Honda HA-3R: a história do mini-caminhão japonês que virou um protótipo do Grupo C

Dalmo Hernandes 8 agosto, 2018 0
Honda HA-3R: a história do mini-caminhão japonês que virou um protótipo do Grupo C

Foto: Sad Machines.net

É incrível que, em pleno 2018, ainda existam segredos neste mundo. A gente vive em uma sociedade que compartilha tudo o tempo todo – e isto inclui, claro, project cars que são documentados passo-a-passo nas redes sociais. E foi por isso que ficamos tão intrigados quando encontramos o cara da foto aí em cima: o Honda HA-3R.

À primeira vista parece um bólido do Grupo C, categoria de protótipos criada pela FIA para provas de longa duração que foi introduzida pela FIA em 1982 e deu origem a verdadeiros ícones como os Porsche 956 e 962, o Mazda 787B e o Jaguar XJR-8, só para citar três. Há poucos registros visuais do carro e ainda menos informações circulando por aí, mas nos últimos dias veio a público sua história. Quer dizer, parte dela. Mas, acredite, já é interessante o suficiente.

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Caso você não saiba ou não se recorde, os carros do Grupo C foram criados para substituir uma das categorias mais liberais da história automobilismo da FIA: o Grupo 5. Eram os chamados Special Production Cars – carros produzidos em série que eram modificados quase sem limites. Só era preciso fazer com que o teto do carro, o o capô, os para-lamas dianteiros e as colunas “A” fossem iguais aos utilizado nos modelos de produção.

Considerando que os carros do Grupo 5 já eram quase protótipos, fazia sentido. Os motores não tinham limite de deslocamento, mas de consumo de combustível – era permitido reabastecer o carro no máximo cinco vezes a cada 1.000 km. Para a FIA, era uma forma de evitar que as equipes se concentrassem apenas no desenvolvimento de motores mais potentes e se preocupassem com outros aspectos do carro, como o peso e a aerodinâmica.

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Parecia um tiro no pé, visto que uma das coisas mais legais do Grupo 5 eram justamente os motores absurdamente potentes – o famoso Porsche 935, por exemplo tinha um flat-six turbinado que passava dos 800 cv em acerto de classificação. Mas no fim das contas os bólidos do Grupo C eram carros muito bonitos, extremamente potentes e muito velozes. Resumindo, o plano da FIA deu certo, e hoje em dia olhamos com muito saudosismo para os carros que disputaram o Campeonato Mundial de Endurance sob o regulamento.

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No Japão eles são especialmente populares – tanto que lá existe um pessoal privilegiado que anda nas ruas com seus protótipos valiosíssimos, como o Porsche 962C e o Mazda 767B (o antecessor do 787B, único japonês do Grupo C a vencer as 24 Horas de Le Mans). Os carros foram devidamente convertidos e, podem ter certeza, são mais exóticos que qualquer supercarro.

Pois aparentemente nos anos 90 alguém decidiu fazer algo parecido. E foi quando o Honda HA-3R entra em cena.

Mazda, Nissan e Toyota tiveram seus próprios protótipos do Grupo C. A Mazda, com seus já citados 767B e 787B, ambos com motor Wankel; a Nissan teve o Skyline Turbo C, que foi um dos únicos da categoria com motor dianteiro, além do mais tradicional R90C; e a Toyota competiu com o TS010, que era movido por um V10 de 3,5 litros.

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Estes carros até participavam do circuito europeu de provas de longa duração, mas não conseguiram muito destaque no Velho Mundo. Dentro de casa, porém, eles atraíam multidões quando participavam de torneios como o All Japan Sports Prototype Championship, no qual também competiam (e venciam) os protótipos da Porsche.

Apenas a Honda não tomava parte nestas atividade. Na época a fabricante estava focada em fornecer motores para a Fórmula 1, e havia um bom motivo: os carros da McLaren equipados com motores Honda eram imbatíveis, e abocanharam quatro títulos consecutivos entre 1988 e 1991 com Ayrton Senna, Alain Prost e Gerhard Berger ao volante.

Isto ficou claro? A Honda jamais criou um protótipo para o Grupo C de endurance. Mas já há alguns anos as imagens deste carro, o Honda HA-3R, circulam pela Internet. E agora?

É difícil determinar quando a dúvida a respeito da verdadeira identidade deste “protótipo” começou a incomodar entusiastas ao redor do mundo. Há um post no Car Throttle, feito três anos atrás, questionando se alguém tem alguma informação. Uma discussão postada no Reddit há cerca de dez meses faz a mesma coisa. E ninguém sabia dizer ao certo do que se tratava o tal do Honda HA-3R.

Então, em outubro de 2017, uma página no Facebook chamada Kanjo Racers publicou uma foto do carro em uma garagem no Japão, dizendo o seguinte:

Ocorre que o Honda HA-3R é um Honda NSX customizado e radicalmente modificado, fabricado por uma oficina de tuning do Japão. Eles usaram o chassi do NSX, e o modificaram com o regulamento do Grupo C em mente.

Aparentemente esta explicação era bem aceita, e fazia sentido. De fato a maioria dos carros do Grupo C usava construção monobloco com subchassis na dianteira e na traseira, com o motor atrás do piloto. Não era uma fórmula muito diferente do que se via no NSX, com seu V6 central-traseiro montado na transversal.

No entanto, o NSX tinha 2.630 m de entre-eixos, algo que parece meio incompatível com o carro das fotos. Na verdade todo ele, apesar de parecer muito bem executado, tem proporções meio esquisitas – note como o cockpit é é baixo, com para-brisa quase horizontal, e como as bitolas parecem estranhamente estreitas.

Um leitor, Filipe Prando Russo, nos mandou um link do Twitter no qual um usuário aparentemente japonês postou algumas fotos de uma revista antiga. Nela é possível ver claramente imagens do Honda HA-3R e de seu processo de construção.

E foi quando percebemos que a história do NSX modificado provavelmente foi uma invenção ou erro de tradução. Porque o carro é, na verdade, um kei truck transformado em protótipo de corrida!

Um kei truck é como um kei car mas, em vez de ser um mini-carro, é um mini-caminhão. Todas as regras para kei cars se aplicam: comprimento máximo de 3,4 metros, largura máxima de 1,48 m, peso máximo de 770 kg e motores que podem ter até 660 cm³ de deslocamento e 64 cv. Desde 1977 a oferta da Honda no segmento é o Acty, um simpático caminhãozinho cuja característica mais interessante é o posicionamento do motor.

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Está vendo aquela tampa na caçamba? Ela dá acesso ao motor, que fica logo à frente do eixo dianteiro. Sim, como em um superesportivo. Mas estamos falando de um pequeno três cilindros de 656 cm³ e 38 cv, que era capaz de levar o Acty até os 115 km/h sem carga.

“Mas… por que alguém se daria ao trabalho de transformar um mini-caminhão tão lento em um carro de corrida do Grupo C que sequer existiu de verdade?”, talvez você esteja se perguntando. Para nós é mais fácil perguntar “por que não fazê-lo?” Os japoneses gostam de transformar seus kei cars em esportivos, como já vimos neste post – há muitas versões em miniatura do Nissan GT-R, do Toyota Supra, do BMW M3 e do Subaru Impreza WRX de primeira geração feitas sobre kei cars. Nenhum destes carros anda muito, mas todos são no mínimo divertidos de olhar. E são homenagens mais do que dignas a grandes ícones entre os esportivos.

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O nome do carro dá a dica de sua origem: HA-3 é o código da segunda geração do Honda Acty. Fora isto, as imagens mais recentes que temos do carro são estes dois scans de uma matéria japonesa a seu respeito, postadas ainda hoje pela página Sad Machines no Facebook.

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Sad Machines.net

As legendas em japonês não ajudam, mas as imagens mostram que a conversão foi bem feita: a carroceria tem portas tesoura, capô e tampa traseira funcionais, e quando esta última está aberta é possível ver a caçamba do Acty, que foi mantida.

O interior aparentemente só acomoda uma pessoa e tem um banco concha e um volante bem pequeno. Não parece ser tarefa fácil enxergar o mundo lá fora dirigindo o Honda HA-3R, e não há possibilidade alguma de seu desempenho ter melhorado com as modificações, mas neste tipo de projeto o que importa é mesmo a estética. Considerando que muita gente ainda acha que é um NSX modificado, dá para dizer que o trabalho foi bem feito.