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Este Lamborghini Miura passou 15 anos abandonado em um celeiro – e nunca precisou ser restaurado

O ano era 1969. Um homem chamado Earl se aposentou e, como presente para si mesmo, comprou um Lamborghini Miura zero-quilômetro. Ele já estava na casa dos 60 anos e dirigiu o esportivo até não poder mais. Literalmente: pois um dia a idade avançada prejudicou os reflexos de Earl e ele achou melhor parar de dirigir. Acho que a essa altura você já sabe onde isso vai parar.

Sim: o carro acabou guardado em um celeiro e nunca mais foi visto.

A paixão pelo carro, porém, continuava a mesma: o Miura carro ficava guardado em um celeiro na sua propriedade, um pequeno rancho no estado do Oregon, EUA, e Earl cuidava dele na medida do possível. Mesmo que nos últimos quinze anos de sua vida o Lamborghini tenha ficado parado no celeiro, sofrendo com a ação do tempo e acumulando sintomas de sedentarismo. Até que, quase centenário, Earl morreu. Ele deve ter vivido uma boa vida.

Não precisamos de sobrenomes para contar esta história. Os caras do canal 1320Video também não: Earl era simplesmente Earl, e o cara que comprou o carro depois, Jeff, é simplesmente Jeff. Earl comprou o carro zero-quilômetro,

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Jeff, o atual dono do Miura, conheceu Earl por causa do carro. Há mais de vinte anos, em uma reunião de família, uma de suas tias contou que havia um senhor de idade que guardava um Lamborghini laranja em um celeiro, mas não sabia de mais nada a respeito. Jeff, colecionador de automóveis desde muito jovem, ouviu tudo de olhos arregalados. Uma de suas irmãs, que era âncora em um noticiário local, disse que já havia feito uma matéria a respeito do homem – ele pretendia transformar seu rancho em uma atração turística, aproveitando que, no passado, a propriedade havia sido explorada por garimpeiros na “corrida do ouro”. Ele desistiu da ideia porque seria caro demais pagar o seguro e conseguir homologar o local. Ou seja: Jeff já tinha o endereço.

Tudo isto aconteceu em algum momento da década de 1990. No vídeo feito pelo canal 1320Video, não se fala em datas. O que também não compromete em nada a história, compromete?

Sem pestanejar, Jeff foi até o lugar, bateu na porta algumas vezes e se preparava para dar meia volta e ir embora quando Earl o atendeu. “Em que posso ajudar?”

Jeff disse que era um entusiasta e que soube que Earl tinha um Lamborghini laranja das antigas. Àquela altura, ele ainda não sabia que era um Miura. Mas ele sabia que o primeiro de todos os Miura era um carro laranja – imagine se fosse aquele o carro!

Jeff viu a foto de um Miura pregada na geladeira e perguntou a respeito. Earl disse “está na garagem, quer dar uma olhada?” Fácil assim.

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Não era o primeiro de todos os Lamborghini Miura mas, honestamente, não fazia diferença alguma. O carro aparentava cansaço e o motor já não funcionava, mas tudo estava íntegro.

Em momento algum Jeff ofereceu-se para comprar o carro. Ele só queria ser amigo de Earl e conversar sobre o carro e, nos anos seguintes, ia sempre até sua casa para conversar. Ele acabou ajudando na manutenção e descobriu que todos os amigos de Earl que já conheciam o carro já estavam mortos. Earl viveu mais que todos eles, e certamente apreciava a companhia, mostrando a Jeff seu antigo álbum de fotografias que documentava toda a história dele com o carro.

Mas o tempo é implacável e, um dia, o veterano entusiasta não suportou a idade e teve seu merecido descanso. Jeff, que já havia se tornado um amigo íntimo àquela altura, não teve problemas para comprar o Miura e dar a ele o destino que Earl gostaria que tivesse.

Não, ele não restaurou o carro: em vez disso, decidiu que o recuperaria com o maior nível de originalidade possível. A pintura, por exemplo, é 100% original, e não traz qualquer tipo de retoque. O mesmo pode ser dito do interior, que traz todos, absolutamente todos os componentes de quando o carro deixou a fábrica em Sant’Agata Bolognese; e da mecânica, que teve todas as peças recondicionadas. Substituições só foram feitas quando não havia outra saída.

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Jeff diz que, no caso do Miura, a expressão matching numbers toma outra dimensão. Quando se trata de muscle cars americanos, um carro matching numbers tem motor, câmbio e chassi com a mesma numeração. Quando o assunto é um superesportivo italiano produzido em quantidade limitada e de forma artesanal, a coisa é mais hardcore: cada painel da carroceria, cada item de acabamento, cada componente mecânico, tudo é numerado. Preservar a originalidade era a prioridade número um de Jeff, e ele conseguiu o que queria: um Miura impecável não restaurado, e com uma grande história para contar.

Lançado em 1968, o Miura P400S, ou simplemente S, era uma versão melhorada do modelo inicial, o P400, e corresponde a por volta de 340 unidades do total de 764 carros fabricados entre 1966 e 1973. Além de mudanças no acabamento, que recebeu mais cromados, e de ter mais itens de conforto, como vidros elétricos, o Miura S também tem 20 cv a mais, totalizando 370 cv a 7.700 rpm, além de 39,6 mkgf de torque a 5.500 rpm. É um carro capaz de chegar aos 100 km/h em 6,7 segundos, com máxima de 276 km/h.

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Jeff faz questão de dirigir o seu exemplar sempre que pode, sempre tomando o cuidado de retirar do bolso quaisquer objetos que possam danificar o estofamento, por exemplo. Ele sabe que, caso tenha de trocar o tecido, o carro vai perder bastante valor.

Aliás, seu Miura é uma prova de que, nos últimos anos, carros clássicos originais e preservados têm sido bem mais valorizados que exemplares restaurados, mesmo que no padrão original. Existem, ainda, os over-restored, que são carros restaurados com tanto capricho que acabam melhores do que quando eram novos, e acabam desvalorizados no mercado de clássicos.

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Jeff afirma que não se preocupou em avaliar seu Miura porque não pretende vendê-lo (na verdade, ele diz que, quando morrer, será cremado e que a urna com suas cinzas ficará no carro para sempre), mas que outro exemplar de 1969, que também era 100% original mas não estava, nem de longe, em condições tão boas, foi vendido recentemente por cerca de US$ 2,5 milhões (cerca de R$ 8 milhões em conversão direta). Um Miura restaurado costuma valer cerca de US$ 1 milhão (R$ 3,2 milhões).

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