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Este Escort Mk1 tem um motor F20 de Honda S2000 – e nós definitivamente não vamos reclamar

Engine swaps envolvendo carros e motores de fabricantes diferentes são quase sempre combustível para polêmica. Geralmente os fãs preferem manter tudo dentro de casa – ainda mais se estivermos falando de marcas com heritage. E é por isso que ocasionalmente falamos sobre carros como este BMW com motor V8 AMG que apareceu por aqui recentemente.

Acontece que, como quase tudo mundo na vida, a aprovação e ou reprovação de um engine swap herege depende de um pouco de contexto. É o caso deste Ford Escort Mk2, que recebeu um motor Honda – e não qualquer motor, mas um F20C, vindo diretamente de um S2000.

As duas primeiras gerações do Escort são adoradas pelos entusiastas do mundo todo porque, além de serem carros estilosos, seguiam a fórmula clássica da diversão ao volante: tamanho compacto, motor dianteiro e tração traseira. Para ajudar, ambas têm tradição nos ralis. Por conta disto, ambas são extremamente populares como project cars na Europa, em especial no Reino Unido. E não faltam opções de motores Ford para colocar nele – o Ford Twin Cam dos anos 60 e 70 e o Zetec/Duratec de dois litros são apenas dois deles.

Então que diabos este F20C está fazendo no cofre deste Escort? Ok, hora do contexto. O carro pertence ao neozelandês Brendan Duncker, que na verdade salvou a vida de uma carroceria de Escort Mk1. Assim como a Austrália, a Nova Zelândia pode ser considerada um solo privilegiado por uma razão simples: há muitos carros japoneses e britânicos bem legais rodando por lá – basicamente porque a região é um colônia britânica que herdou a mão direita, e porque fica perto do Japão. Duncker é um entusiasta especializado em preparar o Toyota AE86 para drift, mas também é apaixonado pelos Ford europeus clássicos. E ele também curte os esportivos da Honda com VTEC.

O carro de Brendan é o AE86 verde

Brendan contou ao site australiano The Motorhood que, ao pesquisar a respeito do Escort Mk1, descobriu que o entre-eixos é exatamente o mesmo do AE86 – 2.400 mm. A largura dos dois carros também é muito próxima – 1.570 mm no Escort, 1.630 mm no AE86. Era tudo o que ele precisava saber para decidir usar sua experiência com o AE86 no Escort Mk1. Ele só precisava de uma carroceria.

Ele acabou encontrando uma – apenas a carroceria, sem mecânica e sem interior, em estado surpreendentemente bom. Com uma tela em branco para trabalhar, ele optou pelo motor F20C simplesmente porque, bem… é um dos melhores quatro-cilindros já feitos. Todo de alumínio e com diâmetro x curso 87×84 mm, o F20 é um motor girador, capaz de chegar tranquilamente às 9.000 rpm, e muito potente: original de fábrica, sem qualquer tipo de indução forçada, o 2.0 entrega 250 cv – 125 cv por litro. Até hoje é uma das potências específicas mais impressionantes já vistas em um motor de rua.

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Agora, o Honda S2000 pesava cerca de 1.250 kg. Já o Escort de Brendan, graças à adoção de para-lamas, capô, portas tampa do porta-malas de fibra de vidro, além de janelas de acrílico, tem cerca de 700 kg – ou seja, estamos falando de uma relação peso/potência de 2,8 kg/cv. Para se ter uma ideia, no Porsche 911 GT3 RS são 2,75 kg/cv.

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Como se não bastasse, o motor recebeu um sistema de injeção programável Monsoon e teve o fluxo melhorado com a adoção de corpos de borboleta individuais e recebeu um novo sistema de escape 4x2x1 dimensionado, com tubulação de 2,5”. Segundo os cálculos de Brendan, o motor entrega algo entre 250 cv e 300 cv. Mas a cereja do bolo é um sistema de óxido nitroso (o famoso NOS) que injeta mais 80 cv ao toque de um botão.

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O câmbio manual de seis marchas veio junto com o motor F20, e leva a força para as rodas traseiras através de um diferencial Toyota – o eixo traseiro do esportivo japonês foi adaptado ao projeto, incluindo o sistema de suspensão four-link, exceto que a carcaça do diferencial e os braços da suspensão foram trocados por componentes de alumínio billet. O sistema de direção também veio do AE86. Molas e amortecedores, por sua vez, são coilovers para o Nissan Silvia S14.

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O carro ainda tem cintos de competição, um único banco concha da Recaro, volante OMP removível e um tablet usado como cluster de instrumentos

Os detalhes do carro são todos muito bem executados, com insertos de fibra de carbono nos para-lamas traseiros e no spoiler frontal, além de alguns buracos circulares para aliviar peso (um clássico do automobilismo) e rodas Rota RKR de 15×9 polegadas, inspiradas pelas clássicas Minilites. Os pneus são Dunlop Star Spec II, de medidas 195/50. A pintura branca (Diamond White, tonalidade original do catálogo da Ford nos anos 60) com faixas pretas do Escort Mexico dá o visual clássico de que um projeto como este precisa para causar ainda mais surpresa.

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É uma pena que (ainda) não existam vídeos do carro em ação. Por outro lado, existem outros Escort Mk1 e Mk2 com motor de Honda S2000 para não nos deixar sedentos por ronco de motor neste post.

Considerando que este carro era uma carroceria que talvez jamais fosse rodar novamente, não podemos reclamar da escolha da mecânica. Pelo contrário: vamos simplesmente apreciar o projeto pelo que ele é, e não pela suposta heresia que ele representa – e que, da nossa parte, está perdoada.

Fotos: The Motorhood

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