Enzo, Silvia, Isabella: os carros batizados com nomes de pessoas – Parte 1

Dalmo Hernandes 7 agosto, 2018 0
Enzo, Silvia, Isabella: os carros batizados com nomes de pessoas – Parte 1

Ontem (6) contamos a história de Elisa Artioli, a garota que emprestou seu nome ao Lotus Elise. Elisa é neta de Romano Artioli, que era o dono da fabricante britânica na época do lançamento do esportivo. Ficamos orgulhosos dela, mesmo sem conhecê-la: além de passar os primeiros anos da infância rodeada de esportivos, ela acabou crescendo e se tornando fã do Lotus Elise – tanto que possui um como carro de uso diário.

Foi o que bastou para que nos perguntássemos que outros carros têm nome de gente – e não estamos falando de fabricantes, que geralmente têm mesmo os nomes (ou sobrenomes de seus fundadores), mas de modelos batizados com nomes de pessoas. Separamos alguns deles na lista abaixo – e você vai ver que existiram diferentes motivações, em diferentes épocas, para cada escolha.

Nos concentramos em modelos cuja grafia é comumente utilizada em nomes de pessoas, e não variações. E estamos abertos a sugestões, também. Confira!

Lancia Flavia e Fulvia

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Lancia Flavia

Colocar nomes de pessoas (especialmente mulheres) nos carros parece coisa dos sempre passionais italianos. Mas a verdade é que o Lancia Flavia e o Lancia Fulvia, lançados em 1961 e 1963, respectivamente, têm estes nomes por causa de duas estradas italianas.

O primeiro era um carro de luxo com versões sedã, cupê e conversível (os dois últimos com carroceria projetada pela Pininfarina) e o segundo, um modelo médio que foi de carro de família a campeão internacional de rali no início dos anos 70.

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Lancia Fulvia

Via Flavia era o nome de uma antiga estrada romana, construída no ano 79 d.C., durante o governo do imperador Vespasiano, ligando a cidade romada de Trieste à Dalmácia, região que compreende atualmente parte dos territórios da Croácia, Montenegro e Bósnia e Herzegovina. O nome Flavia é derivado de uma antiga linhagem romana chamada Flavius, que somente mais tarde tornou-se um nome feminino.

Via Fulvia é outra antiga estrada romana que ligava as cidades de Tortona e Turim, e também deriva do gens (uma espécie de sobrenome romano) Fulvius, do qual fazia parte Marco Fulvio Flaco, construtor da via. De sua linhagem veio o nome Fulvia, que batizou pela primeira vez uma matrona romana que viveu no século 1 e foi uma figura proeminente na sociedade da época, tornando-se a primeira mulher não-mitológica a ter sua face cunhada em uma moeda.

 

Alfa Romeo Giulia e Giulietta

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Alfa Giulietta 1960

Segundo conta a história, quando o Alfa Romeo 1900 – sedã com motor de 1,9 litro que foi o primeiro modelo da marca a ser produzido inteiramente em uma linha de montagem e também o primeiro Alfa com construção monobloco – foi apresentado, em 1950, um jornalista italiano comentou que havia “muitos Romeos, mas nenhum Giulietta”. Era uma forma de, citando Shakespeare, dizer que os carros da Alfa tinham visual muito masculino.

Então, em 1955, a Alfa Romeo apresentou um carro mais compacto e esguio que foi um dos primeiros a usar o famoso motor Twin Cam da marca, com 1,3 litro e 53 cv. Seu nome? Giulietta.

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Alfa Giulietta 2018

Na etimologia italiana os sufixos -etto e –etta são uma forma de representar o diminutivo de uma palavra. Ou seja, de certa forma, Giulietta é o diminutivo de Giulia — pode pensar nos nomes como Julia e Julinha Sendo assim, quando em 1962 a Alfa apresentou um novo modelo com motor maior, de 1,6 litro, e uma carroceria maior e mais quadrada, fez sentido batizá-lo como Giulia. Eventualmente a Giulia substituiu a Giulietta, que saiu de linha em 1965.

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Vale lembrar que ambos têm versões modernas: a Alfa Romeo Giulietta atual, lançada em 2010, é um hatchback de quatro portas feito sobre uma plataforma modificada do Fiat Bravo. Já a Alfa Romeo Giulia é o sedã italiano criado para fazer frente aos modelos alemães, que tem na versão Quadrifoglio um delicioso V6 biturbo de 2,9 litros e 510 cv.

 

Nissan Silvia

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Apesar de os modelos S13, S14 e S15 serem os mais conhecidos por sua associação com o mundo do drift, a linhagem do Nissan Silvia começou em 1965, quando o primeiro carro com este nome foi lançado. O cupê era inspirado pelo Lancia Fulvia e tinha um motor quatro-cilindros de 1,6 litro e 96 cv.

Agora, apesar de Silvia ser um nome feminino, a inspiração para o nome do carro não foi nenhuma mulher em especial. Ao que tudo indica trata-se de uma referência ao gênero sylvia de aves passeriformes de pequeno porte (ou seja, passarinhos), que ocorre na Europa, no sul e no sudeste da Ásia, no norte da África e no Oriente Médio.

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Especula-se que a Nissan tenha escolhido este nome por causa do Nissan Bluebird, que por sua vez era um sedã compacto fabricado entre 1963 e 1967 que também era inspirado pelo Lancia Fulvia, porém em sua versão de quatro portas.

 

Ferrari Enzo e Dino

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Ora, esta é fácil: lançada em 2002 e com 400 unidades fabricadas até 2004, a Enzo foi o carro que sucedeu a F50, que por sua vez foi o carro que sucedeu a F40, que por sua vez foi o carro que sucedeu a 288 GTO. Tal como a F50, ela tinha mecânica e construção influenciadas pela Fórmula 1.

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O motor era um V12 de seis litros e 660 cv, a transmissão era eletro-hidráulica com aletas atrás do volante e os discos de freio eram de carbono-cerâmica, como nos monopostos da F1. A Enzo também tinha recursos que foram criados para a maior categoria do automobilismo mas foram vetados pela FIA, como controle eletrônico de tração e elementos aerodinâmicos ativos.

O que nem todo mundo sabe é que “Ferrari Enzo” é o nome não-oficial do supercarro. O nome correto é mesmo Enzo Ferrari. Não “Ferrari Enzo Ferrari” – só Enzo Ferrari mesmo, como o fundador da companhia.

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Curiosmente, porém, a Enzo não foi o primeiro carro a ter o nome de um membro da família Ferrari. Se você nos acompanha vai lembrar que há pouco contamos a história da Dino: em 1968, ao criar uma divisão de entrada para os esportivos de Maranello, Enzo Ferrari decidiu batizá-la em homenagem ao filho Alfredo “Dino” Ferrari, que morreu em 1956, aos 24 anos de idade, vítima de uma doença degenerativa chamada distrofia de Duchenne.

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Nada mais justo, pois Dino Ferrari havia demonstrado desde cedo a mesma paixão do pai por carros esportivos e de corrida, e trabalhou até os útimos meses de vida ao lado dos engenheiros da marca – ele era visitado diariamente pelo engenheiro Vittorio Jano, e ambos discutiam os aspectos técnicos do novo motor V6 de 1,5 litro que estavam desenvolvendo.

 

Opel Adam e Karl

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Opel Adam

Da mesma forma que a Enzo foi batizada em homenagem ao fundador da Ferrari, o Adam foi batizado em homenagem ao fundador da Opel. A fabricante alemã, que pertenceu à General Motors entre 1929 e 2017 e atualmente faz parte do grupo PSA Peugeot Citroën, foi fundada em 1862 por Adam Opel, que começou fabricando máquinas de costura e, em 1886, começou a produzir bicicletas. Em 1895, ano da morte de seu fundador, a Opel foi líder nos dois segmentos dentro da Alemanha.

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Opel Adam

Sendo assim, a marca demorou para homenagear seu fundador dando seu nome a um carro. Aconteceu em 2013, quando foi lançado o Opel Adam. O city car criado para rivalizar com o Fiat 500 e o Audi A1, feito sobre uma versão encurtada do Corsa de quarta geração (ou simplesmente Corsa D). Com visual descolado, diversas opções de personalização externa e motor 1.0 turbo três-cilindros, é até estranho pensar que ele tem o nome de uma pessoa nascida em 1837 – 181 anos atrás.

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Opel Karl

De qualquer forma, em 2014 a Opel lançou o Karl, compacto derivado do Chevrolet Spark, para o posto de modelo de entrada da marca. Karl era o nome do filho mais velho de Adam Opel, que tinha outros quatro irmãos –Wilhelm, Heinrich, Friedrich e Ludwig. Junto de sua mãe, Sophie, os filhos de Adam Opel foram os responsáveis por tocar a companhia fundada pelo pai durante seus primeiros anos no segmento automotivo.

 

Borgward Isabella

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A Borgward foi fundada em 1929, quando o alemão Carl F. W. Borgward comprou uma fabricante chamada Hansa Automobilgesellschaft e a fundiu com sua própria empresa, a Goliath-Werke Borgward. Por conta de problemas financeiros e da Segunda Guerra Mundial, porém, o primeiro carro da nova companhia só começou a ser fabricado em 1949 – o Borgward Hansa 1500, que em 1954 foi substituído pelo Borgward Isabella.

Diferentemente de outros nomes desta lista, porém, o Isabella não recebeu o nome de uma pessoa importante ou marcante para a companhia. Segundo consta, simplesmente ocorreu que, ao ser perguntado sobre o codinome do projeto quando o mesmo ainda estava em desenvolvimento, Carl Borgward sugeriu “Isabella” apenas por gostar do nome. A ideia era manter o nome Hansa 1500.

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No entanto, o nome “de trabalho” do carro acabou caindo no gosto dos engenheiros e demais funcionários envolvidos no projeto, além do próprio Carl Borgward. O carro usava um quatro-cilindros em linha de 1,5 litro 75 cv, e suas belas linhas – especialmente na versão cupê, que nas laterais traseiras lembravam um pouco o Karmann-Ghia – foram descritas como “fluidas” e “graciosas” pela imprensa na época. O público também gostou mais de “Isabella” do que da ideia original, e o nome pegou.