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Este cara pilota seu Ford GT adaptado sem usar as pernas

Histórias de superação podem, às vezes, soar piegas. Mas não precisa ser assim, de forma alguma – como daquela vez em que contamos a história de Bartek Ostalowski, o jovem polonês que perdeu os dois braços em um acidente de moto em 2006 e, menos de um ano depois, já estava pilotando carros de drift usando apenas os pés. Ele mesmo não se enxerga como um herói ou um exemplo. Ele se acha apenas um cara que simplesmente deu um jeito de continuar fazendo o que amava mesmo com todas as adversidades.

Agora, no caso do dinamarquês Jason Watt, a situação é mais ou menos oposta: em um acidente de moto em 1999 ele perdeu os movimentos da cintura para baixo e necessita de uma cadeira de rodas para se locomover. Bem… exceto quando ele está pilotando seu Ford GT adaptado em circuitos por toda a Europa – incluindo Nürburgring Nordschleife!

Watt começou a correr de carro em campeonatos de kart, migrando para os monopostos em 1992, começando pela Fórmula Ford, depois na Fórmula Opel, até entrar para a Fórmula 3000 – com direito a uma participação na última temporada do Campeonato Alemão de Carros de Turismo em 1996 (ano em que a competição se chamava Campeonato Internacional de Carros de Turismo) ao volante de um Alfa Romeo. Correndo pela equipe britânica Super Nova Racing, Watt foi o segundo colocado na temporada de 1999 da Fórmula 3000. Nos anos seguintes ele poderia ter tido a chance de estrear na Fórmula 1, mas o acidente que lhe tirou os movimentos das pernas também lhe tirou esta chance.

Em vez de ficar se lamentando (o que seria compreensível), Watt decidiu voltar a correr assim que se recuperou do acidente, usando carros adaptados com controles manuais. E ele continuou mandando muito bem – tanto que, ao volante de um Peugeot 307 XSi adaptado, ele conquistou o título no Campeonato Dinamarquês de Turismo de 2002, sendo que ele já havia ficado com o segundo lugar no ano anterior. Mais recentemente, em 2010, Watt conquistou o terceiro lugar com o Seat León.

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Foto: Touring Car Register

Em 2012, Watt passou a correr na US Legends, competição realizada em ovais de terra feita para ser uma alternativa mais acessível à Nascar. Os carros usam motores de quatro cilindros Yamaha, estrutura tubular e bolhas baseadas em modelos dos anos 30 e 40. E ele também é diretor da equipe Team Wounded Racing, composta por veteranos da Guerra do Afeganistão, todos eles com algum tipo de amputação ou lesão na coluna vertebral.

Agora, neste post viemos falar daquilo que Jason Watt faz quando não está competindo profissionalmente: ele corre de carro por diversão. Típico, não?

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Como conta a Road and Track, Watt é dono daquilo que ele chama de “o carro que pode parar em vagas para deficientes mais rápido do planeta”: um Ford GT adaptado com controles manuais para o acelerador e para os freios, com o qual sempre participa de eventos de pista. Neles, Watt cobra 1.600 Krones dinamarqueses (cerca de R$ 970) por duas voltas no banco do carona. Todos o lucro é doado para instituições de caridade, como o Fundo de Apoio a Crianças com Câncer da Dinamarca.

Watt foi um dos selecionados para a Ford no programa de compra do atual Ford GT porque ele já tinha um exemplar da geração anterior. Como sabemos, o superesportivo retrô lançado em 2005 usava um câmbio manual de seis marchas, e o carro de Watt tinha a embreagem acionada por um botão. No caso do novo GT, a transmissão é por dupla embregem com aletas atrás do volante, então a adaptação precisou ser um pouco diferente.

Os controles manuais foram criados pela Automax, empresa que pertence a um amigo de Watt, Max Birkelund. Max  também não tem os movimentos das pernas e participa de ralis e eventos de pista – seu carro mais recente é uma Ferrari 360 Challenge com controles manuais.

A Automax patenteou o sistema usado no Ford GT de Watt, que foi criado especificamente para carros com acelerador eletrônico, que não trazem uma conexão física com o pedal da direita. Uma alavanca especial ligada a uma central eletrônica possui um manete que, ao ser apertado, aciona o acelerador.

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Esta alavanca, porém, possui uma ligação física com o pedal do freio, de modo a transmitir exatamente o mesmo feedback que o piloto de um carro sem adaptações, exceto que para a mão direita de Watt, com a qual ele consegue controlar o acelerador e os freios. A mão esquerda é usada apenas virar o volante. E o piloto garante que consegue ser tão rápido quanto era antes do acidente. No vídeo abaixo, filmado pelo youtuber Misha Charoudin, Watt demonstra o funcionamento do sistema em pleno Nürburgring Nordschleife.

Jason conta que o sistema não exige nenhuma modificação permanente no carro e que pode ser desmontado em dez segundos, literalmente. Deste modo, o carro pode ser conduzido normalmente por sua esposa, Majbrit Watt. Na foto abaixo o casal posa ao lado do Ford GT em uma foto tirada há algum tempo, antes de o carro receber o envelopamento verde escuro metálico que exibe atualmente.

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Geralmente Watt aparece nos eventos com sua cadeira de rodas presa ao teto do Ford GT por ventosas, o que por si só já causa bastante comoção. Ele diz que, como a área frontal da cadeira é pequena, quase não há comprometimento à aerodinâmica do carro. Para voltas de demonstração, porém, Watt costuma limitar a sua velocidade a cerca de 160 km/h, para não correr o risco de a cadeira de rodas se soltar.

Para Watt, o único ponto negativo do sistema é o fato de, por conta do controle manual para acelerador e freios, ser impossível operar a aleta do lado direito para trocas ascendentes, e por isso o câmbio fica sempre no modo automático. Dito isto, seu desempenho na pista convenceu os engenheiros da Ford a iniciar o desenvolvimento de um sistema que permita trocas ascendentes e reduções usando apenas a aleta da esquerda.

Há uma boa razão para isto: Jason pretende, com seu Ford GT, quebrar o recorde atual para carros com controles manuais em Nürburgring. Atualmente o recorde está na casa dos nove minutos, e Jason acredita que pode quebrá-lo tranquilamente com seu GT.

E ainda há quem diga que “homens de verdade usam três pedais”. Nem sempre, meus amigos. Nem sempre.

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