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Exclusivo: o reencontro de Emerson Fittipaldi com o Renault R8 de sua primeira vitória – contado pelo dono do carro!

O Concours d’Elegance de Amelia Island, na Flórida, é um dos eventos mais importantes do automobilismo mundial – comparável, talvez, à Monterey Car Week em Pebble Beach, na Califórnia, e ao Goodwood Festival of Speed, no Reino Unido. Dedicado a celebrar a memória dos carros e corridas do passado, todos os anos o Concours de Amelia Island homenageia um personagem histórico deste mundo. Em 2018, foi a vez de Emerson Fittipaldi.

Ayrton Senna e Nelson Piquet podem ter conquistado mais títulos décadas depois, mas Fittipaldi foi o primeiro piloto brasileiro a disputar uma temporada completa na F1, a vencer uma prova na Fórmula 1, a conquistar um título da Fórmula 1. Primeiro em 1972, com a Lotus 72D, em um campeonato impecável que virou até tema de samba-rock.

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Em 1973, depois de uma temporada acirradíssima, marcada pela rivalidade com seu colega de Lotus, o sueco Ronnie Peterson, Emmo foi vice-campeão atrás de Jackie Stewart. Fittipaldi foi a grande contratação da McLaren para 1974, e mostrou serviço: brigou até o último instante com o suíço Clay Regazzoni, da Scuderia Ferrari, e garantiu seu segundo título na carreira – e o primeiro da equipe britânica para a qual acabara de entrar.

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Fittipaldi ainda competiu na Fórmula 1 até 1980. Mais do que isto: a temporada de 1975 foi a última pela McLaren (com outro vice-campeonato para o currículo). Depois disto, Emerson fundou sua própria equipe, a Coopersucar-Fittipaldi que, mais tarde, se tornaria Fittipaldi Automotive. Uma equipe brasileira que resistiu por nove anos na maior categoria do automobilismo mundial, dominada até hoje por escuderias europeias. Depois da Fórmula 1, Emmo migrou para Fórmula Indy, onde permaneceu até 1996 e ainda conquistou duas vitórias nas 500 Milhas de Indianápolis, correndo pela Penske, em 1989 e 1993 – nesta última, aos 47 anos de idade.

É um currículo invejável, caindo no clichê, e que justifica totalmente a homenagem em Amelia Island. Emerson Fittipaldi é um dos grandes. Mas sua enorme coleção de vitórias teve de começar em algum lugar, não?

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Muito noticiou-se a homenagem a Emmo em Amelia Island. Os carros de suas vitórias na Fórmula 1 e na Indy estavam lá, no gramado do Concours d’Elegance, estacionados lado a lado: o Lotus 72D do primeiro título, o McLaren M23 do segundo título – ambos com o emblemático e onipresente V8 Cosworth DFV de três litros. Os dois Penske com motor V8 Chevrolet com os quais Emmo triunfou na Indy 500 e venceu o título da categoria americana em 1989. E até o Chevrolet Camaro com o qual Fittipaldi participou em 1975 da segunda temporada da International Race Of Champions (IROC), campeonato de turismo que contava com os maiores nomes do automobilismo mundial em uma disputa de três semanas por um prêmio em dinheiro.

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Ao lado de todos estes ícones, um pequeno Renault R8 pintado com o verde-e-amarelo das pinturas nacionais clássicas, com o nº 21 marcado nas laterais e no capô. Um carro humilde, quase um intruso no entre os monopostos (e o Camaro), mas que tem um significado gigante na carreira de Emerson: foi com esse carro que tudo começou. Foi com este Renault R8 da equipe Willys que Emerson Fittipaldi conquistou sua primeira vitória como piloto profissional. E aquele carro só estava lá por causa do esforço de Maurício Marx e sua equipe.

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Maurício é dono da Universo Marx, loja especializada em clássicos de São Paulo/SP, e por telefone nos falou sobre o carro, sobre a  experiência de levar o carro do Brasil até Amelia Island e encontrar Emerson Fittipaldi nessa ocasião tão especial.

O Renault 8, ou R8, foi o sucessor do Dauphine – que ficou conhecido no Brasil como Gordini, que na verdade era o nome de uma das preparadoras especializadas em Renault que atuavam na França. Com baixo peso (só 850 kg quando original de fábrica), suspensão dianteira por braços sobrepostos e um esperto motor de até 1.300 cm³ e 103 cv pendurado na traseira – preparado por Amedée Gordini –, ele era um carro muito divertido de guiar e um surpreendia a muita gente quando preparado para as pistas. Como você deve saber, a Willys fabricava modelos Renault no Brasil nos anos 1950 e 1960, e o R8 foi um dos escolhidos para participar de corridas de turismo por todo o País.

Como muitos pilotos pelo mundo, Emerson Fittipaldi começou acelerando karts. Em 1965, pouco depois de conquistar o Campeonato Paulista na modalidade, Emmo estreou com carros “de verdade”, pilotando um Renault Dauphine preparado e o Renault R8 em questão.

Quando comprou o carro, em meados de 2017, Maurício sabia que o carro havia pertencido à Equipe Willys. O para-brisa com o nome da equipe, maltratado pelos detritos das corridas, não negava. O R8 estava pintado de azul com faixas brancas – esquema de cores oficial da equipe da Gordini na França – e com um motor CHT na traseira. Como você deve lembrar, o motor CHT que equipou os Ford do fim dos anos 60 até os Volswagen do início dos anos 90, é um projeto original da Renault, portanto o carro não estava tão distante da realidade.

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Pouco depois da compra, Maurício fez o natural: dedicou-se a descobrir mais a respeito do histórico do carro. Procurando reportagens antigas e conversando com pessoas envolvidas no meio – entre eles, Bird Clemente e Chico Lameirão, dois grandes nomes do automobilismo brasileiro dos anos 1960 – ele começou a suspeitar de que seu Renault era o carro como qual Emerson Fittipaldi havia vencido sua primeira prova, aos 19 anos de idade: uma prova na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro. Com fotos garimpadas, mais conversas com quem estava lá e estudiosos do esporte a motor brasileiro, Marx descobriu que sim, era o mesmo carro. “Eu havia visto uma foto em uma revista de 1965, do Renault com a porta aberta e o Emerson do lado. Mas não sabia se ele havia corrido mesmo com o carro ou se era apenas uma pose para a foto”, ele conta. “Então, em outra foto, vejo a foto do carro de lado. E o cabeçalho da foto dizia o seguinte: Emerson foi o vencedor com o Renault R8, mostrando que evolui dia a dia. Então, eu soube que o cara correu e que ganhou. Ele era muito novato na época, e não havia ganhado nada antes disto”.

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A confirmação definitiva veio do próprio Emerson Fittipaldi. Ao ver a foto que Marx havia encontrado na revista, Emerson disse: “Sim, agora me lembro. Eu ganhei esta corrida, e ganhei com facilidade”. Exatamente como estava escrito na matéria da época.

Agora, da descoberta do fato à consagração em Amelia Island, muita coisa aconteceu. O Maurício nos contou a história em detalhes neste belo depoimento:

Tudo começou quando um amigo, o colecionador Hervé Salmon, me avisou que o Concours d’Elegance de Amelia Island faria uma homenagem a Emerson Fittipaldi. No dia seguinte, contatei por email os organizadores do concurso.

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Marx conta que a cor amarela é  mais fiel possível à tonalidade da época

Não pude começar a restaurar o carro logo em seguida, pois no dia 14 levamos o carro até o Sambódromo do Anhembi, onde aconteceram as comemorações de 40 anos da equipe Renault de Fórmula 1. Começamos a trabalhar no carro apenas no dia 21 de novembro e ele ficou pronto no dia 5 de fevereiro.

Seguem algumas imagens do processo de restauração:

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Foram pouco mais de dois meses e meio para fazer tudo no carro – principalmente o motor, com todo os componentes originais Gordini. Faltavam algumas peças que nos fizeram perder muito tempo e quebrar a cabeça. E o fato de estarmos no final do ano ajudou a atrasar o restauro. Com medo de perder o prazo para levar de navio, optamos por não correr o risco e levamos de avião.

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Fui recebido por outro amigo, o Beto, que mora em Ford Lauderdale. Em princípio levaríamos o carro em uma plataforma, mas existia uma exigência de dia e horário exatos para o embarque. Então, meu amigo se ofereceu para alugar um reboque de duas rodas na U-Haul, para termos a liberdade de levar o carro na hora que quiséssemos. Foi a melhor opção: além de ter sido muito divertido andar 1.000 km com o carro atrás de mim, o carro estava a todo momento sob nossos cuidados, e pudemos admirá-lo a viagem toda no nosso vácuo.

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Fizemos a inscrição um dia antes do evento, no dia 7 de março, e deixamos o carro na garagem do hotel Ritz-Carlton. Foi aí que tive a primeira surpresa: chegando ao hotel, no dia 8, estavam estacionadas as Lotus e duas McLaren. Minha vaga estava reservada ao lado dos Fórmula 1. Foi muito bacana ver os quatro carros juntos, além dos carros da equipe Martini, um Porsche 917, carros da Lancia e um Jaguar XJR-14.

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No dia seguinte, logo cedo, participamos do passeio Eight Flags Road Tour pelas ruas de Amelia Island, da qual participaram outros clássicos de valor inestimável.

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No fim, houve um almoço de confratrenização no qual o Emerson, em pé, agradeceu aos participantes. Ao fim, o organizador nos agraceceu por termos levado o carro para o concurso.

Logo em seguida, Emerson chamou a mim e ao meu irmão para que fôssemos até o nosso carro. Foi um dos momentos mais emocionantes e marcantes, pois o Emerson se encontrou novamente com o carro depois de 52 anos. Ele ficou muito comovido ao ver o Renault. Dei a ele o adesivo que ele usava em seus carros, que era um ratinho puxando o rabo de um gato com a escrita “Equipe Willys”. O Emerson colou o adesivo no vidro lateral, visivelmente emocionado.

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Em seguida nos movemos até o concurso, em direção ao gramado onde os carros com os quais o Emerson competiu ficariam expostos. Esta também foi uma parte muito emocionante e marcante: os carros estavam sendo manobrados e posicionados para a foto oficial. Foi maravilhoso ver todos eles juntos. O Renault R8 foi o último a ser manobrado, como se fosse a “cereja do bolo.”

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Logo depois, o Emerson foi até o Renault, assinou no capô dianteiro e tidramos algumas fotos. Foi nesta hora que ele nos contou um pouco sobre a história do carro.

O tempo todo uma aglomeração de fotógrafos e repórteres ficaram ao nosso lado. Uma coisa bacana é que os visitantes e organizadores vinham a todo momento me agradecer pessoalmente por ter levado o carro de tão longe, sempre citando a grande oportunidade de ver o bólido no qual Emmo conquistou sua primeira vitória. Esta atenção dos americanos foi muito gratificante.

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Emerson e o Lotus 72D de seu primeiro título. O carro foi levado pelo próprio Clive Chapman, filho de Colin Chapman, que comentou comigo: “Que curioso: você com o carro da primeira vitória, e eu com o carro do primeiro campeonato!”

No dia seguinte o organizador veio nos entregar o troféu. Também foi um momento de extrema emoção: o próprio organizador do evento já havia me dito que os carros com os quais o Emerson correu não poderiam ser julgados normalmente. Eram hors concours, pois todos eram muito distintos, com históricos diferentes e igualmente importantes. Fiquei muito contente, pois ele colocou o Renault R8 no mesmo grau de importância das Lotus, McLaren e dos monopostos da Indy.

Também ganhamos uma placa azul de metal maravilhosa, com o descritivo do carro e o mais importante: “Marx Family – São Paulo – Brazil”. Não precisava de mais nada! Estávamos com o carro premiado, sendo homenageado e admirado por todos. Além de estar com muitos amigos brasileiros que foram até lá para nos prestigiar.

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Um ponco crucial foi a nossa equipe, que fez o carro em tempo recorde, com muito amor e dedicação, como um Overhaulin’ brasileiro.

Dediquei o prêmio primeiramente a meu pai, Flávio Marx, a toda minha equipe e a todos os amantes e respeitadores dos carros antigos do Brasil. Uma das coisas que mais pesaram foi a importância do que estávamos carregando. Era a primeira vez que um carro saía do Brasil ara participar de um concurso de reconhecimento mundial. Estávamos levando a bandeira do Brasil para o mundo inteiro. Não existia espaço para erros.

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Os filhos de Emerson Fittipaldi, Vittória e Emmo, no Renault R8

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O letreiro da Equipe Willys, uma das partes mais difíceis da restauração, feita por meu amigo Robertinho

Apenas quando vi as cores verde e amarelo no gramado, ao lado dos outros carros, foi que consegui parar para respirar direito. Com muito orgulho, foi naquele momento que percebi que tínhamos feito nossa parte, levando nossa bandeira e representando muito bem nosso País.

Devo dar os créditos para quem se esforçou: Shiro, Paizão, Gui, Grilo, Leandro, Maya, Frank, Harley e Daniel. E não posso deixar de agradecer ao Antonio Hermann, que ficou a tiracolo cobrindo todos os momentos com sua câmera.

É difícil imaginar a sensação de encontrar uma lenda do automobilismo como Emerson Fittipaldi e, mais do que isto, ser o responsável pelo reencontro do piloto com o carro de sua primeira vitória nas pistas. Só podemos lhe dar os parabéns, Maurício, e agradecer por compartilhar esta história incrível conosco!

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