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Esta Ferrari 250GT Berlinetta “Tour de France” tem 58 anos mas é zero-quilômetro!

Quando o assunto são carros caros e raros fica difícil bater a Ferrari 250 e suas tantas variações preciosíssimas. Não é à toa que um dos carros mais valiosos do mundo é a 250 GTO, que em 2014 teve um exemplar vendido por US$ 38 milhões, ou mais de R$ 120 milhões em conversão direta.

Mas a GTO é só a variação mais conhecida da 250 — existem muitas outras, algumas com histórias bem interessantes. Como a 250 GT Berlinetta “Tour de France” (TdF), que tem este nome por ter vencido a famosa corrida francesa de longa duração em 1956 e 1957, e teve 77 exemplares produzidos entre 1956 e 1959.

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A carroceria era projetada pelo estúdio Pininfarina de design e construída pela famosa Carrozzeria Scaglietti. O motor era, naturalmente, um V12 de três litros (250 cm³ por cilindro, daí seu nome) capaz de entregar algo entre 240 e 260 cv. Os carros mais famosos e valiosos pertencem às duas primeiras séries fabricadas — 14 unidades da série I, que é conhecida como “no-louvre” por não trazer entradas de ar na coluna traseira; e nove unidades da série II, conhecida como “14-louvre”. É só contar as fendas ao lado do vidro traseiro para entender o motivo.

O fato é que estes carros são, como toda Ferrari 250, bastante valorizados no mercado de clássicos. E, como muitos deles participaram de corridas de verdade em seu tempo, um exemplar original e bem conservado não é algo fácil de se encontrar. E o que dizer, então, de uma 250 GT Berlineta “Tour de France” zero-quilômetro, exatamente como na época?

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O carro das fotos é o mais perto disto que se pode chegar. Acabamos de dizer que foram construídos nove exemplares da série II, ou “14-louvre”, não foi? Pois bem: este é o décimo.

O caso é que, em junho de 1957, um cara chamado Michel Ringoir, que morava na Bélgica, comprou a Ferrari 250 Berlinetta GT de chassi nº 0707 — a última das “14-louvre” na concessionária Ecurie Francorchamps, e a única a receber o tanque de combustível de maior capacidade oferecido pela Ferrari, com 137 litros. Na época, era possível comprar uma Ferrari de rua e disputar corridas com ela, e foi exatamente o que Ringoir fez: assim que registrou o carro, ele se inscreveu em uma corrida de turismo no Nürburgring Nordschleife.

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Foi só o começo. Nos anos seguintes, Ringoir continuou participando de corridas em circuitos europeus, subidas de montanha, corridas de rua e três tentativas de terminar a Tour de France em 1957, 1958 e 1959. Ou seja, Ringoir e sua Ferrari 250 Berlinetta GT TdF viveram belos momentos juntos — até que um dia, o piloto amador sofreu um acidente feio com o carro. Ele não se feriu, mas a carroceria da Ferrari ficou bem destruída.

Ringoir decidiu, então, encomendar uma carroceria nova à Carrozzeria Scaglietti — afinal, se você é do tipo que tem dinheiro, por que não construir um carro novo em vez de consertar seu carro batido? Além disso, era a própria Scaglietti quem havia construído a carroceria original, o que tornaria o trabalho completamente autêntico.

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Acontece que, com a carroceria praticamente pronta, Ringoir mudou de ideia e decidiu que a carroceria original seria consertada. A Scaglietti, então, manteve a carroceria nova guardada em seu depósito.

Se você está nos acompanhando direitinho até aqui, já sacou que, na prática, foi feita uma décima carroceria da 250 “Tour de France”. Esta ficou com a Scaglietti até meados da década de 1970, quando foi parar nos EUA. Primeiro, por Joe Marchetti, colecionador e dono de uma concessionária Ferrari, que a manteve exposta em um galpão em Chicago.

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Quando Marchetti morreu, quem a comprou foi um homem chamado Bob Fernando, de Kansas City, que também a expôs como obra de arte. Então, em 2000, a carroceria foi vendida a um morador da Califórnia chamado Marc Spizzirri, que deve ter cansado desta história toda e decidiu terminar de construir o carro.

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Três carburadores Weber, um para cada quatro cilindros

Spizzirri conseguiu o chassi de uma Ferrari 250 GT Ellena fabricada em 1958, e o motor V12 de uma 250 GT Boano que, como se não bastasse, havia competido na Mille Miglia naquele mesmo ano. Então, começou a juntar tudo com a ideia de colocar o carro pronto para correr.

Ele acabou nunca terminando a tarefa — quem o fez foram os atuais donos do carro, que está anunciado no eBay por US$ 4,75 milhões, ou cerca de R$ 15,6 milhões em conversão direta. De acordo com o anúncio, o serviço foi concluído pelo pessoal da Fast Cars, restauradora especializada em clássicos que fica em Redondo Beach, na Califórnia — e eles fizeram um belo trabalho, pelo que dá para ver nas fotos.

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Desde que foi montado, o carro jamais rodou. E, como tem chassi, motor e carroceria originais, pode ser considerado, na prática, o décimo exemplar da 250 GT Berlinetta “Tour de France” Series II. Um clássico do fim da década de 1950, zero quilômetro.

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