Edição diária: 18/06/2019
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Dubai Road Express: como era cruzar a rota rodoviária mais longa do planeta… em 1976!

Por Carlos Eduardo Almeida

Até hoje uma das profissões mais insalubres do mundo é a de caminhoneiro. Jornadas de trabalho acachapantes, alto risco – seja de assalto, seja de acidentes de trabalho – e a distância e tempo fora de casa fazem com que essa profissão não seja para qualquer um. E se hoje em dia não é fácil, mesmo com as benesses do GPS, telefones celulares e a melhora considerável de ergonomia e conforto dos brutos, imaginem como era a situação nos anos 1970, sem nenhuma destas facilidades e precisando se virar com o que estava ao seu alcance?

Apesar das estradas melhor sinalizadas e em melhores condições no geral, as coisas não eram muito diferentes no velho continente. Especialmente se você era um dos bravos motoristas a dirigir para a Johan Evensen & Sønner, transportadora norueguesa baseada em Sandefjord, a 122 km ao sul de Oslo e na orla do Mar do Norte. Mas antes de contar o que essa companhia fez de notável e, mais especificamente sobre uma viagem deles, é importante contextualizar o mundo há 45 anos.

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Tensão no Oriente

O Oriente Médio sempre foi uma região muito conflituosa. Apesar do clima desértico e solo árido, a posição estratégica por ser rota de passagem entre a Europa e Ásia, somado ao Canal de Suez, inaugurado em 1869, e ao petróleo abundante sempre fizeram com que a região fosse alvo de disputas de poder de governos e Estados pela sua hegemonia. Nos anos 60, a situação se tornou especialmente grave após a Guerra dos Seis Dias, entre uma coalizão de países árabes (Síria, Egito, Jordânia e Iraque, apoiados pelo Kuwait, Arábia Saudita, Argélia e Sudão) contra Israel. 

No dia 5 de junho de 1967 – início da ofensiva árabe – o Egito fechou o Canal de Suez. Sendo essa a principal rota de mercadorias entre a Europa e a Ásia, as embarcações tiveram que adotar um novo caminho – bem mais longo – pelo Atlântico, contornando a costa africana e dobrando o Cabo da Boa Esperança para alcançar o Oceano Índico e a Ásia. Com isso, os sultanatos e emirados do Golfo Pérsico ganharam uma importância além da extração e comércio de petróleo. Os navios passaram a ancorar nos principais portos do golfo (Dubai, Catar, Bahrein, Abu Dhabi) para carga e descarga de mercadorias para a região pérsica e para realizar eventuais manutenções antes de prosseguir pela rota atlântica.

Só que para a manutenção dos navios, era necessário o suprimento de peças até essas localidades. É aí onde entra a Johan Evensen & Sønner. Ela foi uma pioneiras a cruzar o que ficou conhecida, na época, como a maior rota rodoviária do mundo. Entre 1969 e 1975, eles fizeram 106 viagens de Sandefjord, na Noruega, a Bandar Abbas, no Irã, na costa leste do golfo pérsico. Uma viagem de mais de 12.000 km ida e volta que foi nomeada de “Bandar Abbas Express”, e era a mais longa de um conjunto de rotas rodoviárias a abastecer cidades do Oriente Médio.

Essa rota só foi interrompida após a crise do petróleo de 1974, que levou muitas companhias navais norueguesas à falência, acarretando uma diminuição drástica na demanda por este tipo de transporte de carga e o frete ficasse muito caro por conta do aumento repentino do gasto com combustível.

Isso por si já seria fonte para escrever um livro, mas hoje irei contar a história de uma viagem ainda mais especial, até Dubai, nomeada “Dubai Road Express”.

 

Na estrada… sem estrada

Em 1976, o petroleiro norueguês M/T Serpens Constellation teve uma quebra no Atlântico Sul, a caminho do Golfo Pérsico. Imediatamente eles solicitaram uma peça de reposição, que teve que ser fabricada na Noruega e entregue o mais rápido possível.

Como o navio não ficou à deriva, eles decidiram ancorar em Dubai para realizar o reparo, e o tempo que eles gastariam para chegar lá seria suficiente para fabricar a peça em caráter de urgência e transportá-la até o destino. Nessa época o Canal de Suez já havia sido reaberto, porém não foi possível encontrar um navio que pudesse transportar a carga a tempo e também estivesse saindo da Noruega, então ela foi despachada de caminhão.

Jan Dabrowski, um ex-marinheiro que, após casar e constituir família, resolveu ter uma vida mais “tranquila” como motorista de caminhão, foi escalado para levar a carga. A empresa iria aproveitar essa entrega para analisar a viabilidade de abrir uma rota regular até Dubai.

Então, enquanto a peça era fabricada, ele curtia uns dias de folga com a família e revisava seu Scania 140 Super na configuração conhecida aqui no Brasil como “Romeu e Julieta” – caminhão sem quinta roda puxando um reboque acoplado de uma maneira parecida com a de um automóvel puxando um trailer.

Com a peça pronta, Jan carregou seu caminhão não só com ela, mas com outras mercadorias que seriam entregues também em Doha, e partiu para sua jornada solitária.

Os motoristas que dirigiram pelo Oriente Médio sempre diziam que dirigir pela Europa era fácil, já que as condições eram muito boas no geral. O desafio mesmo começava na Turquia. Ali, eles tinham dois marcos que os mostrava que o pior estava por vir. O primeiro, conhecido como Londra Camping, ficava no lado europeu de Istambul e era um ponto de parada famoso entre os caminhoneiros que vinham ou seguiam para o Oriente.

O outro era a passagem pela Ponte do Bósforo, que liga as duas margens do estreito de mesmo nome e, apesar de hoje existirem mais duas outras pontes, talvez seja a ligação mais famosa entre a Europa e a Ásia. Enquanto para cumprir os aproximados 3.200 km de Sandefjord até Istambul bastavam poucos dias de estrada, a partir dali a jornada se tornava séria e realmente perigosa.

Para se ter idéia, os motoristas que faziam a rota até Bandar Abbas e passavam por parte do caminho feito por Jan tiveram que fazer suas anotações e mapas de uma maneira parecida com a de um navegador de rally cross-country, porque simplesmente não havia nenhum mapa rodoviário disponível nos países por onde eles transitavam.

Desta forma, cada marco avistado na estrada e que eles sabiam que não seria removido dali tão cedo acabava indo parar nas anotações, junto com a marcação em quilômetros lida no hodômetro. Uma carcaça de carro abandonada à beira da pista, um vilarejo, um cruzamento, tudo precisava ser usado como ponto de referência e revisto à cada passagem, pois se algo mudasse havia uma grande chance de se perder no meio do nada sem nenhum tipo de apoio.

Desta forma, Jan prosseguiu até chegar em Doha, no Qatar, a mais de 3.200 km de Istambul e 6.400 km de casa. E vejam, apesar das condições rodoviárias da última metade da viagem até aquele momento serem precárias, ele dava graças à Deus por ainda ter uma rodovia para percorrer. Apesar dos imensos perigos que corriam, com autoridades corruptas tentando arrancar dinheiro deles, o risco de pilhagem e de morrerem apenas por serem os caras errados nos lugares errados nas horas erradas, ainda assim ele seguia em frente.

Mas para Jan, já a mais de uma semana longe de casa, o pior estava por vir. De Doha a Dubai são aproximadamente 700 km, o que, a priori, parece tranquilo. Mas se você considerar que, naquele 1976, havia um trecho de aproximadamente 300 km sem estradas, que teria que ser cumprido atravessando o deserto, a coisa começa a ficar séria de verdade!

Ele descarregou em Doha, deixou o reboque lá e começou a se preparar para o último e mais perigoso trecho. Conversou com motoristas locais para pegar dicas, trocou o tanque de combustível por um que ficasse mais alto em relação ao solo e não ficasse preso quando ele atolasse na areia, e partiu. 

Haviam duas maneiras de dirigir naquelas condições: ou você seguia a 10 km/h passando pelas irregularidades e corria o risco do equipamento superaquecer, ou você cruzava “flutuando” pelos obstáculos a 60 km/h ou mais e podia cair e afundar em uma ondulação mais profunda entre as dunas. Ou seja, de ambas as maneiras você poderia se acidentar e simplesmente desaparecer. Além disso, havia o alto risco de se perder no meio do nada. E o Deserto da Arábia não hesitaria em sumir com alguém para sempre. Naquele momento, em um período de menos de um ano, o deserto tomou a vida de 14 motoristas locais, gente experiente em fazer aquela rota. Seus corpos nunca mais foram encontrados

Aquele era um ponto onde, como a gente costuma dizer, “o filho chora e a mãe não vê”. Os próprios caminhoneiros daquela época contam que viram inúmeras vezes homens durões chorarem feito crianças e que todos em algum momento se questionavam se valia mesmo a pena continuar em frente.

Com ou sem choro, a entrega ainda precisava ser feita.

Quando chegou ao fim da estrada, Jan seguiu outro macete para dirigir na areia: murchou os pneus e prosseguiu. Depois de poucos quilômetros, ele percebeu que murchara demais, pois dois deles estouraram, e ele contava apenas com dois sobressalentes. Ao invés de voltar a Doha para os devidos reparos e a compra de mais pneus, ele simplesmente seguiu em frente. “Um explorador é um explorador, e só há uma direção: para frente”, disse.

Seu caminhão contava com um recurso chamado de “Robson Drive” ou “Robson Wheel”. Isto nada mais é que uma maneira rudimentar de, num caminhão 6×2 (onde duas das seis rodas tracionam o veículo), torná-lo 6×4 (onde as quatro rodas traseiras tracionam o veículo). Uma pequena roda de metal era forçada a se encaixar entre os pneus de um mesmo lado por meio de um sistema hidráulico e, com isso, aqueles pneus girariam solidários. Este seria um recurso muito útil, mas o calor fez com que o acionamento parasse de funcionar.

Então, com um tanque menor que o original, sem nenhum pneu sobressalente e nenhum recurso extra para utilizar, Jan optou por seguir em frente. Como era de se esperar, o ritmo foi muito lento, pois o caminhão atolava incessantemente na areia. Como ele mesmo disse, prosseguia três pés por vez: o caminhão andava poucos metros, atolava e ele tinha que descer para cavar e desatolar o bruto.

Várias horas após a estrada se tornar trilha e a trilha se tornar um deserto quente e desolador, a resiliência dele foi recompensada. Depois de um tempo a trilha reaparecera e, novamente, o asfalto renasceu no meio do nada. Assim, ele foi capaz de chegar a Dubai e cumprir sua missão a tempo. 

Após a missão cumprida, ele fez a única coisa que lhe restava: deu meia volta e seguiu em frente, de volta para casa.

No fim, a empresa percebeu a inviabilidade de transportar carga por meio rodoviário até Dubai e decidiu que a viagem não seria mais feita. E desta forma, o feito de Jan Dabrowski foi único por um longo período, até que a rodovia corta o deserto de vez e a ligação entre Doha e Dubai fosse concluída.

A Scania, na época dessa viagem, decidiu documentar tudo e até o ano passado, esse material estava apenas em seus arquivos. Entre julho e agosto do ano passado, eles fizeram uma série de vídeos intitulados “Legends of Long Haulage” (“Lendas do Transporte de Longas Distância”, em tradução livre), além de lançarem, na íntegra, o documentário original.

 

Se me permitem a sugestão, abram uma cerveja, recostem na cadeira e vejam todos os seis vídeos em sequência, porque não só a história dessa viagem, mas também as rotas para Bandar Abbas e o testemunho dos senhores que bravamente a percorriam vale cada minuto gasto.

Capítulos:

Vídeo completo:

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