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Project Cars

Encontrei um câmbio manual para meu Mercedes-Benz 190E 2.3-16 Cosworth!

Há vários motivos que te fazem escrever um Project Car. Um dos mais óbvios é poder compartilhá-lo com pessoas de visões de mundo semelhantes à sua, que possam acompanhá-lo, entendê-lo e, por que não, criticá-lo. Oras: em um mundo cada vez mais chato automotivamente falando, há de se valorizar quem ainda consegue pensar fora da caixa. Outro motivo seria até um pouco mais altruísta, onde você, ser humano imperfeito e mortal, acaba incentivando outras pessoas que talvez tivessem algum receio de começar algo por falta de espaço, dinheiro ou até mesmo conhecimento. Mas, nesse caso, um outro motivo foi essencial pra uma evolução essencial do projeto: a própria ajuda que você recebe de quem acompanha o projeto, seja nas redes sociais ou no dia-a-dia, e até mesmo nos comentários do próprio site.

Coisa de um mês depois que esse capítulo foi ao ar, voltei ao mesmo pra ver se tinha alguma novidade. Imaginem vocês a minha surpresa não só por saber que tinha, mas que era esse:

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Era bom demais pra ser verdade: o único senão do meu carro até agora poderia, enfim, ser sanado. Ok: os mais puristas dirão que o carro não será mais original, pois não possui o câmbio com o qual ele saiu de fábrica e coisa e tal. Mas como faz um tempo que venho amadurecendo a relação que tenho com meus carros, hoje já não faço nada neles pensando em retorno financeiro: ele são meu hobby, meu passatempo. Faço pra mim e pra continuar comigo. Respeito bastante e admiro quem ganha dinheiro vendendo carros impecavelmente originais, mas essa não é minha praia. Ou seja: “manualizar” dona Sonia causaria um peso na minha consciência menor que zero. Fiquem à vontade, chamem-me de preconceituoso, reacionário, coxinha e golpista: automático, DSG, PDK, PQP… não. A verdadeira experiência esportiva tem alavanca H e três pedais. E dona Sonia, como sempre teve seu pedigree, não poderia fugir à regra. Portanto, como se tratava de um carro idêntico ao meu, não pensei duas vezes pra entrar em contato com o cidadão.

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Acima, o escritório do Chefe, em 1984

Mas lógico que não poderia ser tão fácil. Respondi o comentário e nada. Com a ansiedade saindo pelas orelhas, procurei o cidadão no Facebook e mandei uma mensagem. E nada. Outro dia, inclusive, descobri que a tal rede social tem dois tipos de caixa de mensagens, uma principal e outra “secundária”, que armazena mensagens de quem não é seu amigo e que não fica à mostra. Pois bem, depois de quase um mês, resolvi adicionar o cidadão e insistir na mensagem. E aí, finalmente, o contato foi estabelecido.

Super gente boa, o cidadão me contou a história do carro: era uma Cossie como a minha, ano 1984, produzida para o mercado europeu, com câmbio manual original. Sempre bem cuidada por ele e seu pai, um dia, um descuido de um frentista que não apertou bem a tampa do radiador ao conferir o nível de água no posto selou seu destino: o motor ferveu e foi desmontado. Ao se remontar, montaram errado e mandaram todas as válvulas do cabeçote pro saco (alguma semelhança até agora?). Aproveitando a companhia da “Jacky”, “Jacky” vai ter que fazer o motor, aproveitou-se pra desmontar o carro e fazer uma repintura geral. Nesse meio tempo, a liminar de importação do carro caiu, impedindo que ele pudesse rodar regularizado novamente. Junto com a liminar, foi também o tesão dos donos, que acabaram desistindo do projeto de vez. E foi aí que eu entrei.

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O contato foi feito em agosto de 2015 e o carro estava em Curitiba. Como tinha uma viagem marcada em setembro, arrumei uns pontinhos aqui e acolá e marquei o bate e volta pra capital da Rússia Brasileira pro começo de outubro do ano passado. E assim foi feito.

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Chegando lá, a receptividade superou quaisquer expectativas: o rapaz era muito sangue bom, me buscou no aeroporto e me levou até sua casa, onde estava o tal carro e as peças que tinham sido desmontadas dele. Chegando lá, confesso que o sentimento foi meio bipolar: ao mesmo tempo que queria soltar uma caixa de foguetes por finalmente ter achado o bendito câmbio, me sentia em parte responsável pela decretação definitiva do sepultamento daquele carro, mesmo não o sendo. Bem: se não há remédio, remediado está.

Um pouco mais pra frente na garagem, tinha certeza que descobria mais um entusiasta: o cara tava metendo um motor de 164 numa 145 no quintal de casa. Com direito a câmbio manual e tudo. É mole ou quer mais?

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Mas vamos ao que interessa: como já havíamos conversado antes, ele já tinha separado o que eu queria num cantinho. Pouco depois de entrar pela porta de uma sala, percebi que toda aquela correria iria valer a pena.

Conversa vai, conversa vem e, após entrar de ponta na poeira pra verificar que tudo que eu precisaria pra poder converter meu carro estava lá, a pergunta que eu não queria ouvir (mentira, queria sim) foi feita: “por que você não leva o carro inteiro logo?”

“Não fala isso duas vezes não, rapaz…”

“Por que você não leva o carro inteiro logo?”
“Ok, já que você insiste…”

O valor a mais pelo carro inteiro era justo e me deixaria com uma carroceria sobressalente completa, com vidros, máquinas chicotes e diversas coisas que eu poderia vir a precisar com o tempo. O dinheiro eu ainda ia descobrir de onde eu ia tirar, mas nada que a venda de alguns móveis de casa não resolvessem. Afinal de contas, quem precisa de uma cama pra dormir? Um colchão estirado no chão é mais do que suficiente. E ainda é tradicional no Japão, chique até. Enfim. Eu precisava (sim) levar essas coisinhas pra casa: como disse que não pretendo me desfazer da nobre senhora, é essencial ter algo sobressalente em casa daqui pra frente, pra não passar nenhum apuro.

Depois do acerto da logística, a noite ainda terminou com um bom gole de cerveja e um baita churrasco, acompanhado de vários amigos da família, e servido de uma maneira que eu ainda não conhecia: no pão e com maionese! E tava bom demais da conta. Um pouco mais tarde, ao ficar no hotel ao lado do aeroporto, ia me despedindo de Curitiba, deixando o resto de um carro encomendado e mais um amigo na conta. Uma das viagens mais curtas da vida, mas de longe uma das melhores!

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Voltando pra casa, agora precisava trazer o carro. Depois de uma boa pesquisada na internet, o pessoal da Ricardo Transportes topou trazer o carro pra mim por um preço bem bacana. Depois de algum tempo, chegava no pátio da transportadora e me encontrava novamente com moribunda irmã de Sonia. Mais um guincho na conta e finalmente a deixei onde ela agora repousaria pela eternidade.

Com tudo em mãos, o próximo passo seria revisar e conferir o que fosse necessário pra montagem do câmbio e montar o carro de vez. Mas, como era de se esperar, essa parte ficará pro próximo capítulo.

Até lá!

Por Sherman Vito, Project Cars #61

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