumas lágrimas nesses dias pelo medo e incerteza, pois a viagem dos sonhos poderia acabar ali.
Ainda nesse período, ficamos sabendo que um vulcão entrou em erupção no sul do Chile e que suas cinzas chegaram ao sul da Argentina. Tava tudo a favor… Alguns motociclistas ficaram presos em Bariloche por causa das cinzas.

Três dias, alguns passeios e muitos bifes de chourizo depois (Salta é também uma estância turística) a moto estava pronta e seguíamos viagem, desta vez parando em Purmamarca, na entrada dos Andes e a cerca de 2000m de altitude. Total 950km.

ACA

Bife em Salta/AR

Dia 6 (pulando os dias parados): acordamos em Purmamarca e a paisagem vista da janela do quarto no hotel é indescritível! Vamos cruzar os Andes! A sensação de se estar em uma das regiões mais inóspitas do planeta é sensacional! Paisagens indescritíveis, emoções únicas. Tivemos que nos policiar para não parar toda hora pra tirar fotos, pois a cada curva a paisagem salta a vista. Chegamos a pouco mais de 4000m, cruzamos um salar em San Salvador de Jujuy (outra experiência única) e chegamos a Paso de Jama, fronteira com o Chile. A Argentina havia ficado para trás. E ter um carimbo dessa aduana no passaporte NÃO TEM PREÇO! Trâmites aduaneiros tranquilos, inspeção das motos e mais uns kms até San Pedro, cruzando o ponto mais alto de toda a viagem, com 4700m de altitude. Mais uma vez Deus nos contemplou com belíssimas paisagens e a sensação de sermos ínfimos frente ao planeta. Que espetacular! Pegamos um frio considerável (3°C) mas a beleza das montanhas com neve em seus cumes afasta qualquer dificuldade.

Cruzando os Andes

AHB

Detalhe da altitude, e essa nem foi a maior…


Salar de San Salvador de Jujuy
AL AM

Mais uns trechos de Andes

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Carimbo no passaporte de Paso de Jama


Fronteira e aduana do Chile em Paso de Jama

A partir dos 3300m os motores começam a perder desempenho de maneira bastante sensível, mas nada que proíba de se seguir viagem. Em compensação o consumo, que na média da viagem ficou em 17,5km/l, nos trechos andinos ficou em 22km/l. Muito bom para uma 1.200cc. Total 800km.

Observação interessante: muito se fala sobre a dificuldade de se respirar e passar mal nas altitudes. Realmente fica difícil respirar a partir dos 3.000m, sendo que a partir dos 3.500 começa a incomodar bastante. Pilotando não se nota nada de anormal, mas em uma das cenas hilárias da viagem eu coloquei a câmera no tripé, disparei o timer e tentei correr para sair na foto, mas não consegui chegar! Faltou ar. A dica é ir parando brevemente (ótimos momentos para tirar fotos), ir bebendo líquido regularmente nas paradas e, claro, um pouco de preparo físico antes da viagem ajuda também.

Dia 7: hora de conhecer San Pedro de Atacama. A cidade chilena está situada a cerca de 2.500m de altitude, é pequena e praticamente não tem vias pavimentadas, mas é bem aconchegante e segura, além de oferecer uma boa infraestrutura de restaurantes e lazer. Fomos conhecer o sítio geológico El Tatio, com seus gêiseres e belas paisagens. É o maior parque de gêiseres na América do Sul. Tomamos café da manhã no meio do nada e com leite aquecido no gêiser. Vale a visita! Na volta, a van parou para comermos churrasco de lhama (é bom e segundo o guia é mais saudável que carne bovina). Não rodamos de moto nesse dia.

AU

San Pedro de Atacama à noite
AUA

Ponto salvo no GPS

Chegando em El Tatio, tava tão frio que formou gelo no protetor do rosto


Café da manhã mais inusitado do mundo!


El Tatio, gêiseres e paisagens
BD

Churrasco de lhama

Dia 8: decidimos que nossa viagem não teria mais a parte sul do percurso, vai ficar pra uma próxima, mas tínhamos que seguir viagem até o Pacífico. Mais 450km e chegamos na praia de Antofagasta, que por sinal é uma bela cidade. Mãos molhadas nas geladas águas, pausa para umas empanadas e vamos conhecer esse que seria o ápice de nossa viagem, a “mano del desierto”. Trata-se de uma escultura feita na parte desértica de Antofagasta e que é “point” obrigatório para os motociclistas que se aventuram pela América do Sul. A emoção é indescritível, e mais uma vez algumas lágrimas pela conquista, pois essa era nossa principal meta! Lembro-me de estarmos indo embora da atração e eu ficava olhando pelo retrovisor aquela mão. Como eu sonhava com aquilo! Voltamos a San Pedro, vimos paisagens lunares (lindas por sinal) e pernoitamos mais uma vez. Total: 900km.

Chegamos no oceano pacífico


La mano del desierto
BL

Homenagem à minha esposa em la mano del desierto
BM

Paisagem lunar próximo a SP Atacama

Dia 9: hora de começar a voltar pra casa. Saímos cedo do hotel – não muito, mesmo porque lá o dia amanhece quase 8h da manhã – abastecemos as motos no único posto da cidade e bora cruzar os Andes. Por volta das 10:30 estávamos num dos pontos mais altos do percurso – 4700m – e apesar do sol que brilhava intensamente e do céu azul, enfrentamos a menor temperatura da viagem: 5,5°C negativos! Tivemos que parar para aquecer as mãos no escapamento, mesmo com os aquecedores de punho ligados e com duas luvas em cada mão. Chegando a Salta fomos direto no restaurante no qual comemos o melhor bife de chorizo da viagem. Total: 950km.

BN

Ponto mais frio da viagem!

BO

“Posto” de gasolina próximo a Purmamarca

BP

Sierra de las 7 colores, próximo a Salta

Dia 10: hora de enfrentar o @#$%! do Chaco de novo. Muito calor, um pneu furado (tinha um kit de reparo na bagagem – aliás recomendo um bom kit de ferramentas para uma viagem como essa) e chegamos a Corrientes a noite. Total: 950km.

Dia 11: cada vez mais perto de casa, esse seria um dia de deslocamento por belas paisagens, retões intermináveis e fronteira com o Brasil. Vale lembrar que o Chaco possui retas maiores, de aproximadamente 50km, mas que é impossível andar rápido devido as condições da pista e a quantidade de animais soltos.
Chegando a Puerto Iguazu, na fronteira com o BR, parada para o último “bifão genuinamente argentino” e entramos no Brasil. Como é bom chegar num hotel que o atendente fala português! Total 750km.

Dia 12: tiramos um dia para passear no Paraguai e descansar. Apesar do dólar já estar assolando, “muamba” é bom e todo mundo gosta! Não andamos de moto nesse dia.

Dia 13: hora de me despedir do meu amigo Felipe. Após aproximadamente 7.000 km rodados juntos, ele iria seguir para Registro via Curitiba e eu seguiria para Londrina, onde visitaria outro amigo. Total rodado (meu): 650km

Dia 14: parti cedinho de Londrina pois era retorno do feriado de 1º de maio, o que normalmente deixa as rodovias lotadas e paradas. Essa foi a parte que mais me entristeceu, não porque era o fim da viagem mas pela situação em que vivemos: como estava com a moto carregada (duas câmeras, tablet, roupas, equipamentos, ferramentas, documentos, etc.) decidi que não chegaria em São Paulo com a moto cheia. Minha esposa se deslocou até Itu a 90km de São Paulo, onde passei toda a bagagem para o carro, e cheguei em SP vazio. É triste essa situação para nós motociclistas, estarmos a mercê da violência e, como disse a alguns amigos, “cruzei o continente e o local onde tive mais medo de rodar foi na Marginal Pinheiros”. Mas cheguei bem em casa. Os amantes de duas rodas deverão concordar comigo num ponto: você faz uma viagem dessas, chega em casa quebrado, toma um banho, senta no sofá e já começa a pensar quando será a próxima! O nome disso é paixão.

Sei que muitas coisas aconteceram, conhecemos muitas pessoas interessantes, visitamos lugares fantásticos e o que eu relatei aqui não reporta nem 10% de toda a alegria e o sentimento que nos acompanhou por toda a viagem. Fantástico no sentido mais pleno da palavra! As paisagens gravadas na memória serão eternas.

BQ

Foto de encerramento no salar

Mais uma vez queria agradecer a todos os envolvidos na realização desse sonho, em especial ao meu companheiro de asfalto Luiz Felipe e a minha esposa Fernanda. Agradeço também o FlatOut pela oportunidade de expor aqui minha experiência e aos leitores pela paciência de acompanhar essa história.

Grande abraço!

Wagner “Jeep”

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