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Project Cars Project Cars #380

Fusca 1974 retrofit: a história do Project Cars #380

Fala, pessoal que acompanha o site mais gearhead da língua portuguesa! Sou eu novamente, Filipe Reis do PC#370, onde eu explico um pouco da convivência e dos desafios de “restaurar” um importado moderno numa cidade do interior. Se você ainda não viu, pode conferir aqui.

Mas como aqui não é o PC#370, vamos falar de Fusca, Beetle, Vocho, Escarabajo, Besouro… enfim… qualquer nome que ele tenha por aí. Aqui em casa é o porva. Porva? Sei lá, meu pai sempre chamou os Fuscas de porva… então porva ficou. Mas que raios é porva? Eu também não sabia e fui pesquisar. Segundo o dicionário informal:

1. Porva

Dinheiro (Fulano está com a porva! / Fulano trocou de emprego, ganha uma porva a mais agora.).

2. Porva

Gíria para cocaína (interior do estado de São Paulo). (Aquele, sim, curte uma porva.).

3. Porva

Mosquitinho lazarento que faz barulho no seu ouvido antes de dormir. (Matei os porva).

4. Porva

Termo usado no interior, o mesmo que prostituta. (Olha aquela porva!).

5. Porva

Coisa boa, de ótima qualidade, legal. (Isso é porva maluco.).

6. Porva

Porcaria, de má qualidade, que não presta. (Comprei aquela blusa por cem reais e no fim das contas era maior porva.).

Então resumindo: é uma droga (2) que suga seu dinheiro (1), que pra maioria das pessoas não presta (6), que quando arrumado chama a atenção por onde passa (4), faz um barulho infernal (3), mas que quando funciona direito te faz querer continuar andando (5). Acho que deu pra explicar bem o que é esse PC.

Antes de continuar, sugiro que você acabe com a sua produtividade e leia este texto publicado pelo FlatOut seis meses depois do que eu precisava.

Pronto? Então agora vamos explicar o que acontece quando alguém que não tem experiência nenhuma na restauração de carros antigos se aventura nesse meio.

 

Primeira máxima dos antigos: o barato sai muito caro

fusca (27)

Lembra aquele carro abandonado ou vendido, p*&# candidato para um PC, ofertado por um preço imperdível que você vem namorando há meses ou até anos? Sorry man, mas tenho que te dar uma péssima noticia. O tanto que você vai investir de tempo, dinheiro e angústia, é proporcional ao tanto de xingamentos que você vai ter no processo.

restauração

Se eu tivesse esperado seis meses para comprar o Fusca, talvez a história seria diferente, porém talvez eu não estivesse aqui escrevendo para vocês, então chega de choro e vamos começar a história.

 

O projeto

Quem leu o PC#370, na primeira parte eu explico os carros que passaram na minha garagem até chegar o WRX, no meio do caminho eu menciono o Fusca que surgiu como ideia de plano de negócios que eu precisava fazer como TCC do MBA que eu cursava na época.

singer

Vai falar que esse carro não é f&%*!

Sempre gostei dos Porsches feitos pela Singer, em um trabalho de restomod (lembrando que em sua maioria são 911 da geração 964 transformados para o visual da primeira geração), porém como aqui no nosso querido país as taxas de importação são exorbitantes e somente podemos importar usados com mais de 30 anos, e agora com o dólar mais instável que montanha russa, fica impossível importar um Porsche para saciar o desejo que tinha desde o NFS Porsche do PS1 (lá nos idos de 2000 com 10 anos de idade).

Surgiu assim, em 2014, com o plano de negócio, a possibilidade de estudar a viabilidade de uma oficina de customização e se desse tudo certo, abrir uma oficina real (juntar trabalho com hobby, perfeito!), porém os estudos não foram 100% o que eu esperava.

hb20s (7)

Na época eu tinha só o HB20S, estava com a mão coçando para fazer alguma coisa, mas me borrando de medo de modificar o carro e perder a garantia de 5 anos que eu estava pagando com salgadas parcelas mensais por ser o meu primeiro carro 0km. Precisava de uma base para poder modificar sem medo de perder a garantia, que fosse um veículo com muitas peças no mercado e que qualquer mecânico soubesse mexer.

pro-touring

Eu sei que não é um Opala… mas era pra fazer algo assim que eu imaginava

Primeiro pensei no Opala, fazer projetos estilo pro-touring com o clássico nacional ia ficar animal, mas achar algum em estado razoável por um preço acessível não aconteceu. Então, usando a Singer de base, elaborei um plano de negócios para montar um produto atraente, vintage e de custo acessível. Então já que seria uma “Singer de pobre”, vamos usar o mais próximo que temos de um Porsche barato no país, o Fusca (ele foi projetado por Ferdinand Porsche e se assemelha muito na parte mecânica ao primo rico, 356, então tá valendo).

356

O plano inicial era montar um Fusca com visual clássico da década de 60, interior em couro caramelo com costuras matelassê (vulgo diamante), suspensão, freios direção e motor novos, fazendo dele um lobo em pele de cordeiro, ou conhecido como sleeper.

Buscas e mais buscas no mercado livre para levantar o custo de tudo para estimar o custo de produção e o valor de revenda para o público. No final a lista consistia de:

  • Sistema de suspensão dianteira duplo A.
  • Freios à disco na dianteira.
  • Caixa de direção elétrica (de fit ou c3).
  • Bancos Rallye Design.
  • Alavanca de engate rápido EMPI Trigger.
  • Volante Lotse Big block.
  • Cubo saque rápido Lotse.
  • Câmbio com relação alongada SP2 (8×31).
  • Motor subaru (1.6, 1.8, 2.0 ou 2.2… basicamente o que estivesse disponível).
  • Injeção programável.
  • Ar-condicionado do Fusca mexicano.

fusca (32)

Perfeito! Projeto estruturado, orçado, daria para fazer um restomod top e acessível (mais barato que um popular 0km básico na época, aproximadamente R$30.000,00 como preço de venda já incluído o lucro e custos operacionais da empresa) para os que tivessem interesse em sair do marasmo de carros pratas e pretos que tem em nossas ruas (p&*$#, mas o Fusca é preto! – Calma que eu já explico, ou só no próximo post).

Projeto definido, vamos fazê-lo sair do papel.

 

A aquisição

Eu e meu pai fomos olhar vários Fuscas aqui em Ribeirão Preto, desde um 64 (que depois que um funileiro viu, disse para sairmos correndo, pois a carroceria estava soltando a parte interna da externa da chapa) um 68 que estava razoavelmente íntegro, mas que precisaria de reforma completa, até um 73 todo desmontado. O plano, como comentado, era um Fusca da década de 60 que é o que tem maior charme de carro antigo, porém os preços estavam muito altos para exemplares que precisariam de muito trabalho, tirando o 73 desmontado (que descartamos por conta de problemas com a documentação, estava no 3º dono sem transferir), não encontrávamos Fuscas por menos de 4.000 dilmas na ocasião.

Mas aí um pedreiro amigo da família nos contou que no bairro em que a sogra dele mora, um assentamento próximo da cidade, havia vários sítios com Fuscas e pessoas dispostas à vendê-los e por um preço acessível. Pegamos o Jeep Willys 61 do meu velho e fomos à caça. Tinha várias opções de alguns mais conservados por até R$4.500, e carcaças por R$500. Mas nenhum da década de 60. Já ficando meio desanimado comecei a pensar em desistir, estava impossível achar um Fusca do jeito que eu queria para o projeto. No caminho de volta comecei a pensar e decidi buscar um exemplar acima de 74, pois os preços não são tão inflacionados quanto os pré 73 (os que usam o farol olho de boi) e como todo Fusca é “igual” (só trocam os para-lamas) eu poderia deixar um Fusca mais novo com a cara de um mais antigo por uma fração do preço.

Então passamos em frente a um sítio que tinha dois Fuscas em uma garagem. Entramos, pedimos licença e fomos ver os carros, ambos 1300, um 1974 e outro 1978. Perguntamos se haveria a intenção de venda e a proprietária, uma senhora simpática chamada Ercília informou que sim. O 74 ocre marajó (marrom) que ela usava regularmente e estava com assoalhos novos e bancos de Fiesta estava em melhor estado e ela pedia R$2.300. O 78 branco não estava funcionando havia algum tempo, tinha um furo no assoalho em frente à bateria, teria que rever a suspensão e freios, porém tinha rodas de liga de época (posteriormente descobri serem Limbra em magnésio – não conheço a marca e não achei nada em pesquisas na net) estava por R$2.000. Falamos que iríamos pensar no preço e depois voltaríamos.

Na mesma época eu tinha acabado de comprar o jogo Forza Horizon para o Xbox 360, e tinha montado dois Fuscas no jogo que pra mim ficaram muito interessantes e poderiam ser montados: um com visual todo original e modificações no motor e rodas, enquanto o outro tinha um visual totalmente race car (sem para-choques, com aero, motor turbo, etc…).

Em casa, conversando com meus pais, estava quase tudo certo a fechar o negócio no marrom, porém pensei: duvido que eu tenha uma chance de barganhar como esta. Ela está disposta a vender os dois carros, e eu tenho 2 projetos que quero fazer, vou montar um pacote e levar os dois! Conversei com meu pai e ele achou que valia tentar.

Voltamos no dia seguinte ao sítio e conversa vai, conversa vem, fechamos a compra dos dois Fuscas por R$3.700,00 no valor total. Car*&%$, p&%$ negócio! 2 pelo preço de 1. Mais pra frente eu conto o resultado dessa ação. Levamos os Fuscas pra casa, eu sempre com o Jeep na escolta para caso atolasse ou ficasse na mão, teríamos como rebocar e meu pai levou os Fuscas por conta da experiência a mais de volante que ele tem. Na ida com o marrom, descobriu que ele só freava 1 das rodas da frente, puxando violentamente o volante para um dos lados, com o branco foi pior, não existia freio, fomos até em casa com ele usando o freio de mão.

Chegando em casa e mando foto das novas aquisições para a namorada e a resposta que eu tenho é: Que p*&$# é isso? Deu pra imaginar como estavam as condições dos carros? Não tem problema, segue uma foto deles abaixo. Isso aconteceu em dezembro de 2014.

 

Primeiros passos

Eu não tinha condições de tocar os dois projetos ao mesmo tempo, foquei então no projeto que seria mais barato para revenda e com maior apelo para o público, o vintage.

Primeiro passo foi colocar freios à disco na dianteira (pois em conversa com o Fábio Purgalis, proprietário do PC#85, Fusca com motor de WRX, ele me disse que o sistema de disco e tambor originais eram suficientes para o carro). Começa o ano de 2015 e eu comprei cavaletes e um macaco para podermos mexer no carro em casa sem usar tocos de madeira para apoiá-lo. Tiramos as rodas e… um adaptador na frente. Rodas de 4×130 e tambores de 5×205 e suspensão dianteira de eixo estreito com amortecedores de olhal. Os Fuscas com cinco furos não saíram com freio à disco, então seria necessário trocar, até porque o eixo traseiro já estava com tambores de quatro furos (que durante o conserto descobrimos serem de Brasília, maiores que os de Fusca).

PQP! Mas que salada está esse carro! Tambores de Brasília quatro furos atrás, cinco na frente, bancos de Fiesta, suspensão dianteira de Fusca antigo e depois descobrimos que o motor tinha bloco liso!! Explico: segundo a dona Ercília, o carro foi comprado pelo cunhado dela que é mecânico lá no início dos anos 90 só como carcaça, pois o carro tinha sido roubado e depenado. Ele remontou o veículo com as peças que tinha na época e depois vendeu o carro pra ela (tenho o DUT de 1994 no nome do cunhado dela junto com a última guia de IPVA do Fusca).

Agora que já estava descobrindo os segredos ocultos do porva, começamos a caçada de peças para deixá-lo atraente para venda. Na busca por ferros velhos da cidade, o que era para ser simples, se tornou algo mais complicado, pois, não era tão fácil assim encontrar peças usadas de Fusca. A maioria dos ferros-velhos hoje tem carros da segunda metade da década de 90 e anos 2000. Por sorte encontramos um eixo dianteiro moderno com embuchamento e freios à disco com pinças (e pagamos um preço justo).

Não tirei foto na época do eixo quando compramos, mas demos sorte de encontrar um com discos, pinças e manga de eixo.

Aqui em Ribeirão Preto existe uma loja chamada Casa do Fusca, onde tem quase tudo que precisa para manutenção do carro, até mesmo os para-lamas antigos, porém novos (por salgados R$500 cada).

Com o eixo em mãos, o colocamos dentro do Fusca e levamos para um especialista em eixos de VW aircooled colocar. Deixando o carro na oficina ele informa que não daria para instalar o eixo novo no carro, pois as dimensões dos eixos são diferentes, sendo o eixo antigo mais estreito. Havia 2 soluções: trocar a ponta do cabeçote do chassi pelo mais moderno, ou encurtar o eixo que levamos para encaixar na furação antiga. Ele informou que esse era um procedimento comum que ele realizava e que, fazendo as contas, ficava mais barato que levar para um funileiro trocar o cabeçote.

Na hora de buscar o carro, ele informa que precisou trocar o cilindro mestre (que era simples, um circuito para as quatro rodas por um duplo, separando os freios dianteiros dos traseiros) porém ele isolou os freios traseiros porque não estava pegando pressão e fazia com que o freio dianteiro não funcionasse também.

Compramos as peças (duas vezes, pois da primeira vez não sabíamos que os freios eram de Brasília e na hora de montar, não serviu) para arrumar o freio traseiro e começamos a mexer em casa com a ajuda de vídeos do Tonella. Freio traseiro pronto, sangramos e nada de pegar pedal… ficava no fundo e não subia. Levamos em um especialista de freio que disse que foi só necessário trocar uma haste que liga o pedal ao cilindro mestre que estava muito curta e não dava todo o curso. Agora o Fusca até travava as rodas ao frear. Perfeito!

Dimensões tambor Brasília

Diâmetro Interno: 248 Mm
Diâmetro Interno Máximo: 250 Mm
Diâmetro Externo: 279 Mm
Altura Total: 70 Mm
Diâmetro Do Furo: 86 Mm
Largura Da Pista: 54 Mm

Dimensões tambor Fusca

Diâmetro Interno: 230 Mm
Diâmetro Interno Máximo: 231,5 Mm
Diâmetro Externo: 272,5 Mm
Altura Total: 68 Mm
Diâmetro Do Furo: 86 Mm
Largura Da Pista: 52 Mm

Encerro este post do mesmo jeito que encerrei o primeiro post do PC#370, com a funilaria (pelo menos desta vez, vocês (e eu) não precisam esperar, pois já aconteceu). Estamos em fevereiro de 2015 e o prazo dado foi de 45 dias. “Aham Cláudia, senta lá!”.

fusca (4)

Até mais!

Por Filipe da Costa Reis, Project Cars #380

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