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Car Culture Sessão da manhã

É assim que um BMW M1 de corrida (com motor V8) deve ser pilotado

Um BMW M1… mas com ronco de motor V8 aspirado? E ultrapassando boa parte do grid durante um evento histórico em Hockenheim? O que está acontecendo aqui? Bem, simplesmente um BMW March com motor Chevrolet sendo pilotado no limite, como todo clássico de corrida deveria ser.

Você já sabe o que fazer: procure fones de ouvido, se acomode em um lugar confortável e dê o play!

A imagem que abre este post é uma foto do carro. Se você manja um pouquinho sobre a história do BMW M1, sabe que ele foi o primeiro (e até agora, único) esportivo de motor central-traseiro feito pela BMW e que ele usava um seis-em-linha de 3,5 litros com comando duplo no cabeçote e corpos de borboleta individuais. Naturalmente aspirado, o motor entregava 275 cv a 6.500 rpm, e a versão turbinada usada no BMW M1 Procar Championship chegava perto dos 900 cv.

Acontece que este carro não é um M1 Procar e, se você tem facilidade para identificar roncos, você deve ter sacado que este não é um seis-em-linha turbo, mas um V8 naturalmente aspirado. O zunido que se ouve não é o assovio da turbina, e sim o barulho das engrenagens de dentes retos no câmbio de corrida – um Hewland LG600, manual de cinco marchas.

Trata-se de um BMW-March M1, carro de corrida especial do qual só foram construídas cinco unidades (eram seis nos planos originais) no final da década de 1970. Ele surgiu quando a BMW preparava o M1 para competir no Grupo 5, categoria de turismo que era bastante liberal e permitia modificações muito extensas no carro. Para se ter ideia, o principal rival do M1 na categoria era o Porsche 935 “Moby Dick”, que consistia basicamente em parte do monobloco de um 911, o restante da estrutura em tubos de metal, um body kit extremamente agressivo feito de fibra de vidro e um flat-six turbinado de 2,85 litros e quase 600 cv.

A BMW, então, firmou uma pareceria com a equipe britânica March, com quem já havia trabalhado na Fórmula 1, e ficou estabelecido que, enquanto a fabricante alemã cuidaria do conjunto mecânico do carro, a March seria a responsável por todo o resto – aerodinâmica, estrutura, suspensão e freios.

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Traseira alongada para reduzir o arrasto e produzir mais downforce

Acontece que a BMW demorou demais no desenvolvimento dos motores e, enquanto isto, os engenheiros da March já haviam terminado seu trabalho. Enquanto o motor turbo não ficava pronto, a versão naturalmente aspirada do M88 de competição, capaz de entregar mais de 480 cv, foi colocada no March M1, e alguns exemplares foram parar nas mãos de pilotos independentes.

Um deles foi Jim Busby, primeiro dono deste carro, que comprou diretamente com a March. Em 1980 ele completou algumas corridas com o M1 na categoria IMSA GTX, disputada nos EUA e no Canadá, usando o motor naturalmente aspirado, mas não conseguiu bons resultados e sofreu com problemas mecânicos (o cardã era especialmente problemático). A BMW estava demorando demais para entregar o M88 Turbo, e ocasionalmente o fez – mas só depois de começar sua parceria na Brabham com a Fórmula 1, o que levou a marca a cancelar seus planos de entrar no Grupo 5. Àquela altura, Busby já havia ficado irritado demais com a enrolação bávara e decidiu resolver as coisas como bom americano: meteu um V8 Chevrolet atrás dos bancos do carro.

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O novo motor caiu como uma luva, abaixou o centro de gravidade do carro e ainda elevou a potência de 485 cv para mais de 700 cv. Se ele tivesse feito isto hoje em dia, talvez fosse até executado em praça pública por tamanha heresia, mas naquela época o March M1 só era um carro de corrida abandonado pela própria fabricante (os M1 usados no Procar eram diferentes, seguindo as regras do Grupo 4). Não era herético colocar nele um motor mais potente, mesmo que fosse de outra marca.

Acontece que, mesmo com o novo motor, o carro não conseguiu vencer nada, e ainda perdeu um dos cilindros durante uma corrida no circuito de Riverside. Busby vendeu o carro depois disso. E ainda comprou um Porsche.

O March M1 de Busby nas 12 Horas de Sebring. Curiosidade: um dos pilotos era Bruce Jenner, que hoje em dia se chama Caitlin Jenner

Dois anos depois, em 1982, o M1 de Busby reapareceu – desta vez, competindo na categoria GTP da IMSA, dedicada a protótipos. Foi quando ele adquiriu sua forma atual, com uma dianteira bem mais estreita, para-lamas mais largos e uma enorme asa traseira, além de um V8 Chevrolet de 6,5 litros e 540 cv. Intercalando este motor com (finalmente) o seis-em-linha turbo da BMW, o carro competiu até 1983, quando foi vendido novamente.

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O March M1 trocou de mãos algumas vezes até chegar ao holandês Jan Bot. Bot é piloto amador, e compete com o carro em provas históricas por toda a Europa – como a corrida do vídeo que abre este post, que foi parte do Hockenheim Historic, campeonato para carros de competição clássicos que rolou entre os dias 21 e 23 de abril de 2017 no circuito alemão.

O carro é sempre mantido em condições de competir, e Jan compartilha em seu canal no YouTube e na página do Facebook vídeos e fotos das provas.

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