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Car Culture

A Evolução do Nissan GT-R, parte 1: o nascimento do Skyline e a herança das pistas

O Nissan GT-R é, sem dúvida, um dos maiores esportivos não só da atualidade, mas de todos os tempos. Goste dele ou não, as coisas que aquele monstro de 1.700 kg consegue realizar com seu motor V6 biturbo e tração integral são admiráveis. Mas o Godzilla nem sempre foi assim — e nem mesmo era chamado de Godzilla no início de sua vida, em 1969. Hoje, vamos começar a contar a história do Nissan GT-R, começando de onde se deve: do começo.

Agora, sabemos que isto pode não corresponder à realidade, mas a impressão que temos é que os carros são encarados de formas diferentes e bem definidas ao redor do mundo. Americanos gostam de potência e barulho, europeus são mais passionais e preferem carros menores e mais ágeis. Já os japoneses são all business — carros precisam ser confiáveis e vender bem.

Claro que estes são estereótipos, e sabemos que na vida real as relações de um povo com seus carros são bem mais complexas. Mas isto talvez ajude a entender por que não há uma história cheia de paixão por trás do GT-R, e nem um motor grande e absurdamente potente. Em 1969 a Nissan decidiu que o Skyline precisava de uma versão esportiva e simplesmente a fez.

Bem… quase isso.

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Os Skyline de primeira e segunda gerações

No início de sua vida, o Skyline não era nem mesmo um Nissan. As origens do nome remontam à década de 1950 — mais precisamente a 1957, quando a Prince Motor Company lançou o Prince Skyline, um carro de luxo que lembrava os modelos americanos da época. A segunda geração, lançada em 1963, ficou com um visual mais limpo e tornou-se um dos carros mais vendidos do Japão — e, ironicamente, um de seus maiores concorrentes era o Datsun Bluebird, modelo mais famoso da divisão de baixo custo da Nissan.

Em 1966, a Prince foi comprada pela Nissan, que absorveu tudo o que a marca podia oferecer — de recursos financeiros à tecnologia, e até alguns nomes de modelos. Sendo assim, a partir de 1968 o Prince Skyline se tornaria Nissan Skyline.

2000gt

Prince Skyline GT-B, o primeiro ancestral direto do GT-R

Na verdade até houve versões esportivas antes do GT-R, mas você não vê isto sendo alardeado por aí: em 1964, a Prince lançou o Skyline GT-B, que tinha um motor de seis cilindros em linha, com deslocamento 1.988 cm³ e comando de válvulas no cabeçote. GT-B significava Gran Turismo Berlinetta, porque as fabricantes japonesas sempre colocavam sobrenomes ocidentais em seus carros para aumentar as vendas.

O motor do GT-B, denominado G-7, tinha duas versões: uma com um carburador e 105 cv, e outra com três carburadores Weber 40 DCOE-18 e 125 cv. Esta ainda tinha diferencial de deslizamento limitado, câmbio manual de cinco marchas com relações bem próximas e freios a disco na dianteira — respeitável, para dizer o mínimo. Cinco anos depois, uma evolução direta deste motor seria usada no primeiro GT-R de todos.

 

Hakosuka

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O primeiro Nissan Skyline começou a ser desenvolvido pela Prince antes da fusão das duas marcas. O chamado C10 foi lançado em 1968 e tinha formas mais modernas e um apelo naturalmente mais esportivo, posicionando-se acima do Datsun Bluebird, que permaneceu como uma opção mais econômica. É preciso dizer que a Nissan era uma das maiores fabricantes do Japão, e o Skyline já era um sucesso de vendas antes da compra da Prince.

Sendo assim, obviamente o Nissan Skyline foi um sucesso instantâneo, oferecido em versões com motores quatro cilindros com 1,5 e 1,8 litro de deslocamento e carrocerias sedã e perua. Sua primeira versão esportiva foi o 2000GT-X, com o mesmo seis-em-linha de dois litros e 105 cv do Prince Skyline GT-B. Em 1969, o “X” daria lugar a um “R”, de racer.

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O GT-R, de código PGC10, era um sedã de visual mais agressivo, mas ainda civilizado, e tinha suspensão independente nas quatro rodas — McPherson na dianteira, braços semi-arrastados na traseira. O interior trazia bancos individuais, alavanca de câmbio no chão e um volante de três raios de metal — elementos sempre associados aos esportivos da época. Mas seu motor, que tinha origem nas pistas, era a grande estrela.

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O seis-em-linha S20 era outra herança da Prince, e foi usado no carro de corrida Prince R380, que conseguiu um excelente desempenho no chamado Grande Prêmio do Japão (na verdade era uma corrida que incluía carros de turismo, monopostos e protótipos, em categorias separadas) contra os Porsche 904 e 906.

Era uma versão com mais deslocamento (1.996 cm³), comando duplo no cabeçote e injeção mecânica de combustível, o que garantia uma potência estimada de 200 a 220 cv — o suficiente para ser competitivo contra os Porsche e mostrar-se perfeito para um esportivo. O S20, no cofre do 2000GT-R, ficou menos potente — mas ainda eram 160 cv a 7.000 rpm e 17,7 mkgf de torque a 5.600 rpm — o bastante para chegar aos 195 km/h. Em 1968!

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Em 1970, a Nissan apresentou a versão cupê do GT-R — e, com ela, o visual clássico do Skyline 2000GT-R: entre-eixos mais curto, uma pequena janela traseira e para-lamas com molduras pretas e rebites aparentes. Nem precisamos dizer que, logo, os fãs japoneses de esportivos foram conquistados, não é? Ele até ganhou um apelido — Hakosuka, que vem de hako (pode ser entendido como “caixote”) e suka, uma abreviação para a pronúncia japonesa de Skyline. Esse tipo de coisa só acontece com carros que têm carisma.

A Nissan produziu, ao longo de quatro anos, pouco mais de 1.900 GT-R entre sedãs e cupês. Seu último ano foi 1972, quando ele deu lugar a um sucessor — que não foi muito bem sucedido…

 

“Ken & Mary”

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O ano de 1972 marcou a introdução da segunda geração do Skyline desde que ele se tornou um Nissan. O C110 tinha linhas mais robustas e aerodinâmicas, mas conservou boa parte da mecânica. O GT-R desta geração não foi exceção — o S20 era um motor tão bom, girador e eficiente, que não precisou de grandes atualizações, só que agora parecia mover uma versão menor e oriental de um muscle car americano.

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Ele ficou conhecido como Kenmeri — corruptela de Ken & Mary, o casal que estrelou a campanha publicitária de lançamento. Olha só:

Curiosamente, a campanha foi feita para toda a linha Skyline de 1972, mas só o GT-R ganhou o apelido. Contudo, apesar de bem conhecido, ele é um carro bem raro: só 197 unidades foram produzidas, e por um motivo simples: a crise do petróleo — a mesma que, nos EUA, fez do Ford Mustang II um desastre em todos os sentidos — acabou com o interesse das pessoas por carros de alto desempenho. Contudo, para a sorte da Nissan, as propagandas cafonas deram certo e ajudaram o Skyline C110 a ser um sucesso ainda maior que seu antecessor.

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O impacto dos dois primeiros GT-R na cultura automotiva japonesa não pode ser medido em números de vendas ou produção. Em vez disso, basta saber que grande parte dos GT-R antigos que você vê em fotos na internet (ou nas ruas, caso more no Japão) na verdade são modelos básicos convertidos. E que, mesmo com a relativa raridade, a cena de modificação e preparação é muito grande.

Por isso a Nissan demorou para investir de novo em um GT-R — isto só veio a acontecer em 1989, com o R32. Mas, como você já deve ter percebido, esta história vai ficar para o próximo post!

 

 

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