Ferrari 512S Modulo: a história do conceito de 1970 que só acelerou depois de quase 50 anos

Dalmo Hernandes 4 junho, 2018 0
Ferrari 512S Modulo: a história do conceito de 1970 que só acelerou depois de quase 50 anos

Em 1968 a Ferrari decidiu transformar um de seus carros de corrida em um conceito futurista. A chamada Ferrari Modulo ficou pronta em 1970, mas por uma infelicidade do destino jamais teve um conjunto mecânico de verdade para rodar sozinha, apesar de sua origem nas pistas. Mas isto finalmente mudou depois de quase 50 anos.

O nome completo do conceito é Ferrari 512S Modulo porque o conceito começou sua vida como um dos 25 exemplares da Ferrari 512S, carro de competição feito para encarar o Porsche 917 no WSC, o Campeonato Mundial de Protótipos-Esporte – que, claro, incluía as 24 Horas de Le Mans.

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A Ferrari 512S, cujo desenvolvimento foi capitaneado pelo engenheiro e projetista Mauro Forghieri, era um protótipo incrível: todo feito de alumínio; com um V12 de cinco litros corpos de borboleta individuais e 550 cv a 8.500 rpm e apenas 856 kg na balança. As curvas da carroceria ajudavam a gerar downforce nas curvas da pista, e é consenso geral que, em circuitos mais truncados, a 512 S deixava o Porsche 917 para trás. Para Le Mans, contudo, havia dois problemas.

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O primeiro e mais óbvio era a reta Hunaudières, onde o Porsche 917 levava vantagem sem sombra de dúvida. O segundo era um problema maior porque só ficou claro após suas consequências: o Porsche 917 foi desenvolvido alguns meses antes, o que garantia que ele era um carro mais confiável e melhor “amarrado” – as Ferrari sofreram muito com quebras em 1968 e 1969, o que acabou dando mais vantagem à Porsche e também à Ford, que (sempre é bom lembrar) venceu em Le Mans quatro vezes seguidas entre 1966 e 1969.

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Ferrari 512S nos 1.000 Km de Monza em 1970

Os problemas da Ferrari estavam na aerodinâmica, no peso e na potência do motor. Assim, em 1969 a Scuderia decidiu modificar o formato do bico, aumentar a potência do motor em cerca de 60 cv e reduzir o peso do carro em 40 kg. O resultado foi a Ferrari 512 M (de modificata), mas elas competiram por pouco tempo: em face das mudanças constantes no regulamento a Ferrari decidiu retirar-se do WSC. Alguns carros ficaram nas mãos de pilotos independentes, outros voltaram para as garagens de Maranello.

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Nem todos sabem, mas originalmente a Ferrari 512S Modulo era preta

Entre estes carros levados de volta para o interior da Itália estava a 512S de nº 27 (além dos 25 carros exigidos para a homologação, a Ferrari construiu mais oito exemplares) foi enviado ao estúdio Pininfarina para ser transformado em um show car. Da prancheta do designer Paolo Martin, chefe do departamento de estilo da casa de design, nasceu a Ferrari Modulo.

Na virada dos anos 70 o mundo ainda estava sob forte influência cultural da corrida especial. Enquanto Rússia e Estados Unidos disputavam para ver quem colocaria o primeiro homem na Lua, na música, no cinema e nas artes em geral, o que havia de mais quente era a estética futurista. Dois exemplos para te situar: Stanley Kubrick lançou o clássico do sci-fi “2001: Uma Odisseia no Espaço” (2001: A Space Odyssey) em 1968; e David Bowie lançou o single “Space Oddity” , uma balada melancólica sobre um astronauta terrestre perdido no espaço, em 11 de junho em 1969 – cinco dias antes da decolagem da espaçonave Apollo 11, que levou os primeiros seres humanos ao satélite natural terrestre.

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É fácil enxergar esta estética espacial na Ferrari Modulo, que foi um dos conceitos em forma de cunha que ajudaram a dar forma aos supercarros dos anos 70. Em vez das linhas sinuosas típicas da década anterior, linhas retas e marcadas, com perfil extremamente baixo e um único volume do bico à cauda do carro.

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O acesso ao interior se dava por um canopi deslizante, com um mecanismo que deslocava o enorme para-brisa para a frente. A carroceria em si era composta por duas metades quase simétricas, e havia uma abertura em cada um dos para-lamas, deixando as rodas parcialmente expostas.

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O interior era minimalista, com um volante (à direita!) cujos raios “entravam” no cubo de direção, enquanto os instrumentos ficavam todos enfileirados à esquerda. Os bancos eram almofadas revestidas de couro vermelho coladas à estrutura. Um dos detalhes mais curiosos, porém, fica por conta dos dois elementos esféricos nas soleiras, um de cada lado – são as saídas de ventilação, que no lado do motorista também abrigam os principais comandos do carro.

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Em tese a Ferrari Modulo era um carro totalmente funcional. Na prática, porém, ela percorreu o circuito de Salões do Automóvel, começando por Turim, em cima de um trailer, sem jamais mover-se por sua própria força. Isto porque, sendo feita com base em um carro de corrida, ela acabou cedendo seus componentes para outros exemplares da 512. Por isso, pouco tempo depois de ser revelada, ela foi levada para a sede da Pininfarina e lá ficou exposta por décadas sem motor.

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No fim dos anos 2000 a Pininfarina passava por sérios problemas financeiros, em uma crise que, embora parcialmente superada em 2012 com uma reestruturação interna, culminou em 2015 com a venda da Pininfarina à Mahindra. A fabricante indiana comprou 76% das ações do estúdio italiano, além de fábricas e protótipos. Mas a Ferrari 512S Modulo não entrou na negociação.

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Quem comprou o conceito, ainda em 2014, foi ninguém menos que Jim Glickenhaus, o empresário, piloto e entusiasta automotivo que já comprou briga com a Ferrari pelo direito de usar o nome da marca em sua Enzo modificada, a P4/5 by Pininfarina. Não precisamos dizer que o homem é bem relacionado com a empresa de design, não é?

O vídeo acima dá uma boa noção do que habita a garagem de Jim Glickenhaus – recomendamos que você também leia este post 

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Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido ao carro, porque James Glickenhaus é o tipo de cara que não gosta de ver automóveis parados. Nos últimos quatro-anos ele dedicou-se a tornar a Ferrari Modulo um carro totalmente operacional, o que incluiu a refação completa do conjunto mecânico – uma tarefa hercúlea, visto que Glickenhaus fazia questão de utilizar apenas componentes originais de época para o V12 de cinco litros e o câmbio de cinco marchas. Mas o trabalho compensou, como se pode ver no vídeo abaixo, que mostra a primeira volta da Ferrari Modulo, que finalmente chegou ao futuro.