Hot Wheels: a história das miniaturas de carros mais famosas do mundo

Dalmo Hernandes 11 janeiro, 2018 0
Hot Wheels: a história das miniaturas de carros mais famosas do mundo

Quer dar um presente bacana para um entusiasta sem gastar muito? Dê a ele um ou dois Hot Wheels. Sério. Eles custam entre R$ 7 e R$ 10 e podem ser encontrados em qualquer lugar. Dia desses fui a uma farmácia e levei um Mazda RX-7 azul para casa, feliz da vida. Sim, um marmanjo com barba na cara. Mas atente-se a um detalhe importante: precisa ser um carro que existe de verdade. Aliás, as últimas séries de Hot Wheels andam bem legais, com vários modelos detalhados, com faróis, lanternas e emblemas pintados.

O caso é que os Hot Wheels completaram exatos 50 anos no último dia 4 de janeiro. Eles foram lançados em 1968 pela Mattel, que na época já era uma empresa gigantesca, mas tirava praticamente todo o seu lucro das bonecas Barbie.

A ideia era competir com os Matchbox, carrinhos em escala 1:64 lançados pela britânica Lesney Products em 1946 que tinham como principais atrativos o baixo preço, a fidelidade na reprodução das linhas dos carros de verdade e a embalagem em formato de caixa, de onde vinha o nome Matchbox (“caixinha de fósforos” em tradução literal”). Como vendiam feito água, era natural que outras empresas quisessem uma fatia do bolo.

Matchboxking

No caso da Mattel, a iniciativa partiu de Elliot Handler, co-fundador da empresa, que achava um absurdo o fato de os carrinhos mais vendidos nos Estados Unidos serem fabricados na Inglaterra. Seus executivos de marketing julgaram a ideia equivocada e precipitada, mas eles não imaginavam que Handler estava fazendo tudo direitinho.

Para ele, uma forma de atrair os garotos para as prateleiras das lojas de brinquedos era criar carros mais divertidos, apostando menos no realismo e mais nas cores brilhantes e designs originais.

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Foram preparados dezesseis modelos diferentes, sendo que onze deles foram desenhados pelo projetista automotivo Harry Bentley Bradley.

Bradley era um nome conhecido na cena da Kustom Kulture, sendo o autor das linhas de dezenas de hot rods nos anos 50. Ele também projetou o conceito Deora, feito sobre uma van Dodge A100 com teto rebaixado e uma enorme caçamba. Apresentado em 1964, o Dodge Deora tornou-se um dos carros modificados mais famosos de seu tempo. A própria Chrysler gostou tanto do trabalho que deixou o Deora exposto por dois anos em seu museu na cidade de Detroit, ao lado de outros conceitos da marca.

1967 Dodge Deora Concept

O Dodge Deora também foi um dos dezesseis Hot Wheels iniciais, que posteriormente ficariam conhecidos como Sweet Sixteen. Os outros quinze eram uma mistura de carros reais e desenhos originais de Harry Bradley. Havia Chevrolet Camaro e Corvette, Cadillac Eldorado, Mercury Cougar, Pontiac Firebird e até um Fusca, todos customizados. Mas também havia hot rods do mundo real, como o Hot Heap, baseado no show car King T; e o Beatnik Bandit, criado por Ed Roth – o artista que deu forma ao mascote Rat Fink, um dos ícones da Kustom Kulture.

Os dezesseis primeiros Hot Wheels, ou “Sweet Sixteen”

Você deve ter reparado que todos eles têm uma linha vermelha na lateral dos pneus. Estas linhas era inspiradas pelos pneus de hot rods e muscle cars modificados, e apareceram em praticamente todo Hot Wheels até 1977, quando foram eliminadas para conter custos. Hoje em dia, elas aparecem apenas em séries especiais.

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O fato de serem mais coloridos e modificados que os Matchbox fez dos Hot Wheels um sucesso instantâneo. Mas havia outra característica que os Matchbox não tinha: as rodas com baixíssima fricção, sem buchas de borracha – apenas plástico rígido e liso em um eixo de metal. Já em 1969 era notável que as crianças preferiam os Hot Wheels, e a Mattel logo tratou de apresentar sua primeira pista, composta por peças de plástico na cor laranja de diferentes formatos. A pista acompanhava uma peça chamada Supercharger, uma pequena estação de serviço por onde os carrinhos passavam. Dentro desta estação havia rolamentos movidos a bateria que giravam e davam mais impulso para as rodas dos carrinhos, que continuavam correndo.

Foi também nesta época que foram lançados alguns dos Hot Wheels originais mais icônicos, como o Turbofire, o Splittin’ Image e o Beach Bomb – este, uma Kombi cor-de-rosa que veio a se tornar o Hot Wheels mais valioso de todos os tempos décadas depois: atualmente, o valor de um exemplar em bom estado de conservação pode chegar a US$ 150 mil, ou cerca de R$ 485 mil em conversão direta.

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Não havia mais discussão quanto à popularidade dos Hot Wheels àquela altura, mas a Mattel continuava tirando a maior parte de seu lucro das bonecas Barbie. Isto não impediu, contudo que fossem contratados novos designers. Em adição ao trabalho de Harry Bradley e Howard Hees, vieram também Paul Tam e Larry Woods – este, sem dúvida um dos designers mais conhecidos dos fãs das miniaturas.

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Larry Woods foi quem desenhou a carroceria e os gráficos dos dois Hot Wheels que ajudaram a marca a explodir em popularidade em 1970: o Snake e o Mongoose.

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O leitor assíduo do FlatOut vai lembrar que Snake e Mongoose foram dois pilotos americanos que mudaram para sempre a história das arrancadas. Mongoose era Tom McEwen, um dos pioneiros da arrancada nos Estados Unidos, que começou a competir nas dragstrips já na década de 50. Snake era Dom Prudhomme, alguns anos mais novo e estava nas pistas desde o início dos anos 60.

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Os dois eram amigos havia muito tempo, e já haviam se enfrentado diversas vezes nas pistas. Seus apelidos, coincidentemente, tinham a ver um com o outro: o mangusto (mongoose, em inglês) é o principal predador das cobras (snake) dos desertos nos EUA.

Em 1970, Snake e Mongoose já não eram mais tão jovens, tinham mulher e filhos e estavam pensando em abandonar as pistas de arrancada para conseguir empregos “normais”. Acontece que, em um belo dia de 1970, McEwen viu o filho brincando com um de seus Hot Wheels e teve um estalo: era aquele tipo de coisa que tornaria ele e seu amigo ricos e famosos.

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Snake e Mongoose formaram uma “dupla de arrancada”, que sairia rodando em turnê pelos Estados Unidos. Os dois só precisavam de patrocínio, mas já tinha tudo arranjado: através dos contatos de seu pai, ele conseguiu uma reunião com os diretores da Mattel. Lá, ele explicou seu plano.

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Patrocinando a dupla de arrancada, a Mattel conseguiria exposição para os Hot Wheels, e conseguiria torná-los tão bem sucedidos quanto a Barbie. A Mattel bancaria os salários da dupla, arcaria com todas as despesas de transporte e a preparação dos carros. Eles fariam caminhões, um para cada piloto, e a marca Hot Wheels ficaria estampada nas laterais. Todo mundo que fosse às corridas de arrancada veria aqueles carros barulhentos, potentes e coloridos, e seus filhos iriam querer carrinhos iguais.

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Foto: MyToyCars!

A gigante dos brinquedos decidiu arriscar, e fez exatamente isto. A dupla “Snake and Mongoose” fez um sucesso gigantesco e alavancou as vendas dos carrinhos. Naturalmente, havia versões em escala 1:64 de seus bólidos, ambas desenhadas por Larry Woods. E foi assim que os Hot Wheels se consolidaram no mercado, tornando-se o sucesso que são até hoje. Em 1997, a Mattel comprar os direitos sobre os carrinhos Matchbox – exatamente o que inspirou a criação dos Hot Wheels há 50 anos.

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