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Gran Turismo 2: o game que me transformou em um gearhead

Eu tenho 22 anos, o que significa que sou membro mais jovem da equipe do FlatOut! Mas também significa outra coisa: que fui criança na década de 90. Passei a infância jogando videogames, e um dos que mais joguei na vida foi Gran Turismo 2. Se hoje gosto de carros, em grande parte devo isso ao Real Driving Simulator do PSOne. Por isso vou falar um pouco sobre ele.

Gran Turismo, o primeiro game da série, foi desenvolvido pela e publicado pela Sony Computer Entertainment e lançado para PlayStation no Japão no dia 23 de dezembro de 1997. A equipe que criou o jogo foi batizada de Polyphony Digital, e desde então foi a responsável por cada um dos games da série desde então.

Apesar de Gran Turismo se vender como um simulador desde seu lançamento, qualquer um que tenha tido contato com um simulador de verdade — como rFactor ou iRacing, só para ficar nos mais conhecidos e que têm nomes começando em minúsculas — sabe que GT nunca foi um simulador de verdade. Os games da série estão mais para arcades com elementos de simulador, como a compra de carros, possibilidade de customização e realizar acertos nos carros.

Pelas aberturas dos 5 primeiros games da série dá para notar a evolução técnica dos consoles do fim dos anos 90 até hoje

Mas isso não é nenhum demérito. Pelo contrário: Gran Turismo é bacana justamente por conseguir equilibrar com maestria a jogabilidade arcade com as melhores caracteríticas de um simulador, agradando o jogador casual e, quase sempre, o levando a querer se aprofundar e aperfeiçoar. E, inevitavelmente, semeando nele a semente que irá germinar e torná-lo um gearhead.

Foi assim comigo. O primeiro game de corrida que joguei na vida foi Gran Turismo. Fui apresentado a esportivos japoneses, como Nissan Skyline GT-R R33, Honda NSX, Toyota Supra, Mazda RX7; americanos, como Corvette e Viper; e até a alguns ingleses, como o Aston Martin DB7.

Fiquei um bom tempo jogando o modo Arcade, treinando até conseguir vencer qualquer corrida em que eu participasse. Então decidi dar uma chance ao Simulator Mode, e foi aí que a diversão começou.

Mas este post fala sobre Gran Turismo 2 por uma razão, e você já vai entender este corte brusco. Você deve conhecer o básico do modo Simulação da série Gran Turismo: você começa com pouco dinheiro — a moeda corrente da série são os Credits, ou Cr$ — e precisa comprar um carro barato. Mas primeiro, é bom tirar as licenças — permissões para competir nas várias corridas do jogo, conseguidas através de desafios que têm a finalidade de te ensinar como pilotar um carro e cuja dificuldade vai aumentando até a última licença. Afinal, não adianta ter um carro e não saber — nem poder — correr com ele. Com o dinheiro, você compra mais carros, mais peças e assim vai montando uma garagem dos sonhos.

O sistema funcionava muito bem em Gran Turismo, mas o game ainda tinha poucos carros, e quase todos japoneses. Há um bom motivo para que, mesmo 15 anos depois de seu lançamento, o segundo game da série seja considerado o melhor de todos.

Gran Turismo 2 chegou em novembro de 1999 e melhorou tudo o que game anterior já fazia muito bem: o número de carros aumentou, a trilhas sonora era impecável, as licenças ficaram mais técnicas e o controle dos carros ficou mais preciso — além dos gráficos absurdamente realistas para um game de console, na época.

Os carros

Se Gran Turismo inovou pela variedade — você podia pilotar um carro de corrida, um esportivo, um sedã familiar ou um kei car japonês —, GT2 ficou ainda mais generoso e passou a oferecer 400 carros. E a variedade aumentou: além de novas marcas japonesas, carros americanos, alemães, italianos e britânicos de todas as épocas passar a integrar as opções.

musclecar

Muscle Car Superbird é o nome dele…

Claro que, sendo um game japonês, Gran Turismo dava um destaque maior para os carros da Terra do Sol Nascente. E isso não é ruim — afinal, como reclamar de um jogo onde, em um momento, você pode pilotar um Honda Civic Type R e, no outro, um Honda NSX? Mas agora, você podia cruzar o Pacífico e comprar um Chevrolet Corvette, um Dodge Viper ou um Dodge Charger Superbird e depois atravessar o Atlântico para ir buscar seu BMW 335i E36, Fiat Coupé ou Mercedes-Benz E 55 AMG.

ruf yellowbird

E, com mais de 400 carros, creio ser seguro dizer que muitos entusiastas mais jovens mergulharam neste mundo maluco de nomes, marcas e tipos de carros. E não só de grandes fabricantes — a inglesa Lister, com seu Storm, a francesa Venturi e a japonesa Tommy Kaira também marcavam presença. Sem nos esquecermos da alemã Ruf — que era uma maneira esperta de colocar alguns Porsche no game mesmo sem a licença da marca de Stuttgart.

O dono deste canal do YouTube postou vídeos de todos os carros. 

Pena que não dava para correr com o Ruf CTR2 “Yellowbird” em Nürburgring Nordschleife, que só apareceria na série em 2004, com o lançamento de Gran Turismo 4.

As pistas

A série Gran Turismo começou apenas com circuitos originais, e muitos se tornaram clássicos como Trial Mountain, High Speed Ring e o estágio noturno de Route 5. Mas Gran Turismo 2 foi quem começou a tradição de incluir circuitos reais, com Laguna Seca, além de circuitos baseados em lugares reais como, Seattle Circuit, Tahiti Road, Pikes Peak e Grindelwald — este último baseado nos arredores de uma pequena cidade na Suíça, e o único circuito da série a aparecer apenas em Gran Turismo 2.

A inclusão da subida de montanha de Pikes Peak representou outra evolução de GT2: a introdução de eventos de rali em pistas de terra e de carros de rali reais, como o Peugeot 206, o Ford Escort e o lendário Suzuki Escudo, com seus quase 1.000 cv.

Highway to heaven

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Obviamente, você não via tudo isso logo de cara. O modo Arcade servia para uma corrida casual, mas todo mundo que joga Gran Turismo sabe que a base de todos os jogos da série é o modo Simulation. Ao acessar o menu principal e ver todas aquelas cidades, onde ficavam as “lojas” das marcas, a Wheel Shop e o ícone quadriculado onde se lia GO RACE, você notava que aquele game tinha ficado bem maior — por isso mesmo vinha em dois CDs em vez de um. Mas antes você precisava clicar no ícone do cone para tirar suas licenças. Eram cinco níveis, cada um com dez testes de dificuldade crescente. Cada uma liberava corridas diferentes e, obviamente, você precisava de todas elas para participar de todas as corridas.

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A licença B Class servia para te ensinar noções básicas de frenagem, aceleração e curvas. A licença A Class trazia um nível mais avançado, e assim por diante. Como se não bastasse, ao terminar a licença International A Class, você liberava a Super License. Ela não te dava nenhum benefício extra, mas você tinha que bater 10 tempos de volta em 10 pistas diferentes com 10 carros diferentes. E, em todas as licenças, caso conseguisse o troféu de ouro em todos os testes, você ganhava um carro de presente.

Eu costumava conseguir pelo menos a licença B antes de comprar meu primeiro carro — normalmente um Supra Turbo de terceira geração (usado, claro) — embora existissem algumas corridas “free”, que não exigiam licença e permitiam que você ganhasse algum dinheiro.

De qualquer forma, a partir daí você pode começar a vencer corridas, acumular créditos e comprar carros. Algumas corridas eram relativamente fáceis e garantiam de presente alguns carros muito bons, enquanto outras eram praticamente impossíveis de serem vencidas — como as provas de longa duração, de até 99 voltas, que foram introduzidas em Gran Turismo 2.

Em algumas semanas, era possível ter uma garagem bem diversificada e cheia de clássicos, carros de corrida potentes e algumas extravagâncias. Havia carros inúteis que apareciam apenas de vez em quando nas lojas de usados, havia carros especiais que eram prêmios em algumas corridas difíceis, e havia simplesmente uma variedade muito grande de opções nas lojas de carros novos. Por isso, o fator replay de GT2 era realmente muito alto — com uma garagem limitada a 100 carros, você sempre queria se desfazer de um para dar espaço para outro.

Aula de mecânica

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Com alguma experiência de jogo, era possível deixar de confiar 100% nos acertos “de fábrica” dos carros e brincar com alguns ajustes que o game permitia. Cada marca oferecia um espaço onde você podia comprar upgrades para o motor, transmissão, suspensão, freios e pneus. As opções variavam de carro para carro: alguns podiam ser turbinados, enquanto outros permitiam apenas preparação aspirada. Carros mais fracos não podiam receber modificações muito extremas, enquanto outros podiam se tornar verdadeiros canhões. Mas todos podiam receber rodas novas, compradas na Wheel Shop.

Comprados os componentes, você escolhia quais seriam utilizados antes de cada corrida, e podia até mesmo alterar as relações de marcha, a distribuição de força nos freios e aliviar peso. Minhas primeiras noções de mecânica e dinâmica automotiva vieram daí, e tenho certeza que muitos de vocês se identificam com isso.

Legado

Gran Turismo, o primeiro game da série, pode ter sido a pedra fundamental para esta série de sucesso, que acaba de ganhar seu sexto game, lançado em dezembro do ano passado para PS3.  Contudo, foi GT2 que introduziu muitos conceitos usados até hoje, como as corridas de rali e a personalização básica dos carros, e que deu a dica de que a franquia estaria em constante evolução desde então.  Se hoje aguardamos ansiosos o anúncio de quais pistas do mundo real estarão no novo GT, é porque lá em 1999, os caras da Polyphony colocaram Laguna Seca no jogo. Se hoje temos uma lista que ultrapassa os 1000 carros, isso se deve ao salto que GT2 deu sobre GT no quesito.

Gran Turismo 2 também era um game muito democrático, que agradava tanto o gamer casual que queria algo mais realista, quanto o fã de simuladores que queria algo mais descompromissado. Você era obrigado a pilotar com certa precisão, mas não precisava ser um especialista, e você podia moldar várias características do carro a seu gosto, mas não era obrigado a fazer isso. Na minha opinião, esta flexibilidade foi algo que se perdeu ao longo dos anos. A série ficou mais realista, obviamente, mas também ficou mais técnica.

Talvez seja a nostalgia falando, porque eu até hoje ouço as músicas da excelente trilha sonora, que tinha Rob Zombie, Garbage, Stone Temple Pilots e a clássica My Favourite Game, do The Cardigans, na abertura da versão americana, e passo alguns minutos relembrando todas as horas que passei jogando. Mas eu faço coro com muitos fãs que dizem que Gran Turismo 2 é o melhor capítulo da franquia. Para mim, é mesmo.

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