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Frisos, emblemas, lanternas fumê: os detalhes mundanos que marcaram época nos carros brasileiros do passado

Se você acompanha fóruns e grupos sobre carros antigos na Internet, certamente já topou com comentários descrevendo minuciosamente cada detalhe de algum modelo em especial. Coisas como “Que beleza de Premio CSL! Essa versão tinha bancos de veludo, frisos cromados, lanternas fumê, ar-condicionado e painel exclusivo, com conta-giros! Tive um nos anos noventa, saudades daquele carro!”

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Nem tenho certeza de que realmente acabei de inventar este comentário –talvez até já o tenha lido em algum lugar. De qualquer forma, ele é um exemplo prático do meu ponto: certas características mundanas dos carros dos anos 70, 80 e 90 acabaram marcando época. Coisas simples, como revestimentos, apliques plásticos, adesivos, emblemas, ou mesmo soluções de design eram importantes para diferenciar versões especiais de versões comuns, e/ou fixar aquele determinado modelo na memória coletiva.

Hoje em dia, não somos mais tão impressionáveis. Mas você tem noção do quanto as coisas eram diferentes há 20 ou 30 anos?

Antes de os portões do nosso mercado se abrirem, ocorria um fenômeno curioso: a exaltação de elementos simples e detalhes sutis como diferenciais. Transformar o óbvio em extraordinário, vendendo-o como um diferencial.

Isto era mais comum do que você talvez se lembre, e ocorria, provavelmente, por causa do nosso mercado fechado. Imagine-se em 1989, 30 anos atrás. Você não pode comprar um Golf GTI Mk2, com motor 1.8 16v de de 140 cv. A alternativa nacional era o ilustre Gol GTi 2.0, lançado no ano anterior. E você certamente sabe de cor seus diferenciais em relação aos outros Gol: pintura metálica Azul Mônaco, para-choques na cor cinza, faróis auxiliares, adesivos GTi, painel satélite, bancos Recaro e, mais importante, um motor 2.0 com injeção eletrônica e 121 cv.

Foto: revista Carro

O motor era realmente um pioneirismo da Volkswagen no nosso mercado, e a decoração geral era de muitíssimo bom gosto. Mas é especialmente interessante notar a atenção e o destaque que se dava a estes detalhes estéticos – algo que não se faz mais hoje em dia. Como, em termos de projeto, nossos carros estavam atrasados em relação ao que se via lá fora, compensava-se  Estes detalhes viraram assunto nas rodas de conversa, e nunca mais deixaram de sê-lo. Como comentei ali em cima, eram coisas simples, ingênuas até. Mas, naquela época, elas eram especiais, e por isto, hoje em dia, são até cultuadas. Quer ver só?

Foto: Mercado Livre

As próprias lanternas fumê são um bom exemplo. Elas não estavam presentes apenas no Gol GTi e no Premio CSL. Quase toda versão mais cara, esportiva ou exclusiva tinha lanternas fumê – GTi/GTS, Santana Executivo e Escort XR3 são só os primeiros que vem à mente. Enquanto as versões mais simples e baratas tinham de se contentar com as tradicionais lanternas âmbar, as versões mais caras, com apelo esportivo ou luxuoso, exibiam orgulhosas suas lentes escurecidas.

Ainda no quesito iluminação: faróis auxiliares e de neblina. Antigamente, quando os carros ainda usavam para-choques bem destacados da carroceria, e não totalmente integrados como hoje, era fácil instalar um ou dois pares de faróis extras na dianteira. Gol GT, GTi e GTS se valeram deste recurso, bem como o Escort XR3.

Os hatchbacks esportivos daquela época, aliás, tinham quase todos uma característica comum: elementos em preto fosco na traseira. O Escort XR3 tinha uma moldura preta ao redor do vigia, na tampa do porta-malas. Os Fiat Uno R tinham a tampa traseira toda preta ou cinza, dependendo da cor da carroceria. O Gol GT tinha uma faixa em preto fosco entre as lanternas, que no GTS/GTi deu lugar a uma moldura plástica. Era a mesma coisa no Kadett GS, mas o elemento foi suprimido no GSi.

E como não lembrar dos frisos? Apenas as versões mais caras os tinham. Podiam ser cromados, como nos já citados Fiat CSL, no VW Santana ou no Escort Ghia, ou coloridos, como no Escort XR3 Mk4 ou nos VW esportivos. O fora-de-série Miura tinha frisos de neon nos para-choques, como que adiantando uma tendência que só seria vista duas décadas depois, no tuning dos anos 2000.

Foto: André Jacquillat

Alguns elevavam o friso a um novo nível, como o Chevrolet Monza SL/E de 1989 – ele tinha borrachões que tomavam quase metade das portas, e podiam ser combinados a outro elemento marcante: a pintura saia-e-blusa, que também podia ser vista no Opala Diplomata de meados da década de 1980.

Foto: Acervo Quatro Rodas

Outro detalhe curioso que estes carros geralmente exibiam eram emblemas e adesivos ostentando coisas comuns. Como os carros a álcool dos anos 70, 80 e 90, que muitas vezes traziam emblemas com a palavra “ÁLCOOL”. A Chevrolet os colocou em quase todos os seus carros até o fim dos anos 90, a Fiat o fez com o 147 (até porque ele foi o primeiro carro a álcool do Brasil), a Volkswagen os usava em toda a sua linha até o começo dos anos 80. Aqui, porém, cabe uma observação: na década de 2000, quando começaram a surgir os carros flex, aconteceu a mesma coisa.

Emblema usado na linha Corcel | Foto: Mercado Livre

Havia também emblemas que falavam sobre outras características, como a injeção eletrônica – os Chevrolet tinham emblemas E.F.I. (Electronic Fuel Injection) M.P.F.I. (Multi-point Fuel Injection). Outras marcas, como a VW e a Ford, usavam a letra “i”. Já o Fiat Uno tinha a versão Mille Electronic, que tinha motor carburado – mas a ignição era eletrônica.

Emblemas Turbo também foram muito utilizados em carros assim equipados. Em versões esportivas como o Uno Turbo, até dava para entender o apelo. Mas eles também estavam presentes em picapes com motor turbodiesel – que não eram esportivas, mas ostentavam emblemas Turbo na caçamba como se o fossem. A Ford F-1000 era um caso especialmente crítico, com a palavra TURBO estampada em enormes faixas laterais.

Foto: OLX

O design foi trocado, mais tarde, por uma desivo bem mais discreto.

Foto: The Garage

Isto não quer dizer, de forma alguma, que todos estes detalhes mundanos são simplesmente bobos, e muito menos que todos éramos uns deslumbrados nos nos 70, 80 e 90. Pelo contrário: este fenômeno é bem interessante. Embora sejam considerados mundanos hoje em dia, estes detalhes contribuíam muito para dar personalidade aos automóveis daquele cenário cheio de limitações, técnicas e financeiras, que era a indústria automotiva brasileira.

E alguns até adiantaram tendências mais atuais, como o Alfa Romeo 2300, que em suas versões mais completas tinham saídas de ar para os bancos traseiros – algo que, na época, era reservado às versões mais caras de modelos de topo. Aquilo era um luxo só na época, e hoje nos queixamos ao não encontrá-las em um sedã médio de R$ 100.000. O que faz todo sentido. Não faz?

Por isso tudo, há quem se orgulhe – com razão – de ter preservado um carro com encostos de cabeça vazados, frisos cromados, emblemas redundantes e lanternas fumê. E há até quem se orgulhe de saber que existia uma versão assim.

Foto: Rafa Souza/Run4Fun

Você, aliás, deve conhecer outros detalhes mundanos que marcaram época nos carros brasileiros. Sinta-se livre para citá-los nos comentários!

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