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Esta Nimbus Model C 1939 de Steve McQueen foi uma das motos mais avançadas de seu tempo – entenda

Já dedicamos páginas e páginas a Steve McQueen no FlatOut e, na boa, é o mínimo. Além de ser indiscutivelmente cool, McQueen protagonizou alguns dos filmes mais emblemáticos para o público entusiasta automotivo – Bullitt, de 1968, e “As 24 Horas de Le Mans“, de 1971, sendo que este último era uma verdadeira ode às corridas de longa duração e os bravos pilotos que as disputavam. Ao lado de Paul Newman e James Garner, McQueen certamente foi um dos primeiros atores de Hollywood a mostrar talento por seu envolvimento no automobilismo, pavimentando o caminho trilhado por outros como Patrick Dempsey, Tom Cruise e Paul Walker. E ele também teve um acervo impecável de automóveis, incluindo alguns Porsche 911, um Jaguar XKSS e até mesmo um Ford GT40.

Mas Steve McQueen também era fã de motocicletas – antes mesmo dos carros, na verdade. Mais do que isto: ele financiou seus estudos de atuação com o dinheiro que ganhava em competições de motocross. Como contamos neste post, a primeira moto de Steve McQueen foi uma Triumph Bonneville comprada em 1953, aos 23 anos de idade. A moto acabou se tornando a porta de entrada de McQueen ao mundo das competições profissionais, pois a manutenção na Triumph era feita por Bud Ekins, piloto-dublê e um dos grandes nomes do motocross mundial naquela época. A associação de Steve McQueen com a Triumph foi muito benéfica para a marca, especialmente nos EUA, e continua muito forte até hoje.

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Mas Steve McQueen teve muitas outras motos ao longo de sua carreira, e obviamente nem todas eram da Triumph. A moto sobre a qual vamos falar neste post é um exemplo: trata-se de uma Nimbus Model C, moto fabricada na Dinamarca que pode não ser conhecida do grande público, mas não deixa de ser uma motocicleta notável por suas características técnicas.

A Nimbus foi lançada em 1919 pela Fisker and Nielsen, empresa de Copenhague, a capital dinamarquesa, fundada em 1906 por Peder Andersen Fisker e H.M. Nielsen. A Fisker and Nielsen começou fabricando motores elétricos estacionários e, em 1910, começou a produzir os aspiradores de pó Nilfisk, que hoje estão entre os melhores do mundo.

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Peder Fisker era fã de motocicletas e acreditava na capacidade de sua empresa de produzi-as. Assim, no fim de 1918 ele começou a construir um protótipo projetado por ele mesmo. Este protótipo deu origem à Nimbus, que começou a ser fabricada no ano seguinte e só deixou de ser produzida em 1959, tamanha era sua popularidade na Dinamarca. Não apenas entusiastas, que curtiam sua predisposição para usar sidecars (extremamente populares na primeira metade do século XX), mas também o serviço postal, o exército e a polícia da Dinamarca compravam a Nimbus em grandes quantidades.

A primeira geração da moto, vendida entre 1919 e 1928, já trazia boa parte dos elementos que faziam a identidade da Nimbus: quatro de aço estampado com rebites para unir seus componentes, motor quatro-cilindros de 750 cm³ e 10 cv com comando no bloco e transmissão por cardã. Não havia suspensão dianteira e, na traseira, molas sob o banco tornavam a rodagem mais confortável. A Nimbus foi apelidada Stovepipe (“chaminé de fogão” em tradução literal) pelo formato do grosso tubo de metal entre o guidão e o banco, que abrigava o tanque de combustível e lembrava, de fato, a chaminé de um fogão a lenha da época.

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Três unidades foram feitas de forma quase artesanal em 1919, e em 1929 começou a fabricação em série, com cerca de 1.300 exemplares produzidos (um número alto para a época) até 1928 – quando a produção foi cancelada por conta da recessão.

No início da década de 1930, já com a economia dinamarquesa recuperada e estimulado por seu filho Anders, Peder Andersen começou a trabalhar em uma evolução da Nimbus original, que continuava usando aço estampado na construção do quadro (em vigas de 40 mm de largura por 8 mm de espessura) e um quatro-cilindros de 750 cm³.

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O motor da chamada Nimbus Model C, porém, era totalmente novo, com comando de válvulas no cabeçote e potência de 18 cv, e o tanque de combustível tinha desenho mais moderno, em formato de gota. A característica visual marcante da nova Nimbus era o formato do guidão, que tinha uma espécie de carenagem de aço estampado para abrigar o velocímetro.

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A primeira Nimbus Model C foi entregue a seu novo proprietário em 1934 e, graças a um investimento alto em uma boa rede de concessionárias, a Nimbus logo se tornou a moto mais vendida da Dinamarca.  Outra grande diferença em relação à Nimbus anterior era o garfo dianteiro telescópico, que foi o primeiro aplicado em uma moto produzida em série. Um ano depois, em 1935, a BMW incorporou o sistema em sua R12, porém com amortecedores hidráulicos – muito superiores em conforto, o que de certa forma ofuscou o feito da Nimbus, que só adotou amortecedores hidráulicos em 1939.

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Com o início da Segunda Guerra Mundial, naquele ano, a Nimbus foi comprada em grande quantidade pelo exército dinamarquês, que ficou com quase todas as unidades fabricadas. Com a ocupação da Dinamarca por tropas alemãs, porém, a produção para civis foi mínima entre 1940 e 1945 – apenas 600 exemplares foram feitos, aproximadamente.

Após a Guerra foram feitas novas atualizações ao projeto, que ganhou um garfo dianteiro mais alto, freios maiores e a substituição da alavanca de câmbio manual por um pedal (como na maioria das motocicletas fabricadas no mundo todo até hoje). É sabido, porém, que as vendas em grande quantidade aos correios e ao exército foram as grandes responsáveis pelo sucesso da Nimbus, que continuou sendo fabricada sem grandes alterações de projeto até 1959 e só deixou o mercado porque a onda de carros populares mais acessíveis fez as pessoas preferirem um VW Beetle, um Citroën 2CV ou um Fiat 500 em vez de uma motocicleta.

Voltando a Steve McQueen. Não se sabe ao certo quando ele comprou sua Nimbus Model C 1939, uma das cerca de 200 que foram exportadas para os Estados Unidos. Acredita-se que foi em algum momento entre as décadas de 1950 e 1960 – e é bem sabido que, em sua coleção, McQueen tinha outras motocicletas dos anos 20 e dos anos 30, sempre muito bem cuidadas e utilizadas ocasionalmente. É possível que o próprio McQueen tenha mandado instalar o sidecar, e é fato que ele jamais se separou dela – a moto foi leiloada pela primeira vez em 1984, durante um evento realizado em memória de Steve McQueen no Imperial Palace Hotel, em Las Vegas, entre os dias 24 e 25 de novembro.

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Seu comprador foi um homem chamado Robert Mercer, que viajou de San Jose, na California, para Las Vegas especificamente para comprar a Nimbus. Tanto Steve McQueen quanto Robert Mercer cuidaram muito bem da moto, que preservou a maior parte de suas características originais ao longo dos anos.

Robert Mercer ficou com a moto de Steve McQueen até morrer, em 2016, e jamais a restaurou – ainda que uma revitalização estética e mecânica tenha sido feita em 2009, com a supervisão do Nimbus Club dos EUA, com o intuito de preservar a integridade e a originalidade da motocicleta, que será leiloada pela Bonhams no próximo dia 6 de outubro, em um evento na cidade de Birmingham, no Alabama. A casa de leilões estima que o valor de arremate fique entre US$ 65.000 e US$ 85.000, ou seja, entre R$ 270.000 e R$ 350.000 em conversão direta.

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No mesmo evento, aliás, será leiloado também um dos vários capacetes Bell que Steve McQueen utilizava. O modelo era sempre o mesmo: branco, estampado com o nome do ator e de sua produtora de cinema, a Solar Productions. O valor de arremate estimado é de algo entre US$ 20.000 e US$ 25.000, ou seja, entre R$ 81,000 e R$ 100.000 em conversão direta.

 

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