Este é o belíssimo protótipo do Grupo C da Alfa Romeo que jamais competiu

Dalmo Hernandes 9 dezembro, 2016 0
Este é o belíssimo protótipo do Grupo C da Alfa Romeo que jamais competiu

Os protótipos do antigo Grupo C dominaram as corridas de longa duração na década de 1990, e estão entre os mais emblemáticos carros de corrida de todos os tempos. Mazda 787B, Porsche 962, os protótipos da Sauber e da Jaguar e mais alguns são verdadeiras lendas das pistas.

Não foi à toa que diversas fabricantes decidiram tentar a sorte na categoria: além de ser uma competição de altíssimo nível, com motores praticamente iguais aos da Fórmula 1. Você sabia que até a Alfa Romeo entrou nessa? Pois é: existe um protótipo do Grupo C com o cuore sportivo na dianteira. Porque, ao contrário do que muita gente pensa, o cuore sportivo de um Alfa Romeo não é seu motor, e sim a grade característica da marca. A gente aprende algo novo todo dia, não?

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Se você não se lembra deste carro nas pistas, não é por acaso: o Alfa Romeo SE 048SP jamais competiu. Credenciais para isto, contudo, não faltavam.

O carro foi projetado para substituir o Lancia LC2 no Grupo C depois que, em 1990, a FIA alterou o regulamento da categoria para adotar os motores de 3,5 litros da Fórmula 1. O Lancia, que competiu entre 1983 e 1986, utilizava motores fornecidos pela Ferrari (na época, as três fabricantes citadas pertenciam à Fiat e compartilhavam alguns recursos nas pistas) e era um grande carro. Mais potente que seu principal rival, o Porsche 962, o Lancia LC2 conquistou diversas pole positions em quatro temporadas do WSC (World Sportscar Championship, ou Campeonato Mundial de Protótipos-esporte), mas sofria com problemas de confiabilidade e consumo de combustível e, por isso, venceu apenas três corridas.

Desanimada com os resultados, a Lancia cancelou o programa em 1986. O LC2 continuou competindo, com alguns dos carros comprados por equipes independentes, encerrando sua carreira em 1991.

No fim da década de 1980, os protótipos do Grupo C estavam entre os carros mais selvagens do automobilismo: seus motores turbinados ultrapassavam facilmente os 800 cv sem consumir muito combustível, e eram capazes de superar os 400 km/h nas retas mais longas (como a famosa Hunaudières do circuito de La Sarthe, onde ocorrem as 24 Horas de Le Mans).

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Então, para 1990, a FIA determinou que os carros que já estavam competindo deveriam ter a potência do motor restringida, enquanto novos projetos só poderiam usar os motores vindos da Fórmula 1. Por sorte, a Alfa Romeo tinha à disposição algo perfeito: o V10 do 164 Procar que a fabricante havia construído em 1988. Originalmente, o motor foi projetado e construído pela Ferrari para a Ligier, capaz de entregar 620 cv a 13.300 rpm e 39 mkgf a 9.500 rpm.

Outra razão para que a Alfa Romeo fosse a marca escolhida para ingressar no Grupo C foi o fato de, na época, a Lancia estar concentrando seus esforços no Campeonato Mundial de Rali, o WRC – e, diga-se de passagem, dominando a competição com seu Delta HF Integrale. A Alfa, por outro lado, estava completamente disponível, e ter um carro vencedor no Grupo C de endurance não faria mal para sua imagem nas ruas. Vincere la Domenica, vendere il Lunedi, como diriam os italianos.

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O projeto da estrutura e da carroceria do carro ficou a cargo da Abarth, sob responsabilidade do designer Giuseppe Petrotta. O resultado foi um carro bastante convencional, com carroceria que ecoava as linhas de outros protótipos (imbuídas de um indefectível charme italiano, claro) e monobloco de fibra de carbono com uma estrutura tubular na traseira, acomodando o motor e a transmissão manual de seis marchas.

Não se sabe ao certo quando o carro foi construído, pois a Alfa jamais revelou muitas informações a respeito do SE 048SP – acredita-se que o único exemplar tenha sido feito em 1990, visto que a partir do ano seguinte os protótipos do Grupo C começaram asas traseiras de desenho bem mais elaborado e aerodinâmico e asa traseira do Alfa é mais simples. Mas isto é apenas especulação, pois não há informações oficiais disponíveis.

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O que se sabe é que o protótipo jamais passou da fase de desenvolvimento, pois a Alfa não conseguiu encontrar patrocinadores dispostos a financiar a equipe nas pistas e a Fiat já estava ocupada demais investindo na Lancia. A companhia até tentou contato com a Momo, mas não fechou negócio, e por isso abandonou o programa.

O carro permanece exposto no Museo Storico da Alfa Romeo que fica em Arese, na Itália, e dá para ver que o carro já foi para as pistas, ao menos em testes. E tem um detalhe: em sua única aparição pública, no Goodwood Festival of Speed de 2010, descobriu-se que o motor na verdade era um V12, e não um V10 como todos pensavam, e como foi dito no início deste texto. Um segredo muito bem escondido.

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Fotos: Alfa Romeo/Retrovisiones.com