A história de Nelson Piquet contada por ele mesmo… em uma escola de Brasília

Leonardo Contesini 8 fevereiro, 2018 0
A história de Nelson Piquet contada por ele mesmo… em uma escola de Brasília

Nelson Piquet é um piloto polêmico. Começar um texto com um clichê nunca é uma boa opção, mas desta vez achei necessário. O clichê não está em dizer que Nelson Piquet é polêmico, mas sim dizer que qualquer pessoa com convicções fortes é alguém “polêmico”.

A imagem de Piquet que se formou no imaginário popular tem muito a ver com o antagonismo a Ayrton Senna. Enquanto o paulista demonstrava sua obstinação e procurava os holofotes,  Nelson foi um personagem lacônico. Nunca gostou de falar sobre sua vida pessoal e, em certas entrevistas parece até intimidado pela câmera (como no vídeo abaixo). Boa parte do que se sabe de sua biografia foi narrada por amigos ou assessores em livros, e temperada com declarações pessoais. Senna entendia a importância da imagem midiática, e a trabalhou como poucos pilotos na história.

Por esse motivo é comum encontrar fãs de automobilismo que acham Piquet antipático. Não se sabe de boas-ações de Nelson Piquet, não se sabe muito sobre sua religiosidade, e sua consciência sobre suas qualidades somadas à timidez às vezes o fazem passar por arrogante.

Esta imagem, contudo, é algo fora do controle de Piquet, que nos últimos 25 anos esteve mais preocupado em cuidar de seus negócios do que cultivar uma imagem de herói da F1 e cultivar publicamente seu legado na categoria — algo que começou a mudar nos últimos anos, depois que voltou a participar das cerimônias e a pilotar seus antigos carros em eventos de clássicos como Goodwood Festival of Speed.

É desta mesma época que vêm estes dois vídeos que estamos compartilhando abaixo. No dia 5 de outubro de 2013, Nelson foi convidado a fazer uma palestra aos alunos do Colégio Militar Dom Pedro II, para falar sobre sua vida e seu sucesso pessoal e profissional, algo meio motivacional, mas que rendeu aquele que talvez seja o melhor registro sobre “o verdadeiro” Nelson Piquet e a história de sua vida e sua carreira.

Nele temos um tricampeão da F1 sentado em uma cadeira, com um microfone na mão diante de uma modesta plateia de adolescentes, contando sua vida, desprovido de qualquer recurso artificial. A (falta de) qualidade do vídeo, provavelmente gravado com um celular ou uma câmera de mão é emblemática e reforça a sensação de modéstia e humildade da situação. Em 2013 Nelson provavelmente nem imaginava que esta palestra acabaria no YouTube (quatro anos mais tarde) ou ainda que estivesse ciente disso, não poderia imaginar a repercussão que ele renderia.

E é tudo isso que torna este registro tão especial: é uma conversa espontânea e despretensiosa. Como um homem sábio transmitindo seu conhecimento às novas gerações. Ao longo da conversa Nelson relembra as fases de sua carreira e em algumas ocasiões precisa pedir licença para se recompor, pois fica visivelmente emocionado com as memórias —  especialmente quando fala do início de sua carreira, quando foi à Europa praticamente sozinho para conquistar o sonho de ser um piloto profissional. Não de chegar à Fórmula 1, mas apenas de conquistar uma corrida a cada vez.

E essas dificuldades encontradas em seu início na Europa mostraram como ele se tornou o “mecânico mais rápido do mundo”, como já o definiram. Piquet tem ciência de seus méritos — a ideia de aquecer pneus e motor antes da largada, ajustes de freios e barras estabilizadoras, métodos pouco ortodoxos de redução de peso, ter sido campeão da F3 britânica com recorde de vitórias etc —, mas não os atribui à genialidade, e sim à capacidade de improvisar diante das adversidades e, sempre, às pessoas que o ajudaram — desde seus amigos da Câmber em Brasília, a Niki Lauda em sua primeira temporada na Fórmula 1.

Mais adiante Nelson também fala sobre sua equipe favorita na F1, aproveita para debochar do Nigel Mansell (não poderia faltar, afinal), como o acidente em Ímola afetou sua pilotagem, conta um pouco sobre como praticamente iniciou a era do GPS no Brasil ao pedir pessoalmente a Itamar Franco que criasse meios para contratar os serviços dos satélites brasileiros e como a idade vem pesando na hora de pilotar seus carros de corrida.

Enfim, chega de papo. Prepare seus fones de ouvido, e reserve a próxima hora para conhecer melhor Nelson Piquet de um jeito que raramente se vê.