Ford GT: a evolução radical do supercarro nos últimos dez anos

Dalmo Hernandes 19 maio, 2017 0
Ford GT: a evolução radical do supercarro nos últimos dez anos

Depois de uma campanha extensa de teasers, imagens vazadas e informações despejadas a conta-gotas, a Ford finalmente revelou a versão de produção do Ford GT e já cedeu exemplares para avaliação – e nós até já compilamos as impressões da imprensa internacional. Mas ainda há o que falar, especialmente por que, sendo a segunda geração do Ford GT, as comparações com seu antecessor são inevitáveis.

Começando pelo conceito, o apelo do Ford GT de 2005 e do Ford GT de 2017 é totalmente distinto. O que eles compartilham são os emblemas na carroceria, o nome e parte da identidade visual, bem de leve. No mais, carros bem distintos.

Isto não é exclusividade do Ford GT, porém: os supercarros mudaram bastante nos últimos dez (ou doze) anos. Os grandes motores naturalmente aspirados foram sendo substituídos pelos sobrealimentados e, mais recentemente, deram lugar aos híbridos. O câmbio manual já era, pois a experiência de trocar as próprias marchas já não justifica sua adoção quando se trata de tempos de volta. Os câmbios de dupla embreagem estão cada vez mais rápidos, com algoritmos que permitem trocas mais rápidas e suaves em qualquer situação, a tração integral vem ganhando cada vez mais espaço, por suas vantagens em aderência e controle dinâmico. E, visualmente, eles estão cada vez mais radicais, com vincos e cortes na carroceria que administram o fluxo de ar com uma eficiência inimaginável há 10 ou 20 anos.

No caso dos dois Ford GT, isto também se deve, claro, à razão de ser de ambos. O primeiro foi um tributo ao primeiro GT40, pensado para se tornar um carro competente nas ruas (sendo eventualmente usado em competições), de visual retrô, feito sob medida para se tornar um colecionável. O novo GT, apesar de visualmente muito mais radical, tem mais a ver com o GT40 clássico, pois nasceu para competir e, na prática, é um especial de homologação para a categoria GTE da FIA.

Doug Demuro, colunista do AutoTrader, fez o que todo mundo queria fazer e colocou os dois GT, o atual e seu antecessor, lado a lado para uma comparação. Vale a pena assistir ao menos a primeira porção do vídeo abaixo para ter noção das diferenças entre os dois mas, naturalmente, vamos nos aprofundar um pouco mais na análise em seguida.

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O Ford GT anterior materializou-se pela primeira vez em 2002, como um conceito para comemorar o centenário da Ford e, por isto, foi projetado para reproduzir com a maior fidelidade possível as linhas do GT40 original, e o faz com sucesso. As soluções aerodinâmicas da época já eram bem mais evoluídas, mas esta não foi a maior preocupação da Ford, que criou o GT como um halo car.

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Repare como o acabamento usa plásticos simples e saídas de ar de aspecto barato, como se tivessem vindo de um Mustang ou até mesmo de um Fiesta. O volante é simples, e os comandos atrás dele também são compartilhados com outros carros

Era impressionante o fato de ele ser tão parecido com o antigo, e a mesma coisa pode ser dita do lado de dentro: apesar de, obviamente, ter um apelo muito mais civilizado, o GT de 2005 reproduz até mesmo o posicionamento dos instrumentos. Estes são analógicos, com o conta-giros enorme voltado para o motorista, e os comandos são praticamente os mesmos do resto da linha Ford na época.

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Os bancos de visual retrô, com furos para ventilação, são confortáveis apesar de esportivos, e o espaço na cabine é generoso. Ao dirigir um Ford GT, a sensação é a de um carro puramente de rua, relativamente confortável e confiável, feito com peças de prateleira. O motor, um V8 Ford Modular de 5,4 litros com supercharger, é derivado daquele utilizado pela Ford F-150 SVT Lightning, a super picape do fim da década de 1990.

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São 558 cv a 6.500 rpm e 69,1 mkgf de torque a 3.750 rpm canalizado por uma caixa Ricardo manual de seis marchas. Ao abrir a cobertura da traseira, revela-se todo o conjunto mecânico, a estrutura da suspensão e os pneus, e nota-se o quanto o carro é old school.

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Doze anos depois, temos um verdadeiro protótipo chamado Ford GT. O carro nasceu para vencer Le Mans, e a preocupação maior era esta — a maior homenagem possível ao GT40. Por isso, em vez de apenas utilizar um V8 e seguir a mesma linha estética, a Ford decidiu fazer um carro de corridas com o que há de melhor hoje em dia, exatamente como foi o GT40 (que usou até mesmo modelos computadorizados para desenvolver sua aerodinâmica em 1963!). Isso envolveu abrir mão do V8 em favor de um V6 biturbo – apesar de romper com a tradição, o motor Ecoboost de 3,5 litros com dois turbos (novamente emprestado da F-150, porém desta vez em sua versão Raptor) era o mais indicado para a tarefa, preparado para entregar 656 cv e 74,6 mkgf de torque.

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Um V8 supercharged pode até ser muito mais tradicional e americano, mas simplesmente não é mais apropriado para disputar uma corrida de 24 horas com automóveis muito mais avançados.

Por esta razão, o Ford GT novo também é um carro muito mais hostil para uso nas ruas. O interior é apertado, com bancos fixos de fibra de carbono, painel como componente estrutural (e com cluster digital), acessado por portas diedrais.

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Embora seja, visualmente distante do Ford GT40 original quando comparado ao modelo de 2005, o novo GT é conceitualmente muito mais próximo do carro de corrida da década de 1960. O posicionamento dos bancos no cockpit foi definido unicamente para permitir a carroceria em forma de gota. Se você pretende comprar um Ford GT de rua, tem de saber que ele é apenas uma consequência do carro de corrida

A carroceria é extremamente ousada, com as colunas C flutuantes (esse tipo de estrutura chama-se “arcobotante”) e os enormes vãos entre o habitáculo e os para-lamas traseiros que tem função puramente aerodinâmica (como explicamos detalhadamente neste post). Tudo no novo GT mostra como as coisas mudaram nos últimos dez anos, e também como sua volta tem uma motivação muito mais parecida com a do GT40 original. É praticamente um paradoxo.

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O desempenho do carro, obviamente, também é superior: ele vai de zero a 100 km/h em 3,2 segundos, e a velocidade máxima é de 347 km/h, enquanto o antigo leva 3,9 segundos para chegar aos 100 km/h e tem velocidade máxima de 330 km/h. No fim das contas, porém, os números são a coisa mais parecida que os dois carros têm. O Ford GT de 2005 era um carro retrô bacana, mas o novo GT é uma volta, de fato, ao espírito do GT40 original — especialmente depois da vitória na categoria GTE-Pro nas 24 Horas de Le Mans de 2016, novamente em cima da Ferrari.