Este Renault 8 “Gordini” é a melhor herança que um entusiasta pode receber

Dalmo Hernandes 12 novembro, 2017 0
Este Renault 8 “Gordini” é a melhor herança que um entusiasta pode receber

“Meus primeiros desenhos quando criança eram círculos azuis. Na verdade, eu estava desenhando o Renault R8 Gordini. Eu era louco por ele. O carro azul com faixas brancas faz parte de mim. É quase um pedaço de mim.” O entusiasta Anthony Nicolos é realmente apaixonado pelo Renault R8 Gordini – quando ele diz que não há outro carro que ele goste de dirigir tanto quanto o pequeno sedã francês, é impossível duvidar.

Considerando que estamos falando de um dos carros de rali clássicos mais cultuados que existem, não havia como ser diferente. Mas, no caso de Anthony, o R8 Gordini tem um significado especial: é uma herança de seu pai, que foi o responsável pela paixão do filho.

O mais recente vídeo do Petrolicious conta esta história, e vale a pena ver. As legendas podem ser traduzidas automaticamente pelo Youtube.

Anthony conta que seu pai sempre foi um entusiasta da Renault e dos esportivos preparados por Amédée Gordini – ou seja, vem de berço. O pai ia buscá-lo na escola com seu Renault R8 Gordini vermelho, com gaiola de proteção na traseira e motor preparado, e Anthony diz recordar-se nitidamente do ronco do quatro-cilindros e do cheiro muito específico que exalava do sistema de escape e invadia o interior do carro.

Na verdade seu pai teve dois Renault R8: um Gordini de fato, com pintura azul e faixas brancas, motor de 1,1 litro e 90 cv, suspensão mais firme e faróis auxiliares pintados de amarelo, que ficou destruído em um acidente; e um R8 Major mais comum, que veio depois, com motor de mesmo deslocamento, porém apenas 49 cv. Sabiamente, o pai de Anthony guardou o motor do Gordini para colocar no carro novo. Era um motor muito bom para ser perdido.

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Amédée Gordini nasceu Amadeo Gordini em Bolonha, na Itália. Em 1926, casou com uma francesa e mudou-se Paris. Lá, na década de 30, começou a preparar carros da Fiat e participar de corridas com eles. O bom desempenho de seus monopostos com motor Fiat levou a companhia italiana a contratar Gordini para cuidar do departamento de automobilismo da Simca, que na época era o braço da Fiat na França. Amédée Gordini chefiou a divisão até o início da Segunda Guerra Mundial. Após o conflito, Gordini passou a construir monopostos de corrida com mecânica Fiat batizados com seu sobrenome.

Participando da Fómula 1 e das 24 Horas de Le Mans, os carros de Gordini conseguiam bons resutados, incluindo o terceiro lugar no Grande Prêmio da Bélgica de 1952, em Spa-Francorchamps, mas não era o bastante para pagar as contas. A Gordini passou por maus bocados até 1957, quando teve início a parceria com a Renault.

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Além de cuidar dos carros de corrida da Renault, Gordini também ficou encarregado de criar versões esportivas dos carros da marca. O Renault R8 foi lançado em 1962 e, dois anos depois, veio a versão Gordini. A potência passou de 49 cv para 90 cv com a adoção de um novo cabeçote do tipo crossflow e dois carburadores Weber de 40 mm. O câmbio manual de quatro marchas recebeu relações mais próximas, os amortecedores e molas era mais firmes e a única cor disponível era o azul já usado pelos carros de corrida da Gordini.

Em 1998, o pai de Anthony morreu, vítima de um ataque cardíaco. Assim, de repente. Sua mãe, então, guardou o carro para o filho – o Renault R8 com motor Gordini vindo de outro Renault R8 ficou guardado na garagem por anos. Estava parado, mas já tinha dono.

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Foto: Petrolicious

Quando Anthony ainda era um adolescente, começou a visitar um vizinho da família, que tinha um Alpine A110. Este vizinho lhe ensinou muita coisa, e os dois começaram juntos a restaurar o clássico cupê. Com isto, o jovem criou ânimo para começar a restaurar seu Renault 8, mesmo antes de tirar a carteira. Hoje em dia Anthony ainda é jovem, mas dá para perceber o quanto ele gosta do R8 Gordini e sabe o que tem nas mãos.

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Na época de seu lançamento, em 1962, o Renault 8 era um mero substituto para o Dauphine – o carro que, no Brasil, ficou conhecido justamente como Gordini por conta de sua associação com os Renault esportivos feitos na frança. Apesar de mudar as formas da carroceria, trocando as curvas típicas da década de 1950 por linhas retas e vincos marcados, o Renault 8 mantinha a identidade visual da marca, com os dois faróis circulares e dianteira lisa. Era até mesmo considerado fashion. Mas não era um carro esportivo.

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Acontece que, com o entre-eixos curto (2,27 metros, o mesmo do Dauphine), apenas 800 kg na balança e conjunto mecânico na traseira, o R8 já era um carro naturalmente ágil e arisco. Com uma boa dose extra de potência e a suspensão independente (por braços sobrepostos na dianteira e braços arrastados na traseira) mais baixa e com cambagem mais negativa na traseira, o resultado foi um automóvel bem mais veloz e estável e conseguiu vitórias no Tour de Corse, no Rali de Portugal e no Rali da Polônia.

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Foto: Petrolicious

O carro de Anthony pode não ter nascido como Gordini, mas tem o motor de um. Seu pai já era entusiasta do modelo e lhe deixou um carro já aperfeiçoado, e Anthony deu sequência. O R8 já foi vermelho, já foi branco e agora, carrega as cores clássicas do Gordini, com direito às faixas adesivas que, na época, eram entregues ao dono para que ele mesmo colasse. Dá para ver que a suspensão é ainda mais baixa, e as rodas originais foram trocadas por Minilites de 13 polegadas. O interior é praticamente original, com exceção da gaiola de proteção e do volante OMP de cubo rápido.

Ao ver o carro e conhecer a história, fica fácil entender a fixação de Anthony por seu Renault R8. Seu pai ficaria orgulhoso, temos certeza.