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Car Culture

Grupo S: a categoria de rali sucessora do Grupo B que morreu antes de nascer

Todo fã de rali que se preze já lamentou-se ao menos uma vez pelo fim do Grupo B — mesmo aqueles que nasceram na década seguinte ou até depois, tamanha é a fama da categoria. Não é para menos: os carros eram verdadeiros monstros de motor central-traseiro, levemente baseados em modelos das ruas, e acabavam virando séries especiais de homologação que são cultuadas por milhares de entusiastas mesmo três décadas depois.

Não é a toa Grupo B ficou conhecido como “a era de ouro do WRC”. Mas o que teria acontecido se a categoria não tivesse sido extinta naquele 1986? É bem provável que tivesse sido substituída pelo Grupo S, categoria que estava sendo formulada em segredo em meados da década de 1980. Contudo, a violência dos últimos anos do Grupo B acabou com qualquer chance de algo parecido surgir.

Quando falamos no fim do Grupo B, é preciso levar em consideração os acontecimentos que levaram a FIA a acabar com a categoria. O Grupo B surgiu quando os organizadores do Campeonato Mundial de Rali perceberam que muitas fabricantes queriam participar da competição, mas poucas tinham carros que ofereciam chances de vitória. Isto porque, naquela época, carros de tração traseira e integral estavam dando lugar aos carros de tração dianteira — que eram bons e práticos nas ruas, mas tinham menos chances nos estágios de terra (com algumas exceções, como os Saab de Stig Blomqvist).

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Para dar uma chance a estes fabricantes foi idealizada uma categoria na qual competiriam veículos de dois lugares, com motor central-traseiro e turbo. A exigência era que pelo menos 200 unidades de uma versão mais mansa, para as ruas, fossem produzidas e comercializadas — os especiais de homologação, que respondem por boa parte do saudosismo do Grupo B. Afinal, quem nunca quis acelerar um Peugeot 205 T16 ou um Ford RS 200? Sem o Grupo B, estes carros não existiriam — as regras flexíveis permitiam que os fabricantes inventassem sem limite na hora de criar os carros e, se não quisessem, não precisavam usar como base modelos já existentes.

A “falta” de limites acabou dando origem a uma categoria extremamente rápida, competitiva e empolgante, na qual competiram os melhores pilotos da história — Ari Vatanen, Henri Toivonen, Juha Kankkunen e Walter Röhrl fizeram história no Grupo B (só para citar alguns) e protagonizaram momentos históricos, como quando o  Vatanen fez seu navegador exclamar “dear God!” depois de uma recuperada especialmente tensa. Era de ouro, de fato!

Acontece que o Grupo B foi simplesmente cancelado depois de uma sequência de acidentes graves acontecidos entre 1985 e 1986 — alguns fatais, como o de Attilio Bettega em seu Lancia 037 no Tour de Corse de 1985; as mortes de Henri Toivonen e seu navegador, Sergio Cresto, exatamente um ano depois, também no Tour de Corse; e a tragédia com o Ford RS200 de Joaquim Santos em Portugal, com 31 espectadores feridos e três mortos. O que seria dos ralis agora?

A preocupação com a segurança e a altíssima velocidade dos carros do Grupo B — não raro os motores turbinados dos carros chegavam aos 700, 800 cv — já existia havia certo tempo e, nos bastidires, a organização da prova reuniu-se com alguns dos fabricantes mais influentes para falar sobre a criação de uma nova categoria.

O chamado Grupo S foi feito para ser mais empolgante que o Grupo A, que usava carros de produção preparados, e mais seguro que o Grupo B. Sendo assim, novamente os carros poderiam ser desenvolvidos especialmente para a competição — desde que vinte ou trinta carros de rua fossem fabricados e comercializados. A potência máxima foi estabelecida em 300 cv, e os carros poderiam usar motores de aspirados de 2,4 litros ou motores turbo de 1,2 litro. Além disso, planejava-se intruduzir um peso mínimo de 1.000 kg, gaiolas de aço padronizadas e até testes de impacto. Tudo para reduzir as fatalidades sem acabar com a graça da coisa toda.

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Os carros não poderiam passar por modificação alguma no projeto durante a temporada, mas na seguinte as coisas ficavam mais fáceis: o fabricante só precisaria construir dez exemplares de rua do carro modificado para homologar a “evolução”.

De qualquer forma, ajustes de última hora não seriam exatamente um problema para alguns fabricantes que, mesmo antes de a nova categoria ser anunciada, já estavam com projetos bem encaminhados. A Audi, por exemplo, tinha o RS 002 — um carro com motor de cinco cilindros turbinado de estimados 1.000 cv, carroceria aerodinâmica que lembrava um protótipo Le Mans com proporções de carro de rali e, claro, tração integral (você pode ler tudo sobre ele aqui).

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A Lancia, que protagonizou dois dos acidentes que levaram ao fim do Grupo B, também tinha um projeto em andamento: o Lancia ECV, que usava como base o Lancia Delta S4, porém com algumas diferenças estéticas e um novo esquema de pintura Martini Racing, com fundo vermelho em vez de branco. O motor era um quatro-cilindros de 1,8 litro que entregava 600 cv com a ajuda de dois turbocompressores.  A Lancia ainda desenvolveu o ECV2, com a mesma mecânica, porém uma carroceria mais aerodinâmica e pintura branca.

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Até a Toyota se arriscou com o 222D, um protótipo baseado no esportivo MR2 com um quatro-cilindros biturbo de 750 cv, responsáveis por mover os 750 kg da carroceria de Kevlar. Sim, 1 kg/cv — imagine o monstrinho que isto seria!

Infelizmente, com os acidentes de 1986 a ideia de criar uma “versão mais segura do Grupo B” acabou abortada pela FIA, bem como os projetos nos quais os fabricantes estavam trabalhando, alguns havia anos O Grupo A, com carros menos potentes e de construção mais tradicional, se tornou a categoria de topo do Rali Mundial — sendo, em 1997, substituída pelos World Rally Cars, que competem até hoje.

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