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Folk Racing: a categoria de rali mais barata e divertida da Finlândia – onde todos os carros estão à venda!

Automobilismo é um esporte caro. Gasta-se dinheiro para praticar, gasta-se com o carro, com os equipamentos e toda a infraestrutura. E não estamos falando apenas de automobilismo profissional – mesmo categorias amadoras exigem um bom respaldo financeiro. É uma bela experiência, disso não temos dúvida. E quem pode começar desde cedo talvez até descubra que tem talento para a coisa e acabe seguindo a carreira de piloto.

Agora, se você estiver disposto a abrir mão de algumas coisas, pode se tornar um piloto sem gastar muito. Claro, há quem diga que sem zebras, pneus slick e sem que aderência, pontos de tangência, temperatura do asfalto e dos pneus e, claro, a preocupação com o prejuízo depois de um acidente, não é automobilismo de verdade. Mas, se o seu negócio é simplesmente acelerar e curtir um dia de corrida, você não vai se importar muito com isto. E, se for este o caso, a Folk Racing é a categoria perfeita para você. Até porque, na verdade, está mais para o rali.

Responda rápido: qual é o país que produz a maior quantidade de bons pilotos por metro quadrado? Se você disse “Finlândia” (ou até mesmo pensou sem dizer em voz alta) , acertou. Quer dizer, não é uma estatística de verdade, mas você há de concordar com a gente. A gente não precisa citar nomes, mas e daí? Kimi Räikkönen, Mika Häkkinen, Timo Mäkinen, Hannu Mikkola, Ari “Dear God ” Vatanen e mais uma porrada de caras com nomes meio parecidos merecem ser lembrados toda vez.

Toda. Vez.

Não por acaso, é da Finlândia que vem a Folk Racing. O nome, que pode ser traduzido livremente como “corrida popular”, não é por acaso: é uma categoria muito acessível, praticamente sem restrições e, cara, muito divertida. Saca só isso!

Na Finlândia, a Folk Racing é chamada de Jokamiesluokka, ou “categoria para todos” em tradução livre. É por isto que, na prática, você pode inscrever qualquer carro, com qualquer motor, desde que o motor tenha cerca de 200 cv. De qualquer forma, os circuitos, que lembram bastante estágios de rali, intercalando asfalto e terra, são projetados de forma a limitar a velocidade a cerca de 80 km/h.

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Foto: FinalGear.com

Parece pouco, claro, mas tente imaginar, aí mesmo onde você está, a sensação de fazer uma curva em uma estrada de chão, a 80 km/h, em uma nuvem de poeira, com mais cinco carros fazendo exatamente a mesma coisa a centímetros de você – é claro que toques são inevitáveis. E nem sempre são apenas toques. Vai dizer que não parece emocionante?

Não é à toa que os caras fazem isto há décadas. O vídeo abaixo, por exemplo, foi gravado de uma transmissão televisionada feita o fim da década de 1980, de acordo com a descrição:

As regras para entrar são bastante flexíveis:  a idade mínima para participar é de 15 anos, e não necessário ter carteira de habilitação. Há também uma altura mínima de 1,5 m. Fora isto, não há muito mais restrições para participar – jovens, adultos e idosos, homens e mulheres, todos têm espaço.

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Fotos: Magnum Sweden/Flickr

Estamos falando de uma categoria bastante democrática, disputada em áreas rurais, onde você começa a dirigir assim que tem tamanho para alcançar os pedais e enxergar por cima do volante. Assim, quem gosta da coisa começa a praticar desde cedo, e não é incomum que, ao atingir a idade mínima para participar da Folk Racing, o piloto já tenha boa noção de como controlar um carro em alta velocidade na terra.

As corridas costumam ser disputadas em seis baterias de seis carros. O vencedor de cada corrida faz sete pontos; o segundo, seis pontos; o terceiro, cinco pontos; e daí por diante. No fim, os seis pilotos com mais pontos disputam a corrida final, e o vencedor desta corrida é o campeão do evento.

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Foto: Lars Chrisén/Flickr

Também não é permitido bater intencionalmente, a fim de bloquear ou imobilizar um rival, sob o risco de perder sua licença (sim, há uma licença). Como já dissemos, toques são inevitáveis, e capotamentos não são raros. No entanto, todos os carros precisam ser equipados com gaiola de proteção integral, bancos concha e cintos de competição; e todos os pilotos precisam usar macacão e capacete. Estas medidas, mais a velocidade média de 80 km/h, tornam a Folk Racing bastante segura. Para uma corrida, claro – não precisamos falar que parte da graça do automobilismo, de qualquer forma que seja, tem a ver com o risco envolvido, não é?

Mas talvez a regra mais importante de todas tenha a ver com o que acontece depois de cada evento. Os carros todos são numerados e alinhados e todos os presentes – incluindo os espectadores – podem comprá-los, se quiserem. Isto mesmo: todos os carros estão à venda, e seus donos devem vendê-los, ou perdem suas licenças. Na Finlândia, o valor fixo costuma ser de € 1.000 a € 1.500, ou algo entre R$ 3.500 e R$ 5.000, em conversão direta.

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Foto: Daniel Wiberg/Flickr

Parece sacanagem, mas há um bom motivo: como há uma chance real de você ter que entregar seu carro a outra pessoa, as equipes não investem rios de dinheiro em seus carros, o que nivela a competição e ajuda a manter o custo baixo. Além disso, com o dinheiro obtido na venda de um carro, você pode comprar outro logo em seguida. Não é legal?

Existem versões da Folk Racing em outros países escandinavos, como a Noruega, onde se chama Bilcross, e a Dinamarca, Folkeræs. Os suecos chamam de Folk Racing, mesmo – e os caras do canal Carfection fizeram um documentário muito bom sobre as corridas realizadas na Suécia.

Lá, a maioria esmagadora dos carros inscritos é composta pelos Volvo e Saab, que são extremamente populares e abundandes em sua terra natal. Na Finlândia, a variedade é maior, como mostrou James May neste episódio de 2008 do Top Gear.

Captain Slow foi até a Finlândia para participar de uma Folk Race, e teve a ajuda de Mika Häkkinen para aprender a pilotar na terra. É quando vemos que, ainda que seja ex-piloto (e bicampeão) de Fórmula 1, Hakkinen também manda muito bem na terra. E vemos também que não é por acaso que há tantos bons pilotos de rali, e que as pistas de Folk Racing são tão parecidas com estágios de rali. Como May aponta (e Häkkinen confirma), parece que os finlandeses nascem com isto. E é por isso que eles gostam tanto da Folk Racing.

Agora, como já dissemos, estamos bem cientes de que esta não é uma corrida de automobilismo tradicional, e que os mais puristas talvez nem considerem a Folk Racing como uma forma legítima de automobilismo. Mas a gente não liga. Na verdade, estamos quase comprando uma passagem para a Escandinávia!

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