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Este Porsche 356 Carrera GS é um marco na história dos hot rods e da Kustom Kulture

Dean Jeffries não está entre os ícones da indústria automotiva, mas seu nome está gravado a ferro na mente de quem curte os hot rods e a Kustom Kulture. Jeffries, ao lado de Ed “Big Daddy” Roth, foi um dos grandes nomes da cultura da customização nos Estados Unidos dos anos 50. Jeffries era um discípulo de Von Dutch, considerado o pioneiro na arte do pinstriping – padrões simétricos e intrincados, pintados à mão diretamente na carroceria do carro (ou no tanque da moto) de forma incrivelmente precisa usando apenas pincel, tinta e talento.

Aos 17 anos, Dean Jeffries foi enviado para lutar na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial e, quando não estava em serviço, observava os alemães decorando os tanques de suas motos. Ao voltar para os EUA, imediatamente ele começou a trabalhar como customizador – e, com muitos combatentes retornando a suas vidas cheios de adrenalina e sedentos por velocidade, não faltavam hot rods para pintar. No início dos anos 50, morando em Los Angeles, Jeffries conheceu o piloto Troy Ruttman, que corria na Fórmula Indy.

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Os dois ficaram amigos e, graças a isto, em 1953 Jeffries foi contratado para customizar os monopostos da equipe de Ruttman, a Ascot Speedway. Foi o que lhe abriu as portas para a fama – um de seus primeiros clientes famosos foi ninguém menos que James Dean, o rebelde sem cuasa de “Juventude Transviada” (Rebel Without a Cause, 1956). Em 1955 James Dean levou seu famoso Porsche 550 Spyder para que seu quase-xará pintasse o nome Little Bastard na tampa traseira.

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James Dean, como lembramos neste post, comprou seu 550 Spyder no dia 21 de setembro de 1955. No dia 30 de setembro, a caminho de um evento de corrida marcado para os dias 1º e 2 de outubro em Salinas, na Califórnia, o ator bateu em um Ford Tudor preto a quase 140 km/h e morreu no local, enquanto o Porsche ficou todo destruído.

Agora, pouco tempo depois, outro Porsche prata entrou na vida de Dean Jeffries: um 356 Carrera GS usado, que ele comprou de segunda mão em 1957. Na época, Jeffries trabalhava em Hollywood, na oficina do lendário George Barris, um dos customizadores mais famosos de todos os tempos e responsável por alguns dos carros mais emblemáticos do cinema e da TV, como o Batmóvel clássico dos anos 60.

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Foi Barris quem apresentou Dean Jeffries a James Dean e que lhe deu o primeiro grande impulso em sua carreira.

Mas Jeffries queria ser conhecido como mais do que um pintor. Seu objetivo com o Porsche 356 era fazer uma customização na carroceria, modificando as linhas do carro de forma dramática. O resultado foi o carro que vemos nestas fotos.

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O 356 Carrera GS já é um carro especial por si só. Apresentado pela Porsche no Salão de Genebra de 1955 (que ano movimentado, não?), ele era uma versão especial do esportivo que usava um flat-four especial, criado para as pistas. O motor de 1,6 litro tinha ignição de dupla faísca, dois carburadores de corpo duplo e lubrificação por cárter seco, mas a modificação mais importante foi a adoção de comandos de válvula duplos nos cabeçotes, substituindo o comando simples no bloco. Com isto o fluxo da mistura ar-combustível era muito mais eficiente, e o resultado eram nada menos que 125 cv a 7.200 rpm – mais que o dobro dos 60 cv do boxer 1600 pushrod original, que chegavam às 4.500 rpm.

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Os Porsche 550 Spyder equipados com o motor DOHC, que foi batizado pela Porsche de motor Carrera (em uma referência à icônica Carrera Panamericana, prova de longa duração disputada na América do Sul nos anos 50), eram verdadeiros monstrinhos, vencendo corridas importantes como a Targa Florio de 1956.

Dean Jeffries comprou um dos 225 exemplares do Porsche 356 Carrera GS que foram produzidos no primeiro ano, 1956. Mas ele pouco se importava com o fato de ser um carro raro – até porque era um esportivo seminovo, e não o clássico que se tornaria décadas depois – e mudou radicalmente a identidade visual do carro.

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Os para-choques foram removidos e o bico do carro ganhou alguns centímetros de comprimento para abrigar faróis alojados em profundas cavidades. As lanternas traseiras foram feitas à mão, e um suporte foi fabricado para segurar o sistema de escape parcialmente exposto. O 356 também ganhou uma saída de ar dupla no teto, na parte posterior, e pequena cruzes-de-malta à frente das caixas de roda traseiras. O painel de instrumentos foi folheado com prata, enquanto as soleiras das portas e o interior do cofre do motor tiveram a superfície de alumínio escovada com padrão em círculosJá o motor em si teve as partes metálicas cromadas pelo próprio Jeffries. O toque final era a pintura prata flocada, outro pioneirismo de Dean Jeffries.

A vida do carro foi bastante movimentada. Depois que ficou pronto, o 356 ganhou pelo menos 30 prêmios em exposições de carros modificados entre o fim dos anos 50 e o começo dos anos 60, aparecendo também em capas de revistas. O prório Dean Jeffries disse em mais de uma ocasião que o carro foi o que lhe alavancou a carreira.

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De fato: em 1960 ele abriu sua própria empresa de customização e começou a modificar e construir carros para filmes e programas de televisão. Um dos mais famosos é o Moon Buggy que Sean Connery rouba antes de uma fuga no filme “007 – Os Diamantes são Eternos” (Diamonds are Forever) de 1971.

Mas ele não era um cara apegado e, em 1962, vendeu o carro a um homem chamado Albert Nussbaum, que era um… assaltante de bancos. Ele estava na lista dos dez mais procurados do FBI na época após assaltar pelo menos oito bancos na região de Bufallo, no estado de Nova York, e usou o Porsche para dirigir com estilo até a Flórida, onde sua irmã morava. Em 1963 Nussbaum foi capturado e preso, e depois disto o carro (que havia sido pintado de dourado) desapareceu – possivelmente foi apreendido pelas autoridades.

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Entre 1966 e 1971 o Porsche passou por algumas pessoas antes de ser comprado pelo proprietário atual, que o utilizou por décadas e promoveu uma caprichosa restauração que começou em 2007 e terminou em 2011. O carro restaurado foi revelado publicamente no Concours d’Elegance de Amelia Island, na Flórida, na presença do próprio Dean Jeffries – que morreu dois anos depois, em maio de 2013, aos 80 anos de idade.

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Agora o Porsche será vendido novamente: a Bonhams o leiloará durante um evento no Reino Unido no dia 24 de agosto, e espera arrecadar algo entre US$ 450 mil e US$ 600 mil,  o que dá cerca de R$ 1,7-2,2 milhão em conversão direta.

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