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Car Culture

Eurotrip: uma viagem de 4.000 km de carro pela Europa — parte final

Cruzar um país ou um continente ao volante de um carro é o sonho de dez entre dez entusiastas. O leitor Yuri Franzoni da Silva realizou este sonho na metade deste ano, quando alugou um carro em Paris foi até Roma, passando pela Suíça ao lado de sua esposa. Nesta mini-série de posts ele irá contar em detalhes sua aventura que inclui estradas perfeitas, museus cheios de graxa e gasolina e dicas para quem pegar a estrada no Velho Mundo. 

 

Ferraris, Ferraris everywhere

A 25 km de Sant’Agata Bolognese, fica uma cidade chamada Modena e logo após, Maranello. Não preciso dizer nada, não é? Passamos pela matriz da Maserati, conferimos o museu Casa Enzo Ferrari (ver nome) em Modena e seguimos a Maranello.

4000 km de carro pela Europa

A matriz da Maserati e o Museo Casa Enzo Ferrari

4000 km de carro pela Europa

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Chegamos lá, o museu Ferrari estava fechando (teríamos 15 minutos para visitá-lo todo e não deixaram a gente entrar, infelizmente). Dammit! Mesmo assim, deu para registar muita coisa bacana.

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É, não foi desta vez…

Décimo sétimo conselho: leia novamente o décimo sexto conselho.

Próxima parada: Pisa. Voltamos à auto-estrada (com outro ticket de pedágio nas mãos) e seguimos em frente.

 

Pisa, Viareggio e Cinque Terre

Depois de 250 km e 13 euros de pedágio chegamos em Pisa, passado das 21:00. Ao contrário de Paris, Amsterdam e outras cidades que visitamos mais ao norte do continente, o sol já havia se posto havia algum tempo, então nossa chegada à cidade foi à noite. Pisa é uma cidade relativamente pequena, cujo maior atrativo é a Piazza que ostenta a catedral, o campanário e, obviamente, a torre.

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Não parece, mas a torre faz jus à fama… como é que nunca caiu?!

Tudo isso está dentro de uma área murada, o centro histórico da cidade, cujo acesso é restrito aos automóveis dos moradores da cidade — nada de turistas por lá. Não sabíamos desse detalhe, entramos direto com nosso carro à procura da pensão que nos abrigaria aquela noite.

Décimo oitavo conselho: informe-se previamente desse tipo de restrição ao tráfego, especialmente em cidades históricas. Isso é muito comum por lá.

A Pensione Helvetica ficava numa rua bem estreita – como muitas outras em toda a Itália -, com carros e motos estacionados sobre as calçadas, sem um lugar sequer para desembarcarmos com nossa bagagem para a noite. Porém, a localização da pensão era fantástica, meia dúzia de passos e estávamos diante da Torre e da catedral novamente.

Resumindo, fizemos check-in, o atendente da pensão teve de avisar a polícia local que o nosso Astra placas CV601PT estava de saída do centro histórico – assim eles não precisariam nos multar! O aviso consistia simplesmente em acessar o site da polícia municipal, informar a placa do carro e a hora de saída – a placa já estava cadastrada no sistema deles graças às câmeras de monitoramento presentes nas entradas do centro histórico. Saímos da área murada e fomos atrás de um lugar para estacionar, acabamos deixando o carro na rua mesmo, deixando o ticket de estacionamento rotativo no pára-brisa. Desta vez, foi barato – não deu nem 2 euros para deixar o carro por lá até 10 da manhã do dia seguinte. Depois, foram uns dez minutos de caminhada para voltar até a Piazza e bater um rango – a massa do almoço não fez milagres e a fome estava de volta.

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Nestes arredores, só entra carro de morador da cidade

Dia seguinte já tomamos nosso rumo e seguimos para o Parco Nazionale Delle Cinque Terre. Pensando em fugir um pouco do pedágio, resolvemos pegar uma estrada secundária, que nos fez passar por dentro de uma cidade litorânea chamada Viareggio. Apesar do trajeto ser bem bonito, a velocidade reduzida do tráfego nos fez pensar melhor…

Resolvemos cruzar Viareggio e voltar à auto-estrada – melhor pagar mais uns euros de pedágio e ganhar tempo para conhecer nosso destino do que ficar andando feito tartaruga no tráfego italiano. De Viareggio a La Spezia, cidade que abriga o parque nacional que visitaríamos, foram mais uns 6 euros de pedágio.

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Cruzamos La Spezia em direção à estrada municipal que leva ao Parco, uma subidinha de montanha bem interessante, com alguns panoramas incríveis. O parque é composto por cinco pequenos povoados (daí o nome Cinque Terre, italiano para “cinco terras”) que surgiram na encosta da montanha e às margens do Mediterrâneo, cujas casinhas coloridas, quase empilhadas uma na outra, se integram à paisagem formando um visual inacreditável. Porém, não é possível trafegar de automóvel por lá – somente moradores têm acesso às estreitas vielas de cada Terre. Visitantes devem estacionar e locomover-se a pé ou usando as linhas de trem que interligam as cidades da região.

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Por isso, já sabíamos que estacionar seria outro gasto – e foi mesmo, lá se foram mais 24 euros por seis horas de estacionamento. Mas fomos premiados com um passeio incrível, a pé e de trem – às custas de mais uns euros a cada trajeto, mas isso já nem importava mais.

4000 km de carro pela Europa

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As fotos não conseguem traduzir o que é esse lugar, acredite

Cinque Terre é imperdível, um local singular, disputadíssimo no verão italiano, cujas fotos falam por si – e falam muito pouco, por sinal. Ficamos por lá das 10:30 às 17:00, quando partimos em direção a Florença. Mais 13 euros de pedágio… a essa altura eu já tinha parado de contabilizar o estrago.

 

Florença

Chegamos em Florença às 19:00, depois de errar umas quatro vezes a alça de acesso à cidade na saída da auto-estrada. Nosso companheiro GPS indicou a rota que nos levava até… outro centro histórico. Sim, o nosso hotel por lá era bem no limite da chamada ZTL (Zona Traffico Limitato), mas ainda era dentro da dita cuja área de tráfego restrito.

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O início da ZTL e um belo exemplo de “aqui se faz, aqui se paga”

Por sorte, a limitação ao tráfego apenas de carros locais só se aplicava até as 20:00, então pudemos fazer o check-in no hotel deixando o carro a duas quadras dali, para só mais tarde estacionar o carro dentro do hotel – um dos poucos que pegamos que tinha estacionamento à disposição, mediante reserva.

Então, saímos para jantar na cidade e começamos nossa caminhada, outra vez à noite, para conhecer a Florença de Michelangelo. Não pudemos conhecer muito do que gostaríamos, mas mesmo assim, saímos de lá com gosto de quero mais…

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Uma belíssima noite de Florença

Décimo nono conselho: se for a Florença, reserve no mínimo uns três dias para conhecer direito.

Dia seguinte, carro com pouco mais de um quarto de diesel no tanque, partimos para Roma, a 280 km dali. A aquela altura, eu já sabia o quanto rodar com o combustível que nos restava.

 

Roma e a saudade do trânsito do Brasil

Saímos de Florença lá pelas 10:00, para chegar em Roma cedo o suficiente para aproveitarmos o dia por lá. A essa altura, já estávamos a três dias de embarcar de volta para casa, então nosso tempo era curto! Além disso, seguimos o conselho de outros viajantes e fizemos o máximo para devolver o carro o mais rápido possível, pois o trânsito de Roma, usando as palavras de uma agente de turismo que nos atendeu meses atrás, é “uma chorna”.

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Para entrar na cidade, como sempre, na saída da auto-estrada mais um pedágio nos aguardava e dessa vez a mordida foi a mais forte: 17,60 euros. Minha carteira que um dia esteve forrada em euros já estava leve demais…

Chegamos em Roma às 13:00 e constatamos: é uma chorna mesmo. Nunca vi nada igual, gente andando com aquela pressa de tirar o pai da forca nas pistas à direita, enquanto outros andavam feito cágados com reumatismo na pista da esquerda. Tudo misturado com a tradicional falta de paciência do italiano, entre outros temperos típicos. Um espetáculo que faz dirigir em SP uma brincadeira – e ainda estávamos na auto-estrada marginal, ainda nem tínhamos entrado na cidade.

Por motivos óbvios, são poucas as fotos que tenho dirigindo por lá. Nem a minha esposa tinha ânimo de registrar as cenas que presenciávamos… e eu, ao volante, só me preocupava em sair com o carro inteiro daquela muvuca.

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Próximo à entrada da cidade: partes de um dos aquedutos que existiam na época do Império Romano

Já dentro da cidade, em determinado momento, haviam três faixas: a da esquerda, para cruzar a avenida em que estávamos, entrando em uma rua na transversal (onde pretendíamos entrar), mais duas faixas para seguir adiante, para as quais havia um sinal vermelho. Um pouco à frente, havia dois carros parando para o sinal vermelho, sendo que na faixa do meio, o segundo carro era um Land Rover Discovery. Quando o sinal fechou e os dois carros da frente pararam, o motorista do Discovery não teve dúvidas: puxou para a pista da esquerda (ficou na nossa frente), acelerou forte e passou por cima do canteiro que separava as vias da avenida, puxando de volta para a direita em seguida e indo embora. Só lembro do barulho seco da pancada que a pobre Discovery deu no canteiro… não fosse o tamanho da criança, com certeza teria arrebentado as rodas dianteiras nessa brincadeira.

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Roma: respirando história, um museu a céu aberto

Bom, a essa altura eu já estava ciente do que poderia vir pela frente… achamos o hotel, que ficava a uns três quarteirões do Termini – a central rodoferroviária da cidade de Roma, de onde partem e chegam diversas linhas de trem, metrô e ônibus. Pra variar, não tinha vaga para estacionar. Rodei por uns quinze minutos e não achei onde estacionar próximo ao hotel – tudo lotado, sem chance. Como precisava descarregar as malas (todas elas, desta vez) e ir devolver o carro à locadora, abastecendo antes disso, me obriguei a ser um legítimo romano nessa hora: estacionei em fila dupla na frente do hotel. Não deu cinco minutos, a fila dupla que participei já ocupava toda a extensão daquele quarteirão…

Fiz o check-in o mais rápido que pude, deixei a bagagem com a minha esposa e saí de lá para devolver o carro. Procurei um posto nos arredores e quem disse que eu achava? Quando finalmente encontrei, eram duas bombas de combustível gerenciadas por um italiano com cara de indiano, talvez o contrário. Mas, ao contrário das outras quatro vezes em que abasteci, neste posto não havia sistema self-service, e eu tive que solicitar ao indiano-italiano/italiano-indiano para fazer o serviço. Pior: eu não falo italiano (niente, apesar de ser descendente de imigrantes) e o homem não falava inglês…

Resumindo, foram 80 euros para abastecer. Paguei com uma nota de cem, o cara queria que eu fosse embora deixando os 20 de gorjeta, ah vá pra ponte que caiu! Discussão aqui e ali, fiz ele me devolver quinze euros… cinco de gorjeta já seria até muito para aquela criatura. Ele fez cara feia, então fui-me embora pensando seriamente em berrar um “vaffanculo” para o cara, mas não o fiz – vá lá, eu tô de férias, ele já está pior do que eu.

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O monumento em homenagem a Vittorio Emanuele, o “pai da pátria italiana”

Próximo desafio: chegar ao local onde devolver o carro. Não exatamente “encontrar”, pois o endereço estava no GPS, mas sim CHEGAR até lá. Passei por mais algumas situações bizarras, avenidas de cinco pistas onde todos estavam tão atravessados, que parecia que o único errado era eu… pedestres estranhando quando eu parava nas faixas de segurança – e apontando pra placa do carro com o “F” indicando a procedência francesa do veículo, dando risadas depois disso… enfim, finalmente cheguei ao local de devolução.

Era um estacionamento vertical, onde um italiano chegou com seu handheld para conferir o veículo e as multas. Retirei meu GPS, dei as chaves e, pasme, não tomei nenhuma multa, nem causei qualquer arranhão ao carro… nenhum prejuízo extra! Assinei na telinha do handheld, gerou-se um PDF com o recibo de devolução no meu e-mail e era isso. Na fatura seguinte do cartão, veio a cobrança do aluguel + os impostos (IVA) de 7%.

Vigésimo e último conselho: não dependa de carro em Roma. Nem abastecer é fácil por lá. Mas não deixe de visitá-la!

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Uma típica biga romana em ótimo estado. Não, péra…

Esse pequeno trajeto que fiz em Roma foi suficiente para sentir saudade do Brasil, mesmo com nossas ruas esburacadas e falta de cultura como um todo. O italiano é um povo terrível quando quer ser desagradável, acredite. A partir do momento que me vi a pé outra vez, me senti até mesmo aliviado – e por não depender mais de veículo para me locomover, até o povo local me pareceu mais simpático daquele momento em diante. Coisas de turista.

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A pé é muito melhor…

Bom, passamos nossos últimos três dias em Roma a pé, conhecemos o Vaticano – fomos de metrô e voltamos a pé, criando mais algumas bolhas nos pés – e constatamos que o trânsito da cidade é ruim não só de carro – de ônibus é igualmente complicado, horários que não são cumpridos, motoristas mal educados, veículos lotados… de fato, a única coisa que vimos funcionar relativamente bem no transporte urbano de Roma foi o metrô, ainda que com algum atraso nos horários (pouca coisa). Infelizmente, a cobertura do serviço é bem limitada – estão construindo a terceira linha do metrô, mas que sempre esbarra em novas ruínas enterradas no caminho, o que compreensivelmente emperra o progresso dos trabalhos. Afinal, trata-se de uma cidade com mais de 2 mil anos de história!

 

Conclusão

Após 3.871 km de carro, mais nem imagino quantos a pé, de trem e de avião, posso dizer que nossas férias foram fodásticas. Doeu na alma ter que embarcar no Aeroporto Leonardo da Vinci em Fiumicino, próximo a Roma, em direção a Lisboa e depois a Porto Alegre. Mas, por outro lado, depois de tanta coisa vivenciada em um período curto como esse, a gente percebe como tem coisas que só a nossa terra pode nos oferecer. É bom viajar, mas também é muito bom voltar pra casa.

As dicas finais que posso dar, baseado na experiência que obtive, nos erros e acertos que cometemos? Bom, se eu fosse fazer tudo de novo, eu teria espichado as férias por mais tempo (que dúvida!), ou reduzido um pouco as paradas que fizemos, evitando congestionamentos que nos atrasaram bastante. Teria dividido melhor o nosso tempo, dando mais prazo para conhecer lugares impressionantes como Amsterdã, Florença e tantos outros.

E se pudesse, teria dado um jeito de alugar o carro e devolvê-lo no mesmo local – isso teria barateado o aluguel em quase 50%, acredite… dos 650 euros que gastamos, 300 foram relativos à taxa “One-way”, que consiste em retirar num local e devolver em outro. Preste atenção nisso!

Mas alugar um carro para cruzar a Europa é simplesmente demais, o Velho Continente é ótimo para visitar e melhor ainda para dirigir. Tanto que um dia, pretendemos voltar para conhecer o que faltou – Portugal, Espanha, sul da França… ou em outro roteiro que permita conhecer Berlim, a Escandinávia, o leste europeu… as opções são muitas.

É isso! Espero que tenham gostado e que tenham conseguido ler tudo até aqui – sou famoso entre meus familiares e amigos por falar bastante, e pelo jeito essa minha característica se revelou neste texto. Fiquem à vontade para tirar suas dúvidas e tecer seus comentários. Abraço a todos!

 

 

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