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Car Culture

Este é um Chevette que sobe alucinadamente montanhas na Europa — ou quase isso

O conceito de carro global não é novo, apesar de estar em evidência. Nos anos 70, por exemplo, a General Motors desenvolveu um carro para vender no mundo todo — você o conhece, principalmente, como Chevrolet Chevette (que também era seu nome nos EUA), mas no Japão ele era o Isuzu Gemini e, na Europa, Opel Kadett. E é por isso que o carro das fotos é, em essência, um Chevette – feito para correr em subidas de montanha como se não houvesse amanhã.

Enquanto o Chevette foi, no Brasil, o carro familiar pequeno da Chevrolet por duas décadas, seu equivalente europeu tem uma veia mais entusiasta, com versões ainda mais apimentadas do que o nosso Chevette S/R — como o Kadett GT/E, que foi lançado em 1975 e era a resposta da Opel ao sucesso do Golf GTI.

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Com tração traseira, motor de dois litros e câmbio de cinco marchas do tipo dog leg, com a primeira marcha para trás, ele era um respeitável pocket rocket. E ainda tinha carroceria cupê, com caimento de teto diferente — o que não teria feito mal nenhum se oferecida para o Chevette brasileiro, concorda?

O carro de Fréderic Fleury, suíço de 25 anos que há alguns anos participa de subidas de montanha, começou a vida como um Kadett GT/E original, mas aos poucos foi sendo transformado em um carro de competição do jeito que a gente gosta: preparado, depenado e com visual extremamente agradável. Como já dissemos, na Europa o Kadett tem uma forte comunidade de entusiastas, que o coloca para competir em eventos amadores e profissionais de automobilismo. Dá só uma olhada no potencial do bichinho na hora de acelerar montanha acima:

Como todo carro de corrida, os Kadett  modificados para eventos de subida de montanha são pintados com cores vivas, recebem para-lamas alargados e adesivos de patrocinadores. O carro de Fleury segue a saborosa tradição, mas o que ele tem de mais apetitoso é o motor.

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Em vez de fazer um swap mirabolante, Fleury decidiu seguir a linha old school e ficar com o motor de dois litros — o curioso CIH (Cam in Head), que tem o comando de válvulas montado no cabeçote, mas instalado ao lado das válvulas, e não acima destas. Desta forma, elas são atuadas por tuchos e balancins – só faltavam as varetas para funcionar exatamente como em um motor com comando no bloco…

Originalmente, o motor CIH do Kadett GT/E entregava 115 cv, alimentado por um sistema de injeção Bosch. No carro de Fleury, porém, a potência chega aos 160 cv graças ao novo comando de válvulas agressivo, ao trabalho extensivo de fluxo na admissão, cabeçote e sistema de escapes e à troca do sistema de injeção por dois grandes carburadores Weber DCOE de 48 mm. Além disso, a taxa de compressão foi ligeiramente aumentada com o uso de pistões forjados mais altos.

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O resultado é um carro bastante ágil — para se ter uma ideia, o GT/E original já era capaz de chegar aos 190 km/h — há quase quarenta anos. Os 160 cv só precisam puxar 880 kg de carro — Fleury conseguiu eliminar 70 kg removendo acabamentos internos e substituindo componentes de metal por componentes em fibra de vidro — como os para-lamas, que são largos o bastante para acomodar rodas de 15×10 polegadas da BBS — originais do Golf GTI, porém com os aros substituídos.

O interior só traz gaiola de proteção completa e certificada pela FIA, um banco concha e os comandos para o motorista — mais nada. Para quem gosta de um cockpit racer, o deste carro é pornografia.

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O sistema de suspensão com braços sobrepostos na dianteira e eixo rígido na traseira recebeu um conjunto de molas e amortecedores a gás reguláveis da Sachs, feito sob medida para o carro. Uma bela adição a um carro que já era bom de chão — os amortecedores originais do Kadett GT/E eram fornecidos pela Bilstein.

O projeto, que começou em 2013, chegou a sua fase atual em fevereiro deste ano e já competiu em alguns eventos de hillclimb clássicos pela Europa — o último deles foi a Subida de Montanha de St. Ursanne, que aconteceu nos dias 15 e 16 de agosto e faz parte do Campeonato Europeu de Hillclimb da FIA e conta com uma divisão para clássicos. Os caras do Speedhunters estavam lá e puderam ver todos os detalhes do carro…

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… até mesmo esta traseira amassada. O incidente ocorreu na manhã de sábado (15) e não impediu que Frédéric continuasse competindo pelo resto do dia. Nada mais justo — para nós, é como uma marca de batalha que até valoriza o aspecto do carro, apesar de doer um pouco: prova que ele ainda está na ativa, competindo.

Nós ficamos inspirados — e temos certeza que você também. Assim que terminar de apreciar este carro, você vai dar uma olhada nos sites de classificados atrás de um Chevette, não é? A gente te compreende.

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[ Fotos: Frédéric Fleury, Peter Kelly/Speedhunters ]

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