A revista semanal dos entusiastas | jorn. resp. MTB 0088750/SP
FlatOut!
Image default
Car Culture Carros Antigos História

Enzo Ferrari deu uma Ferrari a Henry Ford II – e ela foi a inspiração para o Thunderbird

Antes de se tornar o fabricante de alguns dos melhores superesportivos do planeta, Enzo Ferrari construía esportivos artesanais, esculturais, rápidos e avançados como forma de bancar sua equipe de corridas. Um desses primeiros carros é esta Ferrari 212/225 Inter Barchetta, um roadster grã-turismo com motor V12 de corrida e uma história extremamente curiosa.

O primeiro modelo construído por Enzo Ferrari foi a 125S, um carro de corrida com só duas unidades produzidas. Quatro anos depois, o mundo viu o nascimento de sua descendente direta: a Ferrari 212 Inter.

Ferrari-1952-front3

Desta vez, era um carro de rua, mas o motor era de corrida: o V12 Colombo — projetado por Gioachinno Colombro, daí o nome — que começou pequeno, com apenas 1,5 litro (seus cilindros tinham 55 mm de diâmetro!) e 118 cv na Ferrari 125S. Na versão de Fórmula 1, com compressor mecânico, a potência saltava para 230 cv. Era um motor avançado, com comando simples no cabeçote, alimentado por três carburadores.

Na 212 Inter, o deslocamento era de 2,6 litros (212 cm³ por cilindro) graças ao diâmetro dos cilindros ampliado para 68 mm, e a potência variava entre 150 cv (com um carburador) e 165 cv (três carburadores). A suspensão dianteira era independente, com braços triangulares duplos, e a traseira trazia um eixo rígido. A carroceria, por sua vez, ficava a cargo de um carrozziere — uma companhia especializada em projetar e construir carrocerias para esportivos.

Ferrari-1952-rearGooley

Quatro carrozzieri ficaram encarregadas de finalizar as 212 Inter: Ghia, Pininfarina,Vignale e Touring — e cada carro podia ter suas características definidas pelo cliente. Ao todo, 82 unidades da 212 Inter foram produzidas ao longo de dois anos, e a Touring ficou com aquele que, talvez, seja o mais especial de todos eles.

Trata-se da Ferrari 212/225 Inter Barchetta, fabricada em 1952. O carro foi encomendado por Enzo à Carrozzeria Touring e teria um destino importante — a garagem de Henry Ford II, filho de Edsel e neto de Henry Ford e, à época, presidente da Ford.

Ferrari-1952-side

Por que Enzo Ferrari daria um de seus carros a HF2? É aí que surge a controvérsia. Dizem que Enzo costumava dar carros para gente importante no mundo e, assim, fazer fama. Há quem diga também que Henry Ford II na verdade comprou o carro. O caso é que o primeiro dono deste carro foi Ford, e esta relação entre os dois pode ter sido o primeiro passo para a futura negociação frustrada da Ford para tentar comprar a Ferrari — e, consequentemente, à ferrenha batalha das duas marcas em Le Mans que culminou com a dominância do Ford GT40 entre 1966 e 1969.

Ferrari-1952-engine

Olhe bem para este motor. Dá para acreditar que ele é de 1952?

O carro também tinha um motor diferenciado. O nome 212/225 vem do deslocamento ampliado dos cilindros — exatamente 225 cm³ por cilindro, o que elevava o deslocamento total para 2,7 litros.

Talvez a parte mais curiosa da história deste carro, contudo, seja a sua suposta influência no design de um dos Ford mais icônicos de todos os tempos: o Thunderbird — algo que pode ser notado nas proporções, na grade, nas lanternas traseiras redondas e, principalmente, nas saídas de escapamento que atravessam a carroceria.

tbird (1) tbird (2)

Sessenta e dois anos depois de sua construção, o carro está em um estado de conservação absolutamente impecável. A pintura verde escuro, quase preto, é a mesma desde que o carro saiu pelos portões da Touring em 1952 — na verdade, nada neste carro foi substituído ou reparado — nem mesmo os pneus! —, e o hodômetro marca apenas pouco mais de 13 mil milhas rodadas, ou cerca de 20 mil km.

Ferrari-1952-rear3

Graças a seu valor histórico e seu estado de conservação excelente, o carro ganhou inúmeros concursos nos últimos anos — como o Concorso d’Eleganza de Pebble Beach. Desde 2005, o carro pertence ao Museu Automotivo Petersen, em Los Angeles. Agora, o carro foi o astro do último episódio de Jay Leno’s Garagee o nosso gearhead queixudo favorito se rasgou em elogios ao design, ao desempenho e ao comportamento do carro, surpreendendo-se com o quanto a condução da 225 Barchetta se assemelha à de um carro moderno.

Apesar de sua história controversa (ou, em parte, por causa dela), não resta dúvida de que este carro é uma das grandes preciosidades automotivas do mundo, e uma prova de como a Ferrari era capaz de juntar arte e engenharia como poucas fabricantes no mundo.

Matérias relacionadas

Quadros renascentistas recriados em uma oficina mecânica são nosso tipo de arte

Dalmo Hernandes

O que significam os nomes dos carros? – parte 3: do Rabbit ao Zonda

Dalmo Hernandes

Lewis Hamilton manda seu carro de Fórmula 1 para fã de cinco anos com câncer terminal

Dalmo Hernandes