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Fat Boy: a história de uma das motos mais lendárias (e polêmicas) da Harley-Davidson

A Harley-Davidson certamente está entre os maiores símbolos da cultura norte-americana. Sua marca está em filmes, capas de discos, camisetas, bonés, acessórios, itens de decoração, ferramenta, tralhas de acampamento, utensílios domésticos, material de escritório, móveis, jogos de mesa… e, claro nas motos da Harley-Davidson, que já são fabricadas há 115 anos.

A história que vamos contar hoje é um pouco mais recente: ela começa em 1990, ano de lançamento da Harley-Davidson Fat Boy, certamente uma das mais populares Harley modernas. Seu estilo característico, com rodas fechadas, e seu enorme motor de até 1,8 litro fizeram da Fat Boy um sucesso imediato. Ainda assim, a Fat Boy é uma das motos mais “polêmicas” já feitas.

Mas antes de falar dela, é bacana conhecer um pouco melhor as origens da Harley-Davidson.

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William S. Harley e sua primeira “motocicleta”

A Harley-Davidson foi fundada por William S. Harley e seu amigo de infância Arthur Davidson, que em 1901 começaram a trabalhar em sua primeira moto – na verdade, uma bicicleta com motor de 116 cm³ que não conseguia subir ladeiras sem a ajuda dos pedais. Uma “proto-mobilete”, por assim dizer, que ficou pronta em 1903 e, apesar de fraca, foi encarada por Harley e Davidson como uma valiosa fonte de aprendizado.

A dupla começou imediatamente a trabalhar na sua segunda moto, que trazia um quadro dedicado e um motor maior, de 405 cm³. A fabricação em série de motores para serem instalados em bicicletas começou logo em seguida, bem como a montagem em quantidade limitada de motos completas. Em 1906, William Harley e Arthur Davidson abriram sua fábrica em Milwaukee, Wisconsin, no local que ocupa até hoje, mais de um século depois.

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Em 1907 o primeiro protótipo de um motor V-twin (dois cilindros em V) com 880 cm³ de deslocamento e 7 cv, foi apresentado. Apesar de ter quase o dobro da potência dos motores monocilíndricos feitos pela Harley, este primeiro V-twin vendeu muito pouco entre 1907 e 1910. Não muito tempo depois, porém, os V-twin passaram a ser os motores mais utilizados pela H-D. Em 1911 a Harley passou a empregar válvulas mecânicas em vez de válvulas “automáticas” que abriam e fechavam com o vácuo do motor, o que ajudava bastante no seu rendimento.

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Em 1908 a Harley produziu 450 motocicletas. No ano seguinte este número passou para 1200. Em 1913 a Harley Davidson precisou demolir a fábrica original e construir uma sede maior, com cinco andares, porque não havia estrutura suficiente para atender à demanda.

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Em 1914, 16 mil motos foram fabricadas. Em 1917 o exército norte-americano comprou 20.000 motos para uso na Primeira Guerra Mundial. Em 1920 a Harley-Davidson era oficialmente a maior fabricante de motocicletas do mundo, com mais de 28.000 exemplares produzidos naquele ano e concessionárias em 67 países.

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Nas décadas que se seguiram a Harley-Davidson apostou na durabilidade e no refinamento de seus produtos como principal atrativo, e deu certo. Você curte o ronco barulhento das Harley? Pois saiba que até os anos 60 uma das qualidades mais exaltadas das H-D era o sistema de escape com um eficiente abafador que filtrava boa parte do ruído do motor.

 

Isto começou a mudar quando a Honda chegou à América do Norte com sua universalmente aclamada Dream, scooter com câmbio semi-automático que se vendia como uma opção barata, econômica e simpática de transporte pessoal. A campanha da fabricante japonesa era baseada no slogan “You meet the nicest people on a Honda”, que pode ser traduzido livremente como “Você só conhece pessoas gentis de Honda”, então a Harley-Davidson decidiu seguir pelo sentido oposto.

Já havia décadas que os adeptos da cultura chopper, membros de motoclubes e gangues, adotaram a Harley-Davidson como parte de seu estilo de vida. O primeiro clube de proprietários de Harley, para se ter uma ideia, foi fundado em 1928 em Praga, na antiga Tchecoslováquia.

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Choppers dos anos 60

Já nos anos 40, depois da Segunda Guerra Mundial, começaram a surgir aqueles que, em vez de carros, preparavam e modificavam motos, removendo todos os itens que considerassem desnecessários ou exagerados, muitas vezes cortando (chopping) os metais cromados com motosserras. Eram os choppers, que por seu gosto musical mais voltado ao rock and roll e por atitudes de alguns membros, passaram a ser associados a crimes e arruaça no geral. Embora, como sabemos, as coisas não sejam sempre assim. Pelo contrário.

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Por conta disto, até os anos 60 a Harley preferiu manter-se afastada da cultura chopper. No entanto, após a invasão japonesa, a fabricante decidiu abraçar esta cultura e focar-se no “lado obscuro” do motociclismo, adotando uma postura mais agressiva, niilista e até anti-social.

Foi uma manobra considerada arriscada na época, mas só serviu para posicionar ainda melhor a Harley-Davidson no mercado. Com o passar dos anos, o “fator nostalgia” e o enriquecimento da geração que viu a Harley se tornar uma gigante nos anos 70 e 80 fez com que uma onda de compradores acima de 40 anos aparecesse, assim como jovens curiosos pra saber o que seus pais e tios enxergavam naquelas motos. Enquanto isto tudo acontecia, a Harley se pavimentava cada vez mais no imaginário popular norte-americano.

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A Harley-Davidson apostou exatamente na nostalgia, no patriotismo e na tradição da marca na hora de apresentar a Fat Boy em 1990. Os protótipos construídos em 1988 e 1989, assim como o modelo final, aproveitavam o clássico chassi da Harley Softail, que parecia um “rabo-duro” (sem suspensão traseira) mas trazia molas e amortecedores ocultos, remetendo ao visual clássico das motos dos anos 20 e 30.

“O Exterminador do Futuro 2” foi uma das melhores propagandas que a Harley-Davidson poderia desejar

Era uma moto mais larga e baixa do que as outras vendidas pela Harley, o que melhorava não apenas o conforto para o condutor, mas também tornava mais fáceis manobras rápidas como desviar de um obstáculo na pista, e também a pilotagem em baixa velocidade.

Só havia um problema: o nome da moto.

De acordo com a própria Harley, a “Fat Boy” tinha este nome por causa das suas dimensões e do ronco “gordo” do motor V-twin, que na época do lançamento deslocava entre 1,3 e 1,6 litro. No entanto, os detratores da companhia diziam que sua origem era muito mais controversa.

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Nos dias 6 e 9 de agosto de 1945, os Estados Unidos lançaram duas bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Ambas ficaram totalmente destruídas, e a população das duas cidades sofre até hoje com as consequências financeiras, ambientais e sociais dos impactos.

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As duas bombas se chamavam Fat ManLittle Boy, e foram lançadas por dois bombardeiros Boeing B-29 – batizados Enola Gay e Bock’s Car. Os aviões eram prata com detalhes amarelos.

Há quem acredite até hoje que a Fat Boy recebeu este nome em “homenagem” às duas bombas e foi apresentada na cor prata com detalhe amarelos por causa dos aviões. A atitude da marca quanto às rivais japonesas nos anos 60 é considerada um dos fatores que corroboram a teoria.

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As rodas fechadas da Fat Boy são outra de suas marcas registradas: sem raios, elas são inteiriças e abrigam discos de freio quase tão grandes quanto as próprias rodas. Pois dizem que elas são assim porque as rodas dos trens de pouso dos B-29 eram assim, também.

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A Harley-Davidson nega esta associação até hoje, dizendo que não passa de uma lenda urbana. Verdade ou não, o fato não afetou as vendas da Fat Boy. Pelo contrário: hoje em dia a Fat Boy é um dos carros-chefes (ou seria uma moto-chefe?) da H-D. E em 2017 ela ganhou um quadro totalmente novo e um inédito V-twin de 1,8 litro com comandos duplos nos cabeçotes e quatro válvulas por cilindro.

 

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