Hurtan: os curiosos carros retrô artesanais feitos na Espanha | Lasanhas sem Fronteiras

Dalmo Hernandes 15 maio, 2018 0
Hurtan: os curiosos carros retrô artesanais feitos na Espanha | Lasanhas sem Fronteiras

Quando menino, perguntei ao meu pai uma vez o que era preciso fazer para construir seu próprio carro. Ele disse que era preciso estudar muito, abrir uma empresa e trabalhar com várias outras pessoas, cada uma delas especializada no desenvolvimento de uma parte do carro. Ele não estava totalmente errado, e sabendo que construir carros não era para mim, acabei por trabalhar escrevendo sobre eles.

Só que há diferentes interpretações para a expressão “construir seu próprio carro”. Se você quer fazer tudo sozinho, é bom ser um cara muito inteligente, talentoso e multifacetado, capaz de desenhar um carro, projetar seu conjunto mecânico, fazer com que tudo se encaixe, soldar, moldar, montar, pintar, dar acabamento, testar e fazer os ajustes finais por conta própria. Não são muitos o que conseguem fazer tudo isto, e os que conseguem costumam virar lendas.

Agora, se você for um cara mais liberal e menos exigente, contentando-se em criar sua própria carroceria e montá-la sobre uma plataforma já existente… continua sendo uma tarefa para poucos. No entanto, é algo bem mais palpável e viável do que criar tudo do zero. Existiram e existem muitas companhias, grandes e pequenas, que usaram e usam outros carros como base para seus projetos. Nos anos 60, empresas de todo o planeta decidiram que o Fusca era um excelente ponto de partida para se crirar novos automóveis, mudando completamente o estilo da carroceria enquanto se aproveitava o confiável, simples e robusto conjunto mecânico em sua totalidade – chassi, direção, suspensão, freios, motor, câmbio e elétrica. O Puma VW, mais conhecido e bem sucedido fora-de-série brasileiro, pode na prática ser um Karmann Ghia (ou Brasilia) com carroceria de fibra de vidro, mas para seus admiradores e colecionadores ele é um carro diferente, com personalidade e propósito distintos daqueles do Carro do Povo.

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Conforme, enquanto os anos passavam, eu ia aprendendo estas coisas a respeito dos carros, até pensei em um dia criar minha própria carroceria e colocar sobre o chassi de um Volkswagen “a ar” – certamente seria o mais próximo de “construir meu próprio carro” que eu chegaria. E tudo bem. Pois na Espanha um homem levou seu sonho de infância, que era igual ao meu, a sério. Hoje sua companhia, a Hurtan, está perto de completar três décadas de existência e possui clientes espalhados por todo o planeta.

Juán Hurtado Gonzales, nascido em 1943 na cidade de Almería, no litoral sul da Espanha, queria construir um carro desde criança. O máximo que ele podia fazer então era brincar de carro de faz-de-conta, mas não demorou para que, aos doze anos de idade, começasse a trabalhar na serralheria de seu pai – mais por gosto que por necessidade. Com quinze anos, seus três anos de experiência lhe renderam uma contratação como especialista na Carrocerías Costa, em Barcelona, uma fabricante de cabines de caminhões, e era isto o que faltava a Juan para que ele seguisse rumo à indústria automotiva.

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Em 1961, aos dezoito anos de idade, Juán foi trabalhar na Motor Ibérica, onde construía as cabines do caminhão Pegaso Comet, um dos mais populares da Espanha na época que hoje é visto como um grande clássico. Dois anos depois, voltou para a Carrocerías Costa, que então começou a dedicar-se fabricação de carrocerias para o Seat 800.

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O Seat 800 era uma versão de quatro portas do Seat 600, que por sua vez era um Fiat 600 construído sob licença entre 1957 e 1970. Mais do que isto: o Seat 600 é considerado um símbolo do “Milagre Espanhol”, período de crescimento econômico que se deu entre 1959 e 1973, no fim do longo período de recuperação do país após a Guerra Civil Espanhola, que aconteceu na segunda metade dos anos 30 e teve impacto profundo na sociedade e na economia locais.

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Em 1950, já em vias de recuperação econômica, o governo espanhol decidiu dar incentivos ao nascimento da primeira fabricante de automóveis da Espanha, como parte de um programa de desenvolvimento tecnológico local. A Fiat, interessada em expandir sua atuação, teve papel crucial na viabilização deste plano, cedendo recursos técnicos, financeiros e humanos para a então recém-fundada Sociedad Española de Automóviles de Turismo (S.E.A.T.), que começou a produzir o 600 sob licença pouco depois. Tal qual diversos outros carros pequenos fizeram em países europeus nos anos 50, o Seat 600 ajudou a motorizar a população espanhola e tornou-se um ícone cultural.

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Pois bem: Juán Hurtado começou a trabalhar em 1963 na conversão do Seat 600 para 800 – de duas portas para quatro portas. Os cortes na carroceria eram feitos artesanalmente, assim como a moldagem das portas traseiras e a montagem da carroceria. Depois os carros eram enviados para a Seat, que instalava a mecânica e dava os toques finais de acabamento. Não demorou para que Juán e sua equipe estivessem convertendo até 40 carrocerias por dia.

Então, aos 20 anos de idade e já com oito anos de experiência como fabricante de carrocerias, Juán alistou-se no exército. Quando voltou, anos depois, decidiu tirar algum tempo de folga antes de abrir, em 1984, sua própria oficina de reparação de carrocerias em Granada, na província de Andaluzia, perto de onde nascera.

Rapidamente seu novo negócio começou a ficar conhecido na região, e Juán Hurtado adquiriu a reputação de um dos melhores funileiros e construtores de carrocerias de seu país. Em 1988, julgando já ter experiência e estabilidade suficientes, ele começou a desenhar o esboço de um novo modelo – um roadster retrô inspirado pelos carros que ele gostava quando era jovem, porém com tecnologia atual. Nascia a Hurtan, cujo nome era derivado do próprio sobrenome de Juan Hurtado.

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Inspirado pelos clássicos roadsters britânicos dos anos 40 e 50, o Hurtan T2 começou a ser fabricado em 1991. Ele lembrava um pouco o Jaguar XK120, mas não poderia ser mais diferente por baixo da carroceria: ele usava um chassi próprio com a mecânica do Renault Clio de primeira geração, com os mesmos motores quatro-cilindros de 1,2 ou 1,4 litro e 60 cv ou 80 cv, respectivamente. Em 1996 foi lançada uma versão de quatro lugares.

O Hurtan T2 tinha carroceria de fibra de vidro, usava componentes mecânicos novos fornecidos pela Renault e era feito de acordo com as especificações do cliente, utilizando sempre materiais nobres como couro, metal e madeira no interior. Oferecia-se garantia de fábrica e a manutenção era praticamente igual à de um Clio. Considerando a natureza exclusiva dos carros da Hurtan, a marca de 432 exemplares fabricados entre 1991 e 2002 é boa para uma companhia pequena trabalhando de forma artesanal.

Em 2004 0 Hurtan T2 deu lugar ao Albaycin, que seguia a mesma filosofia, porém usando as entranhas do Renault Clio de segunda geração. Com isto era possível escolher entre motores de quatro cilindros em linha que variavam entre 60 cv e 182 cv, sempre com garantia de fábrica e quaisquer itens de conforto e conveniência oferecidos pelo Clio.

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O Albaycin, que ganhou uma versão de quatro lugares em 2006, foi produzido até 2010. Então, a recessão econômica mundial fez com que a Hurtan encerrasse temporariamente a fabricação de carros, voltando a concentrar-se em serviços de reparo, restauração e construção de carrocerias.

Foi preciso esperar oito anos até que a Hurtan voltasse a fabricar automóveis. Ao longo deste período foi desenvolvido um novo modelo, o Hurtan Author, carro retro “de luxo” feito com base no Chrysler PT Cruiser.

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As proporções verticalizadas da carroceria dão a pista do projeto do qual o Author deriva – o PT Cruiser era um hatch de proporções avantajadas com estilo retrô, o que ajuda na hora da transformação. Como o Author é um carro de nicho e o PT Cruiser foi fabricado por uma década inteira, entre 2000 e 2010, não é difícil encontrar exemplares “doadores”. Os motores são de origem Chrysler, naturalmente – duas versões do motor 2.4 da empresa americana, sendo uma delas naturalmente aspirada de 143 cv, e a outra turbinada, com 230 cv.

O interior usa a arquitetura do PT Cruiser, incluindo o painel de instrumentos, os bancos e os equipamentos de conforto e conveniência. No entanto, é possível escolher entre diversas opções de acabamento e pintura.

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Agora, os carros da Hurtan podem não fazer nosso tipo ou o tipo do nosso público entusiasta. Contudo, eles são uma prova de que é possível fazer seus próprios carros usando outros modelos como base e ter sucesso nos dias de hoje – a Hurtan, com apenas oito funcionários, tem faturamento de € 600.000 (cerca de R$ 2,4 milhões) por ano. Seu público principal fica no Oriente Médio e na Rússia, onde os modelos da Hurtan são mais populares do que na própria Espanha.