Edição diária: 20/06/2019
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Car Culture

Hachi roku: a história e glória do Toyota AE86

Em 1983 a Toyota decidiu acompanhar as mudanças do mercado mundial e projetou uma nova plataforma com tração dianteira para a quinta geração do Corolla, conhecida pelo código interno E80. Em paralelo ao novo projeto, os engenheiros receberam outra ordem: “produzam um carro digno de exigir habilidade de seu motorista, como nos velhos tempos”. Nascia assim o mito do AE86.

Do projeto derivaram dois modelos quase idênticos: o Sprinter Trueno, com os faróis ocultos como mandavam as regras do design moderno da época; e o Corolla Levin, com os consagrados faróis retangulares do restante da família. Tanto o Levin quanto o Trueno poderiam ser comprados nas versões cupê ou liftback, mas somente as versões equipadas com o motor 4A-GEU de 1,6 litro eram denominadas AE86. Este motor tinha alimentação por injeção eletrônica, duplo comando de válvulas com admissão variável, e gerava 130 cv de potência e 14 kgfm de torque na configuração japonesa e europeia.

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A força era transmitida ao eixo traseiro pelo câmbio manual de cinco marchas, que poderia ser combinado a um diferencial de deslizamento limitado como opcional. Os freios a disco recebiam ventilação, e a suspensão era McPherson independente na frente e four-link com eixo rígido (live axle) atrás, ambas com barras estabilizadoras.

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A combinação de baixo peso — entre 900 e 1000 kg —, a boa distribuição de peso da configuração motor dianteiro com tração traseira e a potência razoável a um custo acessível obviamente atraiu uma legião de fãs de velocidade, entre eles o jovem piloto Keiichi Tsuchiya que seria conhecido mais tarde como ドリキン – ou “rei do drift” em bom português – e elevou o AE86 ao status de ícone com o vídeo Pluspy, de 1987, onde demonstra sua arte de fazer curvas de lado nas montanhas japonesas a bordo de seu Sprinter Trueno.

A base mecânica do AE86 serviria de prato cheio para todos os preparadores fãs do estilo JDM. O sucesso mundial do AE86 foi reforçado ainda mais pelo mangá/anime Initial D, onde o protagonista Takumi Fujiwara ajudava seu pai fazendo entrega de tofu nas montanhas japonesas a bordo de um Sprinter Trueno branco, idêntico ao de Tsuchiya. Já nos anos 2000 ele seria incluído em games como Gran Turismo, Need For Speed e Forza Motorsport, consolidando de vez sua imagem de esportivo popular japonês.

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Em 1987 a Toyota encerrou a produção de ambos os modelos, aposentando a tração traseira na linha Corolla e consolidando a transformação do modelo em algo barato, de mecânica confiável e fácil manutenção para o consumidor comum, mas sem maiores apelos. Um carro “bege”, como os americanos costumam dizer.

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De todos os grandes ícones do drifting, o AE86 talvez seja o mais simples e comum – afinal, uma mera variante do Corolla feita em uma plataforma antiga, é algo que tinha tudo para dar errado — mas acabou marcando os anos 1980 tanto quanto os supercarros de sua época. Mas há algo especial nesse carro, algo que vem se perdendo à medida que a tecnologia evolui e faz com que as pessoas desejem carros cada vez maiores e mais potentes e automatizados: a essência do prazer de dirigir.

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Algo que, por incrível que pareça, a própria Toyota (em parceria com a Subaru) deu o primeiro passo para ajudar a trazê-lo de volta.

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