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Golden Sahara II: o conceito de 1956 que previu o futuro reaparece depois de meio século

Estamos em 2019, e a humanidade olha para o futuro com cada vez mais preocupação. O prognóstico para os próximos 50 anos não é dos melhores – há muito o que resolver caso queiramos sobreviver até lá. Em contraste, há cinco ou seis décadas atrás, o panorama era bem mais otimista e o futuro parecia muito mais cheio de possibilidades. A crise do petróleo ainda levaria vinte anos para acontecer, a Corrida Espacial estava a pleno vapor, e só se falava em como seria a nossa sociedade depois do ano 2000.

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Os carros sempre foram uma janela para vislumbrarmos tais previsões. Hoje, conceitos elétricos e autônomos tentam antecipar um futuro sem emissões e amplamente automatizado. Da mesma forma, conceitos dos anos 50 tentavam nos mostrar como seria o carro do amanhã. E um deles era especialmente impressionante: o Golden Sahara II, que ganhou forma pelas mãos do lendário George Barris e deixou muitos queixos no chão quando fez uma turnê pelos EUA a partir de 1954, aparecendo também em filmes e programas de TV no começo dos anos 60. Agora, depois de cinco décadas desaparecido, o Golden Sahara II foi restaurado e exibido no Salão de Genebra de 2019.

George Barris, que morreu em 2015 aos 89 anos de idade, é considerado um mago das customizações para o cinema. Sua criação mais conhecida certamente é o Batmóvel usado na série de TV do Batman em 1966 – que, por sua vez, era o conceito Lincoln Futura, apresentado pela Ford em 1955, modificado por Barris sob encomenda dos produtores.

O Golden Sahara, por sua vez, nasceu de um acaso: Barris e um amigo rebocavam um Lincoln Capri 1953 novinho em folha, porém com o motor fundido, quando acertaram a traseira de um caminhão cuja distância do solo estava perfeitamente alinhada com o teto do carro, que foi arrancado violentamente no impacto.

O carro provavelmente era parecido com este, antes do acidente

Por sorte, Barris e seu amigo saíram ilesos. E o carro, fora a perda do teto, também estava relativamente íntegro. Não demorou para que Barris tivesse a ideia de criar um carro customizado usando o Lincoln como base.

Para isto, ele procurou James Skonzakes, mais conhecido como Jim Street – que era colecionador de carros, cliente e amigo de Barris, e poderia se interessar em financiar a ideia. Street topou na hora, e se juntou a Barris para desenvolver o carro.

A ideia de George Barris era mesmo criar um automóvel do futuro – como dissemos, aquela era a tendência da época. Ele, então, praticamente construiu uma nova carroceria, aproveitando pouquíssimo do metal original e dando ao Capri formas muito mais extravagantes, com para-lamas salientes, linha de cintura mais baixa, “rabos de peixe” duplos e muito mais pronunciados, e um canopi em forma de bolha.

Detalhes de acabamento que geralmente eram cromados, como para-choques, frisos e molduras, foram folhados com ouro 24K. Já a pintura branca recebeu um componente especial para obter o efeito perolizado: escamas de sardinha, adquiridas diretamente de um mercado de peixes – era uma alternativa mais barata ao pó de ouro, que foi considerado, porém descartado pelo alto custo.

As rodas tinham calotinhas de vidro que se projetavam para fora e serviam como setas, e eram calçadas com pneus desenvolvidos pela Goodyear com um composto translúcido. Com lâmpadas em seu interior, os pneus se acendiam com uma luz laranja, arrematando o visual futurista do Golden Sahara II.

O lado de dentro combinava com o exterior. O painel, que foi todo remodelado, era revestido com tecido brocado branco e dourado, assim como o banco dianteiro inteiriço. O console central recebeu uma tela de TV (de certa forma, prevendo as centrais multimídia que temos hoje), e o carro também foi equipado com um gravador e um telefone. Já o banco traseiro deu lugar a um minibar com compartimento refrigerado, copos, taças e bebidas.

E não era só isto: o carro também tinha alguns sistemas elétricos que se tornariam comuns cinco décadas depois, como o acionamento das portas por controle remoto (que também podia ser usado para dar a partida no motor e controlar a direção, o acelerador e os freios); e a inclusão de duas antenas de rádio no para-choque, que serviam como sensores e detectavam possíveis obstáculos à frente dos carros – mandando um sinal elétrico para que os freios se acionassem “sozinhos”. Por conta disto, há quem considere o Golden Sahara II um dos primeiros carros autônomos da história – feito impressionante para um conceito feito de forma totalmente independente, sem o apoio de fabricante alguma.

O carro fez sua estreia em 1954, em uma exibição realizada no Petersen Automotive Museum, em Los Angeles, e dali partiu para uma turnê pelos EUA, marcando presença em encontros e até mesmo concessionárias, que alugavam o Golden Sahara para atrair curiosos – que, afinal, eram clientes em potencial. Além de promover o carro, os eventos ajudavam a recuperar os gastos na execução do protótipo, que saiu por estimados US$ 75.000 – o equivalente a cerca de US$ 695.000 nos dias atuais.

O auge do Golden Sahara II foi sua aparição no cinema – ele era o carro do protagonista do filme de fantasia romântica “Cinderelo sem Sapato” (Cinderfella), de 1960, protagonizado por Jerry Lewis e Anna Maria Alberghetti.

Dois anos depois, o carro também apareceu em um programa de auditório chamado I’ve Got a Secret, bastante popular nos EUA na época, onde o próprio Jim Street apresentou alguns de seus recursos.

Pouco depois, Jim Street decidiu, abruptamente, retirar-se do circuito de eventos automotivos e levou com ele o Golden Sahara II, que passou as cinco décadas seguintes guardado em um galpão. Foi só em maio de 2018, cinco meses após a morte de Street, que o conceito foi trazido de volta aos olhos do público por seus familiares, que o colocaram à venda na Mecum Auctions.

O Golden Sahara foi arrematado por US$ 350.000. Logo em seguida, seu comprador – um colecionador chamado Larry Klairmont, de Chicago – mandou restaurar o carro por completo, chegando ao ponto de procurar a Goodyear para fabricar novos pneus transparentes e reproduzir o efeito visto originalmente na década de 1950.

Agora, o Golden Sahara II está em Genebra, mostrando que o futuro dos anos 1950 não era tão diferente quanto o que aconteceu.

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