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E-Type Reborn: Jaguar vai deixar dez unidades de seu maior clássico novas em folha

Não faltam empresas especializadas em trazer carros antigos velhos e cansados de volta a sua velha forma – às vezes, até melhores do que eram quando novos. E, recentemente, as próprias fabricantes têm mordido este nicho com todos os dentes, dedicando divisões inteiras a buscar carros com potencial para serem restaurados a nada menos que a perfeição.

A Jaguar Land Rover vem investindo pesado nesta frente. No começo do mês passado, a Land Rover anunciou a série de inauguração do programa Range Rover Reborn, que envolveu o garimpo e a restauração completa de dez exemplares do Range Rover de 1978. Os carros foram desmontados e reconstruídos do zero, com direito a repintura, recuperação do interior e motor totalmente refeito, e tudo isto com componentes originais novos – ou, quando possível, retirados do próprio exemplar, recondicionados e reinstalados. O resultado: dez exemplares daquilo que, na prática, é um Range Rover 1978 zero-quilômetro.

Agora, pouco mais de um mês depois, chegou a vez do Jaguar E-Type – do ponto de vista entusiasta, um carro ainda mais icônico. Para começar: muita gente o considera o carro mais bonito já feito em todos os tempos, até mesmo Enzo Ferrari, que disse exatamente estas palavras quando o E-Type foi lançado. E, à parte das opiniões pessoais que todos temos, fica difícil argumentar contra o E-Type.

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Suas formas longilíneas e suaves, com um longo capô, habitáculo recuado e traseira curta, os faróis circulares que ladeiam a pequena grade oval, as lanternas displicentemente penduradas no para-choque traseiro, as rodas raiadas e a harmônica área envidraçada. As portas pequenas e o modo como se acessa o motor, levantando toda a porção dianteira, não negam a origem nas pistas – como dissemos neste post, o E-Type é a evolução final de uma receita que começou com o Jaguar D-Type, vencedor das 24 Horas de Le Mans de 1955 a 1957.

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Tal qual o D-Type, o Jaguar E-Type usa uma estrutura monobloco com subchassi tubular na dianteira. A diferença é que o Jaguar E-Type foi planejado para ser capaz de viajar nas rodovias e encarar algumas curvas em uma estradinha rural quando o dono estivesse a fim com a mesma desenvoltura. Na dianteira, o motor servia como componente estrutural, e o resultado era um carro leve, com 1.315 kg, e bastante rígido.

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Um detalhe importante é que, apesar de tudo isto, o Jaguar E-Type era um carro barato para sua proposta, e vendeu muito bem: mais de 72,5 mil unidades foram fabricadas em 14 anos, de 1961 a 1975, em três gerações distintas – séries I (cerca de 38.000 carros), II (aprox. 19.000 carros) e III (cerca de 15 mil carros).

O E-Type da Série I é o mais valioso de todos, apesar de também ser o mais comum, com mais de 38 mil unidades feitas entre 1961 e 1968. Isto porque ele tem o visual original do Jaguar E-Type somado ao clássico motor de seis cilindros em linha, com 3,8 ou 4,2 litros de deslocamento. A Série II, fabricada entre 1968 e 1971, manteve o seis-em-linha mas recebeu algumas alterações estéticas, como a perda das lentes de acrílico sobre os faróis, uma grade maior, lanternas dianteiras e traseiras também maiores, e um para-choque traseiro envolvente. A Série III, feita de 1971 até 1975 trocou o seis-em-linha por um V12 de 5,3 litros – o que alguns consideram quase um sacrilégio, visto que o motor de seis cilindros é mais leve e quase tão potente quanto.

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Acontece que, com o passar das décadas, o Jaguar E-Type passou por uma valorização muito grande. Muitos carros foram convertidos para uso nas pistas, e muitos outros foram restaurados nos últimos anos. Isto tornou a tarefa de encontrar um exemplar em estado mediano a um preço bacana, na medida para uma restauração, bastante difícil. Se quiser comprar um E-Type hoje em dia, é bem provável que você vá gastar uma fortuna por um carro impecável.

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Talvez tenha sido esta a motivação para que a Jaguar tenha escolhido a Série I do E-Type como base para o programa Reborn. O esquema é o mesmo que foi feito com o Range Rover: dez exemplares foram garimpados pela Jaguar Classics e simplesmente reconstruídos do zero, sendo realizados quaisquer reparos necessários para que o carro fique no mesmo nível de quando era novo, ou até melhor.

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Sendo uma restauração feita in house, os especialistas têm acesso aos blueprints e projetos originais da década de 1960, o que assegura a fidelidade de qualquer componente que precise ser reproduzido. O primeiro carro ficou pronto recentemente: um Jaguar E-Type fabricado em 1965 e exportado para a Califórnia em maio daquele ano. Seu dono rodou aproximadamente 78 mil milhas (cerca de  125,5 mil km) com o carro até 1983, antes de ser guardado e ficar parado por décadas. Motor, câmbio e carroceria são matching numbers (isto é, são os mesmos desde que o dia em que o carro saiu da fábrica), e tudo foi completamente refeito pelos técnicos da Jaguar Classic.

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A pintura carrega o tom de cinza original, chamado Opalascent Gunmetal Grey. O motor é um seis-em-linha de 4,2 litros, adotado a partir de 1964. É o motor mais cobiçado, pois apesar de ter a mesma potência do 3.8 – 270 cv –, o 4.2 tem mais torque: 39,1 mkgf contra 33,1 mkgf.  A vantagem no desempenho era sutil: tanto o 3.8 quanto o 4.2 podiam levar o E-Type até os 100 km/h em cerca de 6,5 segundos, enquanto a velocidade máxima era de 241 km/h para as duas motorizações. Porém, a potência máxima do 4.2 chegava mais cedo, às 5.400 rpm em vez de 5.500 rpm, o que somado ao aumento no torque significava respostas mais rápidas do acelerador e menor necessidade de reduzir marchas. A transmissão manual, de quatro marchas, passou pelo mesmo tratamento do motor, e foi totalmente remanufaturada.

A carroceria do E-Type conservou tantos painéis originais quanto foi possível, e os que tiveram de ser refeitos usaram os moldes originais. Até mesmo as soldas que unem os painéis foram feitas de acordo com a época do carro. O mesmo vale para o interior, onde as peças de acabamento originais foram recuperadas e aproveitadas quando possível, enquanto o revestimento dos bancos e portas foi refeito no padrão original.

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Para todos os efeitos exceto na documentação, é um carro novo. A Jaguar oferece até mesmo a opção por alguns upgrades disponíveis na época, como um sistema de arrefecimento otimizado (usando componentes do E-Type Lightweight, a raríssima versão com carroceria de alumínio e teto hard top) e freios do E-Type Série II. Caso você queira gastar só o mínimo necessário e dispense melhorias, o preço de cada carro será de £ 285 mil, ou R$ 1,1 milhão em conversão direta.

O primeiro dos Jaguar E-Type “renascidos” será apresentado durante o Techno Classica, evento de carros antigos que ocorre todos os anos em Essen, na Alemanha e, em 2017, será realizado entre os dias 5 e 9 de abril. Na ocasião, será lançado o programa E-Type Reborn, e os interessados poderão fazer suas encomendas.

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