Hidrazina: o aditivo mais perigoso já usado nas pistas

Rodrigo Passos 7 dezembro, 2017 0
Hidrazina: o aditivo mais perigoso já usado nas pistas

3,5 segundos. É o tempo que um top fuel leva para sair da imobilidade completa e chegar aos 540 km/h em 305 metros. Poucas coisas no mundo conseguem um deslocamento assim violento. É praticamente como pilotar uma explosão. O negócio explode e você precisa manter a expansão em linha reta. Agora… imagine se em vez de uma metáfora, essa descrição — pilotar uma explosão — fosse exatamente o que acontece com o carro? Não precisa imaginar: esse é o efeito da hidrazina no motor. Uma substância instável e imprevisível, que você coloca no tanque do carro e não sabe quando ela vai explodir.

A hidrazina é uma daquelas descobertas incríveis que os corredores das antigas descobriram em sua busca por maior desempenho. Ela foi utilizada pela primeira vez como combustível na Segunda Guerra Mundial, quando os alemães da Luftwaffe desenvolver um combustível para seus Messerschmitt Me 163 Komet, um avião interceptador movido a foguete. E se ele abastece foguetes militares… deve ser bom para os carros de corrida, não?

Não. E o caso acontecido na final da temporada 2017 do Velopark Series, ocorrida nos dias 18 e 19 de novembro, mostra o problema de se usar esse tipo de aditivo em seu carro de corrida.

Antes de nos aprofundarmos no post, é preciso entender a nossa posição. Não estamos fazendo juízo (e nunca foi nossa praia), nem cantando regras sobre qualquer recurso utilizado pela equipe Tuero, responsável pelo Gol 1007. Além do que, o regulamento técnico da CBA e da VP Series não fazem qualquer menção ao tipo de combustível utilizado. Eles somente proíbem o uso do óxido nitroso.

 

If the ground is shaking…

Vejam este vídeo mais completo do acidente; ele mostra o momento anterior à largada. E aos 10 segundos quando a piloto sobe a rotação para o burnout de aquecimento dos pneus. O escape cospe chamas verdes.

Foto I

Comparando as imagens da esquerda e da direita, podemos ver semelhanças na cor das chamas. Nos dois casos os foguetes não completaram as provas. Mas para o funny car que compete pela NHRA (associação que não permite o uso de certos aditivos), a justificativa para a coloração das chamas veio da queima dos anéis de vedação dos cilindros, que são feitos de cobre. A foto foi tirada pouco antes da explosão.

Foto II

Se você se interessa por arrancada e já leu histórias sobre os primórdios desse esporte na gringa, com certeza a cor das chamas e o resultado da puxada trouxeram uma palavra a sua mente. Hidrazina. Este composto extremamente instável e tóxico foi usado por uma série de equipes quase suicidas que buscavam tirar mais fatias do tempo de passagem no quarto de milha. Era um artifício tão extremo, que quem o usava não gostava de falar sobre isso. Mas vários ditos mostravam o quanto aquilo era arriscado.

“Um rato de laboratório pegou câncer só de pensar nessa coisa!”

“Acho que o grego (Chris Karamesines) ainda detém o recorde de altura de lançamento para um blower…”

“Essa coisa é o inferno em gotas, mas no fim era bom. Eu testei uma vez numa velha panhead… grande erro”

Vejam o depoimento de Richard Hutchins, um dos corredores da época.

“É uma coisa mortal. Corra com 5% e se tudo der certo, você fará uma boa puxada. E mandará algumas pessoas para o hospital por causa dos gases da queima. 2% é seguro. Vi carros serem rebocados e explodirem no pit. É por conta disso que o governo fez o que fez com ele.”

A NHRA (National Hot Rod Association) baniu o uso de hidrazina a partir da década de 60, mas isso não impediu seu uso por mais algum tempo. Este é um dos compostos com acesso restrito, controlado pela maioria dos governos mundiais.

Outro relato fala que vários corredores dos lagos de sal usaram a Hidrazina como aditivo nos velhos flatheads sem nenhuma alteração mecânica. Os motores facilmente pulavam dos 90 para os 300 hp, por muitas vezes quebrando dinamômetros nas oficinas. Mas os motores só duravam o suficiente para uma passagem de medição.

Foto III

A foto acima mostra o que sobrou de um motor que explodiu depois de usar o combustível. Outra história da época conta que um competidor insistiu em conseguir um pouco de “molho especial”. Ele foi instruído a não usar tudo de uma vez, mas claro, ele não deu ouvidos. Quando a mistura fez efeito, o fueler em cima do trailer fazia um som monstruoso. O sujeito assustado dava voltas no carro arrancado os cabos de ignição do Hemi, mas ele continuava rodando como se estivesse a 10 mil rpm. Então o virabrequim explodiu. Imaginem a cena…

Foto IV

Muitos dos recordes dos anos 60 estão diretamente ligados a Hidrazina. Vejam só. Em 1965 um Dodge dos Ramchargers (leia mais sobre eles aqui) foi o primeiro carro com carroceria original a quebrar a barreira dos oito segundos (8,91 s) nos 402 metros. Anos depois foi declarado que o tanque continha 10 cm³ de Hidrazina. Em 1967 um Comet cravou oito segundos baixos (8,28 s) na Indy Nationals com uma receita parecida.

Os professores pardal da época diziam que a mistura não se tornava perigosa de imediato, levava entre 20 e 30 minutos para a reação acontecer e em 45 minutos você estava com uma bomba (das grandes) nas mãos. Há um relato que mostra o como o tempo era um fator de risco quando se trabalhava com essa bomba-relógio.

“Eu lembro que em 1965 haviam 32 carros disputando. Só que os três primeiros pares não estavam legais, e acabaram jogando óleo na pista. Mesmo com uma limpeza rápida os comissários levaram 25 minutos para liberar a pista novamente. Quando o quarto par alinhou AMBOS explodiram na linha de largada. Walton e eu ficamos em pânico! Começamos a drenar nossos tanques imediatamente, quando eu olhei para trás. Acho que outros seis ou oito carros também estavam drenando seus tanques…”

 

Rocket fuel baby…

Eu não sei dizer se o pessoal tinha a real noção do risco que a hidrazina representa. Misturas de Metanol (CH₃OH)) e Nitrometano (CH₃NO₂) já eram amplamente utilizadas nos anos 60 para abastecer os fuelers. Mas a combinar essa solução com a hidrazina (N₂H₄) gera nano partículas de Nitroformato de hidrazínio (?!), um sal que é hipergólico, ou seja, ele não precisa da presença do oxigênio para entrar em combustão. Este sal auto-ignita em temperaturas acima dos 165⁰C e gera uma onda de choque mais forte que o TNT. Sim meu amigo, eles estavam abastecendo os dragsters com explosivos, igual o Willy Coyote.

Foto V

A hidrazina pura e outros derivados desta são usados como combustível para foguetes. Sendo combinada com oxidantes como o Tetróxido de nitrogênio. Sendo inflamável em concentrações entre 2% e 98% de volume (A gasolina tem inflamabilidade em concentrações entre 1% e 6%). Estas características permitem o uso de um motor extremamente simples, já que não necessita de um sistema de partida. O professor Andrea Sella explica detalhadamente como funcionam os pares hipergólicos e mostra a queima instantânea da Dimetil-hidrazina a partir dos 3:45 do vídeo.

Como dissemos mais acima, esse combustível foi utilizado durante a Segunda Guerra pelos alemães em seu jato Messerschmitt Me-163, equipado com o motor HWK 109-509 o qual queimava uma mistura de 30% de hidrazina, 57% de metanol e 13% de água. Devido à esta propulsão os aviões eram instáveis e por muitas vezes explodiram em voo. Nos foguetes temos como exemplo o Titan II e os R-36 da extinta URSS.

Foto VI

Ainda hoje usa-se Hidrazina para abastecer o gerador de emergência dos aviões F-16, devido a sua confiabilidade no quesito ignição. O gerador deve ir de 0 a 24 mil rotações em menos de 1 segundo para garantir a partida da turbina caso esta apague em voo.

Foto VIII

Então, galera, essa é uma homenagem aos pioneiros que em sua busca pelo menos tempo acabaram empurrando os limites do esporte, mesmo de forma perigosa. Alguns de vocês devem ter ficado interessados em esse combustível do capeta. Lembrem-se. Ele é altamente cancerígeno, corrosivo e instável. Na boa: esqueçam esse negócio.

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