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Eu assisti ao documentário “Williams” e…

Há pouco mais de quatro meses a BBC divulgou o primeiro trailer de “Williams”, a video-biografia de Sir Frank Williams, que dispensa apresentações. Na ocasião contamos a história resumida do homem e da equipe — que você pode conferir aqui. O filme estreou internacionalmente em agosto, e ao Brasil chegou agora, neste mês de novembro, quando foi incluído no catálogo brasileiro do Netflix. É claro que nós assistimos. Atenção: o texto a seguir contém spoilers. 

Não é adequado começar um texto usando ditados populares, mas depois de assistir a “Williams” foi inevitável lembrar daquele que fala algo sobre haver uma grande mulher atrás de todo grande homem. Sir Frank Williams teve três.

Ao apertar o play não pense que você irá assistir à história das equipes de Sir Frank contada por seus feitos e dramas na pista e nos bastidores. Este teria sido o caminho fácil, o clichê que eu não pude evitar no parágrafo de abertura.

Em vez disso o documentário do diretor Morgan Matthews decidiu apontar suas câmeras para dentro da casa da família Williams e revelar a personalidade de Sir Frank e os eventos de sua vida pessoal que fizeram dele um multicampeão, o último garagista da Fórmula 1 e, certamente, o homem mais respeitado da categoria. Até há bons trechos com seus pilotos e figuras importantes na Williams, como Alan Jones, Patrick Head, Nelson Piquet e Nigel Mansell.

Mas diante da introversão de Frank Williams, que admite nunca ter sido um bom comunicador, o diretor optou por deixar as duas mulheres de sua vida contarem a história que elas ajudaram a escrever: a linha que costura os retalhos da vida de Sir Frank são as gravações que sua mulher Virginia registrou durante uma série de entrevistas com a escritora Pamela Cockerill que resultaram em seu livro “A Different Kind of Life”, no qual relata como sua vida mudou após o acidente do marido.

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A influência das mulheres de sua vida começa justamente no início dela. Filho de um piloto da Royal Air Force com uma pedagoga, seu pai os abandonou logo após o nascimento, em uma cidade não muito próspera no extremo norte da Inglaterra. Decidida a dar ao seu filho condições para ter a vida que ela não poderia ter, o jovem Frank foi enviado a um colégio interno particular na Escócia, bancado com a ajuda de seus tios maternos.

Foi graças à escola que descobriu sua “necessidade por velocidade”, como ele mesmo descreve antes de dizer friamente que a mesma velocidade o colocou em uma cadeira de rodas. Apesar de ser introvertido e calado – traços de personalidade que mantém até hoje, aos 75 anos — Frank Williams se encontrou a bordo dos carros. Primeiro como piloto, uma função que desempenhou até metade dos anos 1960 quando percebeu que não teria muitas chances de vencer e decidiu ser apenas o chefe da equipe.

Virginia, ou Ginny, como ficou conhecida, entra em cena nos anos 1970, quando o conheceu por intermédio de seu noivo, um dos pilotos de Frank. Ela acabou se casando com o piloto, cujo nome não é revelado, mas sua atração por Frank a levou a terminar seu casamento para ficar com aquele cavaleiro errante do automobilismo.

Ginny era uma garota de classe alta, educada na Suíça e com toda a sua vida planejada desde o berço, o completo oposto de Frank, e que não mediu esforços nem se importou em dividir seu dinheiro, em vender seu apartamento para sustentar o casal e salvar a equipe e assim apoiar o sonho do marido.

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A equipe acabou dando certo, apesar do sucesso ter chegado na segunda tentativa, depois que Frank Williams perdeu sua primeira equipe para Walter Wolf. Mas em 1986, após uma série bem-sucedida de testes de pneus para a temporada daquele ano, Frank Williams sofreu o acidente que o deixou tetraplégico. O momento é narrado de forma detalhada por Peter Windsor, o jornalista que, na época era diretor comercial da Williams e estava no carro com Frank, pelos membros da equipe e pelo próprio Frank, que descreve com uma naturalidade impressionante o momento em que sentiu suas vértebras sendo esmagadas. A montagem da narrativa transmite ao espectador de forma sinestésica a aflição de Windsor e de todos os membros da família e da equipe — especialmente se a extrema unção faz parte de suas crenças.

A partir deste ponto, o filme se volta quase que inteiramente à história de Ginny, revelando como aquela a garota bem-nascida que casou com aquele homem “egoísta, engraçado, antipático e carismático”, segundo suas palavras, salvou Williams — o homem e a equipe. Frank teve sua morte clínica declarada em diversas ocasiões, mas sobreviveu graças à insistência e obstinação de Ginny, que chegou a realizar procedimentos de ressuscitação em Frank em mais de uma ocasião no lugar dos médicos e enfermeiros.

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O filme também traz algumas revelações interessantes como a antipatia de Nigel Mansell com os membros da equipe nos bastidores (o designer Frank Dernie o chamou de “idiota” duas vezes no documentário) e um lado mais humano de Nelson Piquet, que lhe deu de presente um telefone com teclas grandes e separadas para que Frank conseguisse continuar trabalhando apesar de suas novas limitações.

Frank sobreviveu e, embora Ginny nunca tenha sido reconhecida pelo grande público, sua presença no pódio do GP da Inglaterra se tornou a imagem definitiva de sua importância para a história da equipe. Ao receber o prêmio de equipe vencedora do GP representando Frank Williams, Ginny se tornou a primeira mulher na história a levantar um troféu da F1.

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“É minha foto favorita de Ginny, porque a expressão em seu rosto é como se ela dissesse ‘É isso aí!'” – Peter Windsor

Ela manteve sua posição de “iminência-parda” de Frank até o fim de sua vida, em 2013 — o mesmo ano em que sua filha Claire foi indicada pelo conselho da equipe ao cargo que fora ocupado por seu pai desde o final dos anos 1970, tornando-se a primeira mulher a assumir o comando de uma equipe de F1, mesmo contra a vontade de seu pai e, principalmente, de seu irmão mais velho, que esperava ocupar o cargo e acabou cortando relações com a irmã após a indicação.

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Apesar do drama familiar, o filme montou sua narrativa claramente inspirado pela personalidade dos Williams, que educaram seus filhos dizendo que a expressão de sentimentos era uma fraqueza. Por isso as emoções são controladas: toda vez que uma cena está prestes a esbarrar no piegas, a direção retoma o controle emocional e traz de volta a dureza da realidade. Esse equilíbrio segue infalível do início ao fim, sempre variando de acordo com as expressões do próprio Frank na película. Mesmo a cena de encerramento, na qual Claire não se contém. O olhar e a fala final de Frank Williams descreve sua personalidade como um roteiro inteiro não poderiam fazer.

Na subida dos créditos voltei a lembrar que o documentário foi batizado “Williams” e não “Frank Williams”. Após os 104 minutos o título assume um significado diferente: não se trata somente da história da equipe ou da vida de Frank, mas das realizações da família Williams — Frank, Ginny, e agora Claire.

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