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Car Culture

Hipnose de estrada: quando seu corpo dirige o carro sem ajuda da mente

“Eu já estava na pole, primeiro por meio segundo, depois por um segundo, e eu continuei baixando. De repente eu estava dois segundos mais rápido que todos os outros, incluindo meu colega de equipe com o mesmo carro. E repentinamente eu percebi que já não estava mais pilotando o carro conscientemente. Estava pilotando por um tipo de instinto, como se eu estivesse em uma dimensão diferente. Foi como se eu estivesse em um túnel, não apenas o túnel do hotel, mas todo o circuito era um túnel. Eu estava indo e indo e cada vez mais e mais e mais rápido. Estava bem acima do limite, mas ainda capaz de encontrar muito mais. Então eu acordei”.

Com essas palavras que Ayrton Senna descreveu sua pole position do GP de Mônaco de 1988, quando colocou brutais 1:47 de diferença sobre Alain Prost, que tinha exatamente o mesmo McLaren MP4/4 para acelerar nas ruas do principado. Para muitos, essa sensação descrita por Senna foi uma experiência transcendental, resultante de sua obstinação em andar cada vez mais rápido, como se a velocidade fosse seu mantra.

O vídeo mostra uma volta alucinada de Senna em 1989, infelizmente a volta da pole de 88 não foi gravada

A velocidade e a obstinação foram fundamentais para Ayrton chegar a esse estado psicológico, mas a experiência em si não foi algo místico como pareceu. O que aconteceu com ele foi algo muito mais comum do que parece: a hipnose de estrada.

A hipnose de estrada é um estado mental no qual uma pessoa é capaz de dirigir longas distâncias, freando, acelerando, trocando marchas, ultrapassando, fazendo curvas e até desviando de obstáculos, porém inconsciente de estar fazendo tudo isso. Você talvez já tenha passado por isso: em um segundo você está dirigindo, no outro você está em casa. O que aconteceu no caminho? Você não sabe dizer pois estava “hipnotizado”.

Outra situação é quando você está dirigindo há muito tempo, concentrado em um objetivo — como chegar em casa, por exemplo, ou então massacrar seu rival na pole position — e de repente você deixa de perceber o ambiente ao seu redor. Sua visão se torna um túnel, os elementos ao redor da pista ficam borrados, e você fica vidrado no traçado.

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Os primeiros relatos desse fenômeno psicológico apareceram em 1921, quando um artigo científico sobre o “hipnotismo da estrada” foi publicado, discorrendo sobre como as pessoas viajando em estradas apontadas para um horizonte distante tendiam a entrar em uma espécie de “estado de transe”.

Mas por que raios isso acontece? Como acabamos “desligados” de algo que requer concentração e como conseguimos dirigir sem causar acidentes nesse estado?

Em uma explicação simples, por causa da automaticidade do ato de dirigir. Automaticidade é a capacidade de fazermos certas coisas sem ocupar a mente. Geralmente a automaticidade é resultado de aprendizado, repetição e prática. Um exemplo simples é andar de bicicleta. Você não precisa pensar para pedalar e se equilibrar. Você só faz.

Mas a automaticidade não explica a hipnose de estrada, afinal, é possível dirigir no automático mantendo a concentração. Fazemos isso na maior parte do tempo. A automaticidade, nesse caso, permite a hipose da estrada. Pouco depois da primeira menção a essa hipnose, um outro artigo científico intitulado “Dormindo com os Olhos Abertos” supunha que pessoas em situações monótonas geralmente tendiam a entrar em um estado semelhante ao sono, porém sem fechar os olhos. O exemplo utilizado foi exatamente as viagens longas. Esse artigo foi publicado em 1929 e, tanto ele quanto o outro, de 1921, especulavam que esse “transe” dos motoristas eram a causa de muitos acidentes de trânsito sem explicação aparente.

Hoje a maioria dos psicólogos aponta vários fatores relacionados à monotonia da tarefa, à fadiga e ao tédio do motorista e à facilidade de dirigir um carro. A fadiga é um dos principais fatores, uma vez que a hipnose de estrada é muito semelhante ao sono — é por isso que não se recomenda dirigir cansado, ainda que sem sono.

Outra teoria é relacionada à sensação descrita por Senna. Um estudo antigo ligou a hipnose de estrada à fixação em um ponto da pista. Um outro estudo, publicado em 1978, indicou que a repetição desse cenário pode acabar levando nossa visão àquela condição de olhar vidrado de quando desligamos do ambiente ao nosso redor. No caso de Senna, é provável que o estado de fluxo — quando você se concentra tanto que desliga do mundo ao seu redor —  tenha o levado momentaneamente à hipnose de estrada.

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Mas como conseguimos reagir aos elementos do trânsito mesmo assim, hipnotizados? É que seus olhos fazem pequenos movimentos mesmo quando você está vidrado. Esses movimentos geralmente são uma resposta a estímulos externos, são movimentos de atenção. Assim, é possível que, durante a hipnose de estrada, os olhos respondam ao que acontece à frente do carro, mas como o cenário não varia significativamente, eles não “acordam”, nem alertam o cérebro.

E aqui voltamos à automaticidade: como dirigir é um ato relativamente simples, sem muitos detalhes e a automaticidade resulta da prática e repetição, conseguimos responder a esses pequenos estímulos visuais dirigindo o carro mesmo “hipnotizados”.

Quanto à pole de Senna, ao se dar conta de ter “entrado em outra dimensão”, ele ficou assustado e tirou o pé, voltando lentamente para os pits. “Fiquei assustado por que estava muito além da minha compreensão consciente”. Ironicamente, na corrida, Senna liderava com mais de 50 segundos sobre Prost, quando perdeu a concentração por alguns instantes e passou reto na Portier, uma curva à direita que antecede a entrada do túnel de Mônaco. Bateu sozinho e abandonou na 66ª volta.  Teria ele ficado “hipnotizado”, ao tentar a todo custo abrir a maior vantagem possível sobre Prost?

 

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